Champions League

Com voracidade e entrega, o Villarreal beirou a perfeição para derrotar o Bayern numa noite pulsante em La Cerámica

O Villarreal abriu o placar logo de cara, seguiu com as melhores chances e conseguiu anular o Bayern com uma marcação impecável

O Villarreal possui uma história belíssima nas competições europeias. Não é exagero dizer que o Submarino Amarelo reúne mais lembranças inesquecíveis além das fronteiras do que no próprio Campeonato Espanhol. E, nesta quarta-feira, o Estádio de la Cerámica presenciou uma noite que se candidata até como a maior do clube pela Champions League. Com todos os méritos, o Villarreal derrotou o Bayern de Munique por 1 a 0, na ida das quartas de final. O gol de Danjuma logo aos oito minutos desenhou uma partida favorável aos anfitriões. Ainda assim, isso não resume a grandiosidade da atuação do time de Unai Emery. Os espanhóis foram perfeitos na marcação, sem conceder chances claras aos bávaros – e sem precisar optar pelo ferrolho. O futebol do Submarino Amarelo continuou fluindo muito bem com a bola e, se outro gol saísse, provavelmente seria da equipe da casa. Uma noite perfeita de entrega do time e sinergia com a torcida, antes que o desafio seja a volta na Allianz Arena.

O Villarreal vinha desenhado no seu 4-4-2. Gerónimo Rulli abria a escalação no gol, com Raúl Albiol e Pau Torres na zaga, além de Juan Foyth e Pervis Estupiñán nas laterais. O quarteto no meio era formado por Giovani Lo Celso, Étienne Capoue, Dani Parejo e Francis Coquelin. Já na frente, Arnaut Danjuma e Gerard Moreno, com a volta do artilheiro como titular na Champions. O Bayern apostava num 4-2-3-1 mais básico. A boa notícia era a volta de Alphonso Davies na lateral esquerda, em linha defensiva que reunia Benjamin Pavard, Dayot Upamecano e Lucas Hernández, à frente de Manuel Neuer. Joshua Kimmich e Jamal Musiala formavam uma leve dupla de volantes. Kingsley Coman, Thomas Müller e Serge Gnabry eram os meias, no apoio a Robert Lewandowski.

O início da partida não era fora do script, com o Bayern de Munique mais presente no ataque e buscando suas chances. O Villarreal, porém, não se acanhava após as recuperações. E, logo aos oito minutos, o jogo ficaria confortável para o Submarino Amarelo. O primeiro gol saiu a partir de uma tabela pela direita, entre Lo Celso e Gerard Moreno. Dani Parejo recebeu o passe na área e chutou sem tanta direção, mas Danjuma apareceu no meio do caminho para desviar e vencer Neuer. A partir de então, os espanhóis poderiam manter a consistência na defesa e explorar melhor seus ataques.

O Bayern tinha problemas para superar as trincheiras do Villarreal. Os bávaros não conseguiam entrar na área e também não encontravam muitos espaços nas pontas. Além disso, a capacidade do Submarino Amarelo nos combates era impressionante, com Pau Torres e Raúl Albiol muito precisos quando precisavam entrar em ação. Os alemães se limitavam a chutes de média distância, sem direção. Quando os espanhóis recuperavam a posse, também trabalhavam um pouco mais antes de tentar o passe final. De jeito nenhum apelavam à fórmula “retranca e ligação direta”. Era uma partida sólida dos anfitriões, com um nível de concentração altíssimo.

A partida continuava disputada na intermediária. O Bayern de Munique trocava passes, mas não conseguia encaixar nenhuma jogada mais aguda. O Villarreal também tinha méritos pela forma como congestionava a entrada da área, com a entrega total de seus meio-campista. Até as finalizações dos bávaros eram raras, enquanto Lewandowski se via encaixotado. E os visitantes quase tomaram o segundo aos 41, quando um cruzamento fechado de Coquelin encobriu um perdido Neuer e morreu na bochecha da rede. Porém, o gol seria anulado por impedimento. Ainda assim, quando recuperava a bola, o Submarino Amarelo era mais direto – e mais perigoso, mesmo sem grandes chances criadas.

Danjuma vence Neuer (David Ramos/Getty Images/One Football)

O segundo tempo começou aberto. O Villarreal não abdicava de jogar no chão e tocar a bola. O Bayern passou a tentar forçar um pouco mais, e a acionar Davies na esquerda. Numa batida cruzada de Gnabry, Müller ficou a centímetros de desviar, embora parecesse impedido. Só que a partida não era um monólogo. O Submarino Amarelo contava com um lado direito forte, com Gerard Moreno caindo por ali. Aos oito minutos, o atacante abriu para o chute de fora da área e mandou uma pancada no pé da trave. A diferença mínima, a essa altura, era lucro aos bávaros.

O Villarreal não era de contra-ataques, mas não abriria mão quando tivesse um. Foi o que aconteceu aos 12, numa trama rápida pela esquerda. Danjuma tocou para o meio da área e Moreno bateu de primeira, mas Davies travou com um carrinho providencial. Logo depois, Coquelin seria substituído por Alfonso Pedraza, que teria uma batida para fora. O Bayern estava exposto atrás e não era tão contundente na frente, com o foco do Submarino Amarelo ainda muito alto sem a bola. O desespero dos alemães era tanto que, aos 17, eles quase tomaram um gol do círculo central. Neuer errou um passe e Moreno interceptou ainda no campo de defesa. Com o goleiro fora da área, chutou direto, mas viu o tiro sair ao lado da trave.

As primeiras trocas do Bayern aconteceram nesse momento, com Leroy Sané e Leon Goretzka nas vagas de Gnabry e Müller. Os bávaros conseguiam expor um pouco mais a defesa do Villarreal, mas a atuação dos espanhóis era precisa. Quando Musiala escapava para invadir a área, Pau Torres fez um desarme de manual. Foi neste momento, aos 21, que saiu o primeiro chute certo dos alemães. Davies bateu de fora da área e Rulli defendeu com segurança. Mas não que o Submarino Amarelo se entregasse à pressão. Em outro contragolpe, Danjuma apareceu com espaço na área, mas atrasou o chute e viu a defesa travar. O jogo era lá e cá. Coman tentaria bater cruzado do outro lado e Pau Torres deu uma casquinha de cabeça para desviar do endereço.

O Bayern trocou de novo aos 26, quando Niklas Süle suplantou Pavard. Sem efeito imediato na alteração para reforçar a marcação pelo lado direito, os sustos provocados pelo Villarreal se sucediam. Primeiro, num contra-ataque, Lo Celso demorou para tocar e foi bloqueado. Pouco depois, Estupiñán cruzou e Danjuma ficou a centímetros de cabecear. Do outro lado, sempre que os bávaros tentavam um lance mais ofensivo, terminavam travados. A vitalidade do Submarino Amarelo também era um trunfo e, aos 36, ela aumentaria com as incursões de Serge Aurier e Samuel Chukwueze.

Num jogo que não se abria ao Bayern, o Villarreal lamentou uma enorme chance perdida aos 42. Lo Celso, em grande noite, puxou mais um contra-ataque aberto. O argentino desta vez esperou o tempo correto e abriu com Pedraza. Contudo, o meia pegou mal na bola e mandou direto para as arquibancadas. Os minutos finais ainda dependeriam da abnegação do Submarino Amarelo, com muita atenção para conter o desespero dos bávaros. Quando Coman enfim teria espaço para arrematar na área, se precipitou e chutou em cima de Rulli. Já nos acréscimos, teria a reclamação de um pênalti, por uma disputa em que o cotovelo de Pau Torres acertou o rosto de Goretzka, mas a arbitragem entendeu como lance normal. Seria a última esperança de empate antes que o apito final confirmasse a linda festa em La Cerámica.

É até difícil dizer quem foi o melhor em campo do Villarreal. Grande parte do time atuou em seu nível mais alto. Danjuma, Moreno, Lo Celso, Parejo, Coquelin, Torres, Capoue, Estupiñán, Albiol, Foyth – todos foram excepcionais. Talvez o “pior” seja mais fácil, até porque Rulli nem foi exigido. E, acima de todos, Unai Emery precisa ser reconhecido pela maneira como extraiu tamanho desempenho de seu coletivo. Se o Submarino Amarelo tiver o mesmo equilíbrio na Allianz Arena, a classificação é bem possível. Já o Bayern precisará rever o duelo e pensar soluções. Os bávaros foram inócuos, e muito por méritos dos adversários, que não os deixaram jogar. Numa temporada bastante oscilante na Baviera, esse é o maior momento de incerteza sobre a equipe de Julian Nagelsmann.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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