Champions League

Cinco embates memoráveis do passado que se reeditarão nas oitavas da Champions

Por Leandro Stein

O sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões reservou grandes confrontos. Camisas pesadas que colocarão sua tradição em jogo, buscando o sucesso continental. E muitos destes embates possuem seu antecedente no passado. Duelos igualmente importantes, que marcaram a história de diferentes competições europeias. Abaixo, selecionamos cinco, todos notáveis. Uma pitada de história, à espera do presente:

Juventus x Atlético de Madrid
Semifinal – Taça das Cidades com Feiras 1964/65

A Taça das Cidades com Feiras não costuma ser considerada oficialmente pela Uefa, mas é a precursora da antiga Copa da Uefa – e atual Liga Europa. A competição servia de alternativa no cenário continental, sobretudo na década de 1960, e reuniu alguns esquadrões. Um dos grandes embates ocorreu em 1964/65, pelas semifinais. Botou frente a frente Juventus e Atlético de Madrid. Os italianos viviam um momento de entressafra, mas ainda assim com ótimos valores no elenco – a exemplo de Luis Del Sol, Sandro Salvadore, Dino da Costa, Omar Sívori e Néstor Combin. O favoritismo, de qualquer forma, era dos espanhóis, que nos anos anteriores haviam disputado duas finais da Recopa Europeia e vencido uma. Treinados por Otto Bumbel, tinham à sua disposição ídolos do porte de Luis Aragonés, José Ufarte, Adelardo e Mendonça.

O equilíbrio prevaleceu no confronto. Aragonés acabou com o jogo de ida, no antigo Estádio Metropolitano. De virada, fez uma tripleta nos 3 a 1 do Atleti. O troco da Juve veio no Estádio Comunale de Turim. Menichelli, Combin e Bercellino abriram o caminho em sete minutos, até que Aragonés descontasse no fim. O novo 3 a 1 forçava um jogo extra, realizado uma semana depois na própria Turim. E outra vez o 3 a 1 se repetia no placar, desta vez com Stacchini e Salvadore garantindo a classificação da Velha Senhora à final continental. Terminaram derrotados pelo Ferencvárosi, base da seleção húngara.

Ajax x Real Madrid
Semifinal – Copa dos Campeões 1972/73

O Ajax ficou a um triz de eliminar o Real Madrid na primeira fase da Copa dos Campeões em 1967/68. O time de Rinus Michels eclodia, já com Johan Cruyff brilhando dentro de campo. Porém, depois de 180 minutos com dois gols para cada time, os merengues de Paco Gento carimbaram a passagem na prorrogação. Cinco temporadas depois, aconteceu o reencontro. E a noção sobre os gigantes era totalmente diferente. Enquanto os holandeses haviam conquistado dois títulos continentais seguidos nas temporadas anteriores, os espanhóis estavam distantes do esplendor de outrora. Assim, os Godenzonen sobraram nas semifinais da Champions de 1972/73 e avançaram à decisão continental pelo terceiro ano consecutivo.

A ida aconteceu em Amsterdã. E o Ajax, então treinado por Stefan Kovács, não teve problemas para se impor. Cruyff, Rep, Keizer, Haan, Neeskens e Suurbier foram coadjuvantes em noite estrelada por Hulshoff e Krol, autores dos gols no segundo tempo. A sete minutos do fim, Pirri descontou ao Real Madrid, ainda comandado por Miguel Múñoz, e que tinha a seu serviço Santillana, Zoco e Amancio. O triunfo por 2 a 1 era uma boa vantagem aos holandeses, mas não uma garantia. Assim, a classificação se consumou no Bernabéu, com nova vitória dos Ajacieden. Diante de 110 mil espectadores, Gerrie Mühren anotou o gol decisivo. No segundo tempo, Mühren ainda fez um punhado de embaixadinhas no campo de ataque. Segundo suas próprias palavras, foi a prova cabal de que o Real Madrid passava o seu bastão ao Ajax naquele momento, como grande força continental.

Manchester City x Schalke 04
Semifinal – Recopa Europeia 1969/70

A tradição de Manchester City e Schalke 04 nas copas europeias não é tão ampla quanto a de outros participantes desta Liga dos Campeões. Ainda assim, os oponentes protagonizaram um momento grandioso na temporada 1969/70. Pela primeira vez, ambos disputavam uma semifinal continental, buscando a decisão da Recopa. Treinado pelo lendário Joe Mercer, o City atravessava os seus anos áureos, estrelado por nomes como Francis Lee, Mike Summerbee e Colin Bell. No caminho até ali, chegou a despachar o Athletic Bilbao. Já o Schalke também possuía seus ídolos, como Norbert Nigbur, Klaus Fichtel, Rolf Rüssmann e Stan Libuda. Os Azuis Reais vinham motivados especialmente depois de derrubarem o Dinamo Zagreb.

Campeão inglês dois anos antes, o Manchester City tomou um susto no encontro em Gelsenkirchen. Libuda anotou o gol da vitória do Schalke por 1 a 0. O renomado ponta arrancou pela direita e, perseguido por dois jogadores ingleses, fez ambos se enroscarem sozinhos, antes de bater cruzado. No reencontro em Maine Road, porém, aquele timaço do City fez uma de suas melhores atuações. O ataque fluiu muito bem e proporcionou um massacre: 5 a 1 para os celestes. Logo no primeiro tempo, os anfitriões fizeram três. Colin Bell e Alan Oakes estavam afiados na armação, enquanto Mike Doyle e Neil Young (duas vezes) balançaram as redes. Já no segundo tempo, coube a Lee e Bell fecharem a conta, sem qualquer piedade. No fim, Libuda descontou, fazendo o de honra dos Azuis Reais. Na decisão, os Citizens levaram a taça, batendo o Górnik Zabrze em Viena.

Liverpool x Bayern de Munique
Semifinal – Copa dos Campeões 1980/81

Houve uma transição entre Liverpool e Bayern de Munique no topo da Europa durante a década de 1970. No entanto, os dois confrontos dos gigantes naquela década não aconteceram pela Copa dos Campeões. Em 1970/71, os Reds avançaram nas quartas de final da Copa da Uefa, antes de sucumbirem ao Leeds United nas semifinais. O troco dos bávaros aconteceu meses depois, pelas oitavas da Recopa, mas eles também parariam nas semifinais, ante o Rangers. O tira-teima que todos esperavam veio nas semifinais da Champions de 1980/81. Se não era mais o Bayern de outrora, o time de Pál Csernai tinha seus craques e atropelara o Ajax no caminho. Paul Breitner e Karl-Heinz Rummenigge faziam o elo com os tempos abastados, em escalação que ainda possuía Dieter Hoeness e Klaus Augenthaler. Já o Liverpool de Bob Paisley, responsável por eliminar o forte Aberdeen, se preparava para tomar a Europa de assalto novamente. Tinha Kenny Dalglish, Ian Rush, Alan Hansen, Graeme Souness e grande elenco.

As figuras principais no enlameado gramado de Anfield, durante o jogo de ida, foram os goleiros Ray Clemence e Walter Junghans. Ambos seguraram o placar zerado, em duelo travado, que teve Breitner comandando o meio-campo. A igualdade botava o Liverpool em xeque. Com um time menos técnico, passaram a ser considerados carta fora do baralho pela imprensa local. Pior, Breitner os menosprezou publicamente e, quando chegaram ao Estádio Olímpico de Munique, os visitantes viram panfletos ensinando como ir a Paris (palco da final) sendo entregues à torcida alemã. Caldeirão de emoções que mexeu com os brios.

Quando a bola rolou, a situação parecia ainda mais difícil aos Reds, depois que Dalglish se lesionou logo na etapa inicial. Primeiro negro a jogar pelo clube, Howard Gayle foi o substituto e causou problemas com sua velocidade. O jogo, de qualquer forma, era marcado por faltas duras e provocações – sobretudo contra Gayle. Buscando a vitória, o Bayern pressionou principalmente no segundo tempo, mas viu os ingleses abrirem o placar a sete minutos do fim, graças à calma de Ray Kennedy, que matou no peito e fuzilou. Rummenigge empatou minutos depois, o que não adiantou. Graças ao gol fora, o 1 a 1 beneficiava o Liverpool, que seguiu a Paris e não deixou de provocar os bávaros nos vestiários. No Parc des Princes, ficaram com a taça, derrotando o Real Madrid.

Barcelona x Lyon
Oitavas de final – Liga dos Campeões 2008/09

Enquanto Pep Guardiola instaurava a sua dinastia no Barcelona, o Lyon de Claude Puel começava a viver o ocaso de seus anos áureos na Ligue 1. Ainda assim, o cenário era aberto entre o heptacampeão francês e o gigante espanhol em reconstrução. Os blaugranas tinham à disposição o trio ofensivo composto por Lionel Messi, Thierry Henry e Samuel Eto’o, muito bem escoltados por Xavi, Andrés Iniesta, Daniel Alves e outras feras. Já pelos Gones, Juninho Pernambucano orquestrava uma equipe que via a eclosão de Hugo Lloris e Karim Benzema, além de contar com Ederson, Jérémy Toulalan, César Delgado e outras referências da época.

No jogo de ida, em Gerland, Juninho começou brilhando. Anotou um golaço de falta, pegando Victor Valdés de surpresa. Benzema era outro que infernizava, criando ótimas chances. Mas o Barcelona também incomodava, com Eto’o carimbando a trave. E, no segundo tempo, depois de ótimas defesas de Lloris, Henry determinou o empate por 1 a 1 de peixinho. Já no Camp Nou, as esperanças dos franceses acabaram dizimadas. Pressionando desde os primeiros minutos, o Barça deslanchou graças a Henry, imparável com dois gols logo de cara. Antes do intervalo, o craque francês ainda serviria de garçom, com assistências a Messi e Eto’o. E mesmo que Jean Makoun e Juninho tenham descontado, a goleada permitiu que os culés administrassem a vantagem na maior parte da etapa final. Por fim, nos acréscimos, Seydou Keita fechou a conta em 5 a 2. Os catalães terminaram com a taça naquela temporada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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