Chelsea fez o que pode, mas não foi páreo ao pragmatismo do Barcelona e à genialidade de Messi
O placar do estádio Camp Nou mostrou 3 a 0 para o Barcelona diante do Chelsea, no jogo de volta das oitavas de final da Champions League. Olhando assim, a impressão é que os catalães sobraram. Passa longe de ser verdade. O Barcelona nem precisou ser melhor que o Chelsea na maior parte do confronto. Foi preciso, aproveitou os erros do adversário e, com um pragmatismo pouco comum nos últimos anos, passou pelo Chelsea contando com uma organização em campo, um sistema defensivo sólido. E mais um fator que é determinante: a genialidade de Lionel Messi. O argentino é o fator de decisão em um esquema tático montado para que ele tenha liberdade e dificulte a vida dos adversários se movimentando pelo campo.
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O empate no jogo de ida por 1 a 1 já pareceu pouco pelo que jogou o Chelsea. O time dirigido por Antonio Conte fez um bom jogo, embora tenha perdido chances de marcar, e acabou punido em um erro da saída de bola do seu zagueiro, Christensen. No jogo de volta, embora o placar tenha sido completamente diferente, os desempenhos foram parecidos. A diferença é que o Barcelona criou chances e aproveitou. Porque os erros do Chelsea surgiram e, novamente, foram fatais no placar. Enquanto o Barcelona teve Messi e foi defensivamente bem, sem erros, o Chelsea foi o contrário: teve volume de jogo, mas não teve ninguém decidindo e ainda falhou defensivamente.
Conte usou a sua formação costumeira, com um 3-4-3 que, na prática, é um 5-4-1. Moses e Alonso, os alas, recuavam como laterais. Willian e Hazard, dois dos atacantes, recuavam para o meio sem a bola. O Barcelona, por sua vez, também usou a sua formação habitual, com um 4-4-2. A diferença é que foi Dembélé que entrou como titular, não Paulinho (e nem Coutinho, que tem jogado ali no Espanhol, mas não pode jogar na Champions por ter entrado em campo pelo Liverpool). Tudo isso compunha o cenário, mas tudo ficou bem mais bagunçado ainda no início do jogo.
Logo no primeiro lance de ataque do jogo, o Barcelona abriu o placar. Messi conduziu a bola pela direita, tocou para Dembélé, que tentou devolver. A bola bateu na defesa, Suárez tocou de primeira e Messi, do lado direito e quase sem ângulo, finalizou de pé direito mesmo. Embaixo das pernas do goleiro. Eram só dois minutos e oito segundos, o gol mais rápido da carreira de Messi. E uma falha terrível do goleiro do Chelsea. Normalmente muito seguro e decisivo impedindo gols, desta vez Courtois falhou. E a vida do Chelsea se tornou bem mais difícil. O peso de ter que marcar um gol no Camp Nou aumentou ainda mais.
Depois de tomar o gol, o Chelsea tentou. Chegou ao campo de ataque algumas vezes, com Willian sendo o jogador mais participativo. Foram algumas boas jogadas, em velocidade, mas a defesa dos blaugranas seguia bem posicionada. Mesmo assim, foram algumas chances, nenhuma delas clara. No ataque do Chelsea, nem Hazard, nem Giroud faziam um grande jogo. No meio, Fàbregas não conseguia ter a influência no jogo que se sabe que ele pode ter. O Chelsea tinha volume, mas pouco inspirado no ataque. Parecia não encontrar caminhos para vencer o sistema blaugrana, enquanto o Barcelona, ao contrário, parecia o tempo todo consciente do seu jogo, da sua missão, dos espaços, dos erros. Pragmático, fazia o necessário para manter o jogo sob controle, mesmo quando a bola estava com o adversário.
Não demorou para chegar ao 2 a 0. Fàbregas perdeu a bola para Messi no meio-campo, o argentino avançou e passou pela marcação de dois jogadores. Suárez fez o movimento que tirou a marcação do centro da área e Messi rolou para Dembéle. Em vez de chutar de primeira, o atacante ainda dominou e chutou forte, no alto. Courtois ainda tocou na bola, mas ela entrou: 2 a 0, aos 20 minutos. Um gol que premia Dembélé, lesionado por tanto tempo depois de chegar ao Barcelona com muito prestígio vindo do Dortmund. Sua atuação foi boa, embora não brilhante. Ele mostrou capacidade física de recomposição, algo que Valverde certamente instruiu. O Barcelona, sem a bola, sabe se fechar.
Já no final do primeiro tempo, Marcos Alonso cobrou uma falta na entrada da área, com um perigo enorme, que bateu na quina da trave e saiu. O mais perigoso dos lances do Chelsea, que terminou o primeiro tempo sabendo que precisaria fazer mais para classificar. O Barcelona, sem um grande jogo, tinha uma vantagem monstruosa a seu favor e jogava com a tranquilidade de quem administra uma boa vantagem. Sem parecer se esforçar muito.
Logo aos quatro minutos do primeiro tempo, o Chelsea chegou tabelando dentro da área, com Giroud, Willian e Alonso, que foi derrubado na área. O árbitro mandou o jogo seguir. Pior ainda, deu cartão para Giroud por reclamação. O francês, por sinal, fazia um jogo fraco. A opção de Conte por um centroavante fez sentido, mas a atuação do escolhido deixou o técnico na mão. Fazendo um jogo apagado, sem segurar a bola ou conseguir superar a marcação para finalizar, Giroud demorou a ser tirado de campo.
O cenário do segundo tempo era claro. O Chelsea tinha maia a bola, tentando chegar ao ataque e arrancar um gol que o colocaria de novo na disputa. Em um bom lance, Marcos Alonso acabou travado por Piqué. A atuação do time inglês era boa, pressionando no campo de ataque, mas com dificuldade para entrar na bem montada defesa do Barcelona.
Bastou um erro para que tudo fosse por água abaixo, de vez. Azpilicueta tentou o passe, interceptado por Jordi Alba e a bola ficou com Suárez. O uruguaio segurou a bola até que Messi se apresentou e recebeu o passe. Em frente a área, Messi deu dois toques na bola para sair da marcação e, de perna esquerda, fuzilar. A bola passou, de novo, no meio das pernas de Courtois: 3 a 0, aos 18 minutos. Foi o 100º gol de Lionel Messi na Champions League. Uma marca histórica, de um jogador histórico. O Barcelona, sem precisar envolver o adversário ou sufocá-lo, tem em Messi a mais afiada das flechas, que fere o adversário com uma precisão e violência que o tira do jogo.
Depois disso, o Barcelona jogou de uma forma como nos acostumamos a ver: economizando. Se fosse na Fórmula 1, o time teria diminuído a potência do motor para economizar combustível e pneus. O Chelsea tinha a bola e ainda tentava, mas já consciente que a classificação já tinha escorrido por entre os dedos. Fazer três gols seria muito improvável. As mudanças de Conte pareceram ter pouco efeito no time. Foram tardias também. Nada parecia mudar o cenário. O torcedor do Barcelona presente no Camp Nou não teve nenhum momento de tensão na partida.
Com o relógio já avançado, o Chelsea ainda conseguiu acertar uma bola na trave no final do jogo. Mas era tarde. Os ingleses sabiam que estavam eliminados a essa altura. Como Willian e Conte disseram no dia anterior, seria preciso ser perfeito, porque ser quase perfeito já seria um risco. Willian foi um dos melhores em campo, mais uma vez, mas não conseguiu ser decisivo. Também não conseguiu um gol, como no primeiro jogo. O Chelsea jogou melhor do que tem atuado costumeiramente, mas ainda insuficiente para um time tão sólido e maduro como o Barcelona se mostrou.
O Chelsea jogou bem, talvez até melhor que o primeiro jogo, mas caiu novamente diante de um adversário que foi pragmático e contou com Messi, muito bem física e tecnicamente, para avançar com mais tranquilidade do que seu futebol poderia sugerir. O Barcelona será um time difícil de ser batido por estar muito bem nas duas pontas. Defensivamente, é seguro e bem posicionado; ofensivamente, tem a genialidade de Messi em um esquema tático que o privilegia para deixar livre para se mexer e difícil de marcar.
Ficha técnica
Barcelona 3×0 Chelsea
Local: Camp Nou, em Barcelona (ESP)
Árbitro: Damir Skomina (ESL)
Gols: Messi aos 3’/1T, Dembélé aos 20’/1T, Messi aos 18’/2T (Barcelona)
Cartões amarelos: Sergi Roberto (Barcelona), Willian, Giroud, Alonso (Chelsea)
Cartões vermelhos: nenhum
Barcelona
Marc-André ter Stegen; Sergi Roberto (André Gomes aos 16’/2T), Gerard Piqué, Samuel Umtiti e Jordi Alba; Ousmane Dembélé (Aleix Vidal aos 22’/2T), Sergio Busquets, Ivan Rakitic e Andrés Iniesta (Paulinho aos 11’/2T); Lionel Messi e Luis Suárez. Técnico: Ernesto Valverde
Chelsea
Thibaut Courtois; Victor Moses (Davide Zappacosta aos 22’/2T), Cezar Azpilicueta, Andreas Christensen, Antonio Rüdiger e Marcos Alonso; N’Golo Kanté, Cesc Fàbregas, Eden Hazard (Pedro aos 37’/2T) e Willian; Olivier Giroud (Alvaro Morata aos 22’/2T). Técnico: Antonio Conte



