Champions League

Com uma armada reforçada, Inglaterra tenta encerrar período de seca na Europa

Precisa ou equivocada, é uma opinião comum que a Inglaterra possui a melhor liga do mundo. A mais rica, certamente, mas também a mais equilibrada e com o maior número de bons times. Caso isso seja verdade, algo esta impedindo o futebol inglês de comprovar essa suposta superioridade no principal palco da Europa. A última vez que um clube que paga impostos à rainha conquistou a Champions League foi em 2012, quando o Chelsea venceu o Bayern de Munique nos pênaltis.

LEIA MAIS: 15 grandes jogos do passado que serão reeditados na fase de grupos da Champions

Aquela decisão, em que Drogba despedaçou sonhos bávaros na Allianz Arena, foi a última final de um coletivo de sete em oito temporadas com pelo menos um clube inglês, começando em 2005, quando o Liverpool operou um milagre em Istambul. A única exceção foi 2010, com Bayern e Internazionale brigando pelo troféu no Santiago Bernabéu.

A própria conquista do Chelsea foi um ponto fora da curva e uma evidência da decadência britânica. A equipe de Roberto Di Matteo teve muitos méritos, coração forte e um sistema defensivo sólido, mas não era a melhor do continente. Era amassada pelo Barcelona nas semifinais, até Fernando Torres escapar para decretar a classificação, e empatou a decisão contra o Bayern apenas aos 43 minutos do segundo tempo.

Desde então, os clubes ingleses não tem sequer ameaçado brigar de verdade pelo troféu mais cobiçado da Europa. Foram apenas duas semifinais: uma com o Chelsea de José Mourinho, impotente diante do Atlético de Madrid; e outra do Manchester City, no fim do desgastado trabalho de Pellegrini, derrotado pelo Real Madrid passando a sensação de que já havia ido longe demais. As duas campanhas guardam semelhanças entre si. Ambos os times tiveram adversários acessíveis nas oitavas de final – Galatasaray e Olympiacos – e eliminaram um ainda inexperiente Paris Saint-Germain nas quartas. Na hora de a onça beber água, sucumbiram a equipes melhores sem oferecer muita resistência

O que explica a derrocada britânica? Há muitas teses. Uma interessante, e até irônica considerando o tamanho dos cheques que os ingleses assinam toda janela de transferência, é monetária. O clube de maior faturamento do mundo ano passado foi o Manchester United, superando o Real Madrid, mas os Red Devils têm sofrido para seguir em frente depois da aposentadoria de Alex Ferguson e ficou fora de algumas edições recentes.

Todas as outras agremiações da ilha estão abaixo de Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique, o trio de elite que tem dominado a Champions League nos últimos anos, e apenas o City está acima do Paris Saint-Germain. É verdade que há ocasiões em que os principais jogadores dos ingleses, ou seus alvos de mercado, preferem a dupla espanhola ou o gigante alemão. Também é que eles encaram um mercado inflacionado porque todo mundo consegue acessar a BBC e descobrir que estão entrando na conta muitas libras do maior contrato de direitos de TV da história. Mas essa é a desculpa mais frágil que os ingleses podem dar.

Primeiro, porque nesse período desde a final do Chelsea, todos os anos chegou à final um clube que está ainda mais para trás na cadeia alimentar. Entre os maiores ingleses, os faturamentos de Borussia Dortmund e Juventus superam apenas o do Totenham. O do Atlético de Madrid, nem isso. Todos eles fizeram papéis honrosos na Champions League, apesar de terem tido um encontro duro com a realidade na hora de a onça beber água.

Segundo, porque os ingleses não estão perdendo apenas para esse trio de elite ou para o PSG – o Arsenal encontrou com eles quatro vezes, o que representa uma extraordinária falta de sorte, mas, quando pegou o Monaco, também caiu nas oitavas de final. Há uma história curta, porém intensa de fracassos ainda na fase de grupos: o Manchester City chegou a ficar atrás do Ajax; o Liverpool foi eliminado em uma chave que tinha Basel e Ludogorets; o Chelsea, quando era atual campeão, não conseguiu superar o Shakhtar Donetsk; o Manchester United ficou em terceiro para Wolfsburg e PSV; o Tottenham, para Monaco e Bayer Leverkusen.

Teses mais sólidas falam justamente sobre a forte concorrência interna, o que impede os clubes de pouparem seus jogadores tanto quanto gostariam na Premier League, sob o risco de deixar pontos importantes pelo caminho, e o calendário. A Inglaterra é a única liga que não apenas ignora a pausa de inverno como tenta concentrar o maior número de jogos possível nesse período, fazendo com que seus times cheguem com a língua de fora a fevereiro, quando começa o mata-mata da Champions League. E, claro, uma coleção de decisões erradas em técnicos, jogadores e na formação dos times que não pode ser ignorada.

A Inglaterra sofreu o sério risco de perder a quarta vaga na Champions League para a Itália. Sorte dela que a Uefa decidiu mudar as regras do jogo e garantiu quatro clubes das quatro primeiras ligas do seu ranking na competição, a partir da próxima temporada. Simbolicamente, a atual edição do torneio será a primeira vez na história que o país coloca cinco representantes na fase de grupos, graças ao título do United na Liga Europa e à classificação do Liverpool contra o Hoffenheim, nas fases preliminares.

Com uma armada reforçada e extensa, os ingleses têm a melhor oportunidade em anos de retomar o protagonismo na Champions League, até porque Bayern de Munique e Barcelona não parecem tão fortes nesta temporada. Qual deles pode conseguir?

Chelsea                                                                                                                                              
Diego Costa e Antonio Conte (Foto: Getty Images)
Diego Costa e Antonio Conte (Foto: Getty Images)

O atual campeão inglês deveria estar no topo da lista dos times que podem brigar pelo título europeu, mas o Chelsea passou por um verão muito complicado. Perdeu dois titulares – Matic para o Manchester United, e Diego Costa para desavenças com o técnico Antonio Conte – e os repôs com jogadores que ainda precisam provar que estão no mesmo nível. O resto do mercado trouxe peças para inchar o elenco sem necessariamente melhorá-lo. Os Blues não parecem mais fortes do que ano passado, ou em relação a seus principais rivais, mas isso também era verdade na última Premier League, e Conte os liderou ao título.

Tottenham
Harry Kane, do Totteham (Foto: Getty Images)
Harry Kane, do Totteham (Foto: Getty Images)

Muitas vezes o Tottenham joga o melhor futebol da Inglaterra, mas não conseguiu desempenhá-lo na temporada passada. Ficou em terceiro lugar em um grupo acessível, atrás de Monaco e Bayer Leverkusen. No mínimo, equipes de nível semelhante. Nada incomum para uma equipe jovem como a comandada por Mauricio Pochettino. Observemos se a experiência consegue fazê-la superar os problemas em casa. Os Spurs mandaram seus jogos europeus em Wembley e não foram bem, com duas derrotas e uma vitória. Mais uma vez terá que ser assim. Com o White Hart Lane sendo reformado, esse expediente também está sendo usado na Premier League. E os Spurs ainda não se encontraram como mandante no lendário estádio de Londres.

Manchester City
Pep Guardiola, técnico do Manchester City (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)
Pep Guardiola, técnico do Manchester City (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

Pep Guardiola entra no seu segundo ano de trabalho com o Manchester City, tentando passar a sua experiência de ter chegado a sete semifinais de Champions League em oito anos como técnico – com duas decisões e dois títulos – para um clube que busca a inédita glória. Teve um dos mercados mais movimentados da Europa, prioritariamente contratando laterais para repor os que foram embora, já no ocaso de suas carreiras. A prioridade é um sistema defensivo mais sólido. A última eliminação dos Citizens foi cortesia do Monaco, que vazou a meta inglesa seis vezes nas oitavas de final e se classificou pelos gols marcados fora de casa. Bom para quem assiste, mas números para deixar Guardiola ainda mais careca.

Liverpool
Coutinho, do Liverpool (Foto: Getty Images)
Coutinho, do Liverpool (Foto: Getty Images)

É apenas a segunda vez que o clube inglês que mais vezes conquistou a Europa disputa a Champions League desde 2009. A primeira não foi muito boa: comandado por Brendan Rodgers, o Liverpool foi eliminado ainda na fase de grupos, atrás do Basel, com direito a uma vexatória viagem ao Santiago Bernabéu para enfrentar o Real Madrid com um time reserva, praticamente abrindo mão do resultado. Jürgen Klopp, finalista em 2013 com o Borussia Dortmund, tem a missão de não permitir que isso aconteça novamente. Desta vez, o grupo é mais tranquilo, conveniente para uma equipe com pouca experiência continental se aclimatar com as novidades. Os Reds têm um ataque letal, com Mané, Salah e Firmino – pergunta para o Hoffenheim – e mantiveram Coutinho. Mas não contrataram nenhum zagueiro na última janela de transferências e as opções para a defesa parecem escassas, para dizer o mínimo.

Manchester United
Lukaku, do Manchester United (Foto: Getty Images)
Lukaku, do Manchester United (Foto: Getty Images)

Falando em experiência na Champions League, o Manchester United conta com um treinador que conhece a competição como a palma da mão. José Mourinho a venceu com o Porto e com a Internazionale e não mediu esforços para contestá-la novamente. Contratou Romelu Lukaku para fazer os gols e Matic para reforçar o meio-campo. O começo de Premier League foi promissor, com dez gols marcados e nenhum sofrido nas três primeiras rodadas, mas ainda é uma equipe que busca o equilíbrio entre a defesa e o ataque. Para o mata-mata, caso os Red Devils cheguem lá, haverá mais um reforço: Zlatan Ibrahimovic retornou para ter uma de suas últimas chances de finalmente fazer muito barulho na competição europeia.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo