City tinha o confronto mais simples dentre os ingleses, mas é o que entra mais pressionado
O sheik Mansour não começou a despejar dinheiro no Manchester City esperando resultados e retorno financeiro imediatos. Desde o início, tratou sua empreitada no clube como um projeto a longo prazo, e em alguns anos a equipe se alçou à condição de potência no futebol inglês. Com todo o dinheiro já investido e o que tem por vir ainda, o próximo desafio natural para a equipe é a conquista da Champions League, mas, antes de pensar em vencê-la, é preciso se habituar a disputá-la de maneira contundente, algo que os Citizens ainda não conseguiram. O sorteio das oitavas de final apresentou ao time uma oportunidade de ouro para isso, já que o azar das duas temporadas passadas ficou para trás.
VEJA TAMBÉM: Trivela #01: a estreia no Youtube fala de camisas x bandeiras
Se naquelas campanhas o primeiro oponente do mata-mata foi logo de cara o poderoso Barcelona, desta vez a sorte presenteou a equipe de Manchester com o Dynamo Kiev, o adversário mais simples dos ingleses que ainda estão vivos na competição – Arsenal e Chelsea, além do City. Pelo menos na teoria, porque na prática, embora seja o clube da Premier League com o adversário mais fraco, o Manchester City é o que chega em fase mais irregular e com a maior pressão por um resultado positivo, algo causado em parte pelo próprio gerenciamento da preparação para o jogo com os ucranianos.
O sacrifício da Copa da Inglaterra
Ainda no páreo de todas as competições da temporada, o Manchester City mandou a campo, no último domingo, uma equipe repleta de garotos, entre 18 e 19 anos, para enfrentar o Chelsea, pela Copa da Inglaterra. No time titular, eram seis deles, e mais dois entraram ao longo da partida, que, sem surpresas, terminou em goleada para os Blues por 5 a 1. Manuel Pellegrini justificou sua escolha com o problema com lesões com que o time tem sofrido. No duelo do fim de semana, seis jogadores não estiveram à disposição por estarem contundidos, e o técnico argumentou que não poderia “arriscar não tê-los recuperados ou sofrendo outra lesão hoje (domingo, 21), temos um longo voo amanhã (22). Acho que fizemos a coisa certa, a melhor decisão para nosso clube”. Faltou algum equilíbrio ao técnico.
Escalar uma equipe tão inexperiente contra um adversário forte como os Blues foi, deliberadamente, abrir mão de um confronto que tinha tudo para ser um dos melhores do torneio e, pior, foi desistir da Copa da Inglaterra, a segunda competição doméstica mais importante do país. “Se tem um time que respeita todas as competições, esse time somos nós. É por isso que estamos na final da Copa da Liga Inglesa, é por isso que vencemos os dois jogos anteriores nesta competição (Copa da Inglaterra). Se hoje não conseguimos, é porque temos coisas mais importantes neste momento”, completou Pellegrini, que não convenceu boa parte da imprensa e da torcida do City, que, ainda se acostumando a ganhar seus títulos após décadas sem eles, não se sente confortável em abandonar uma disputa dessa maneira.
Mais do que passar a impressão de que não dava importância à FA Cup, o chileno colocou uma pressão ainda maior sobre a necessidade de um bom resultado contra os ucranianos ao exacerbar a já natural prioridade à Liga dos Campeões. O que inicialmente, no momento do sorteio, no ano passado, tinha tudo para ser um confronto simples agora ganha contornos de decisão, potencializados com o sacrifício de uma das competições em que o City poderia brigar pelo título. E a fase atual não ajuda em nada a projetar uma vida fácil contra o Dynamo e amenizar os efeitos da tensão sobre os jogos das oitavas de final.
Instabilidade técnica do City pode equilibrar um pouco mais o duelo
O técnico e o elenco do Manchester City podem negar que o anúncio da chegada de Pep Guardiola ao fim da temporada atrapalhe de alguma maneira os três meses finais da atual campanha, mas, desde que tornou-se público o acerto do espanhol com os Citizens, a equipe perdeu os três jogos que disputou no intervalo, contra Leicester, Tottenham e Chelsea.
O momento é o ápice de uma fase instável que já se estende há algum tempo, com o time tendo vencido apenas seis de seus últimos 15 jogos no Campeonato Inglês. Para piorar, a lista de cinco atletas contundidos que não estarão à disposição de Pellegrini nesta quarta-feira inclui o meio-campista Kevin De Bruyne, contratado em setembro e que vinha fazendo uma excelente temporada de estreia.

O adversário, que a princípio não assustava, diante das circunstâncias atuais do time de Manchester, pode se aproveitar para usufruir de seu próprio bom momento para tentar surpreender uma equipe que parece navegar sem o rumo que se esperaria a essa altura da temporada. Na Ucrânia, o Dynamo é o segundo colocado da liga, com os mesmos 43 pontos que o líder Shakhtar Donetsk e tendo deixado escapar a vitória apenas em duas das 16 rodadas, com um empate e uma derrota. A esperança do City para que o oponente não chegue para o duelo em sua melhor forma possível é o fato de que os ucranianos não jogam uma partida oficial na temporada desde 9 de dezembro, quando bateu o Maccabi Tel-Aviv pela própria Champions League.
O sonho compartilhado
Após quase três temporadas, Manuel Pellegrini tem data marcada para dar adeus ao comando do Manchester City. No clube, conquistou uma Premier League, uma Copa da Liga Inglesa, e seu trabalho agradou mais aos torcedores do que dos técnicos que o antecederam. Sua despedida dos Citizens tem sido amigável e acontece apenas pelo fato de que um time com as ambições do City não pode deixar escapar a oportunidade de contar com um técnico do patamar de Pep Guardiola, sobretudo para brigar seriamente pelo sonho da Champions League nos próximos anos.
O sheik Mansour comprou o Manchester City em 2008, fez de Robinho sua primeira contratação, por £ 32,5 milhões logo em sua chegada ao clube, e, desde então, gastou mais de £ 774 milhões em multas rescisórias, fortalecendo a equipe a cada temporada, de acordo com as necessidades de elenco e com o objetivo de ter mesmo no banco de reservas grandes opções. Após tanto investimento, a contratação de Guardiola mostra que a espera por resultados na Champions League acabou. É preciso ao menos ir mais longe, mantendo, evidentemente, o sonho do título.
A conquista é um objetivo enorme da instituição, mas compartilhado também por Pellegrini, que sabe que deixaria a equipe entrando para a história do clube se conseguisse, de alguma maneira, levá-la ao caneco inédito. Com tempo contado, já sabendo que não continua na próxima temporada, o chileno deve estar se sentindo livre para tomar os riscos que julga necessários para tentar a improvável conquista, e isso inclui poupar jogadores e abrir mão de uma competição importante para um confronto contra o Dynamo Kiev, ainda pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Mas isso não significa que a insatisfação será menor no fim da semana se o sacrifício não se traduzir em um bom futebol contra os ucranianos.



