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Çalhanoglu jogou com gosto contra os antigos companheiros e teve sua revanche após a zombaria do Milan

Çalhanoglu havia "virado a casaca" e foi zoado por isso, durante a conquista do Scudetto pelo Milan, mas conseguiu uma ótima resposta com a Inter rumo à final da Champions

Vencer um clássico é sempre especial, ainda mais numa semifinal de Champions League. Porém, difícil imaginar alguém que apreciou mais a classificação da Internazionale sobre o Milan do que Hakan Çalhanoglu. A “virada de casaca” do meio-campista nunca foi bem aceita pelos rossoneri. Além do mais, o turco deu o azar de estar sempre do lado errado nas temporadas consecutivas em que os milaneses conquistaram a Serie A. Em ambas as vezes, o armador viu de longe os rivais da vez comemorarem, no Milan em 2020/21 e na Inter em 2021/22. Desta vez, Çalhanoglu dá sua volta por cima e estará na decisão continental. Foi importante nos dois duelos contra os milanistas, sobretudo no primeiro.

Çalhanoglu pode não ter se confirmado como um craque, mas teve uma passagem bastante digna pelo Milan. O armador ofereceu mais regularidade que nos tempos de Bayer Leverkusen e se manteve como uma das referências técnicas dos rossoneri nas quatro temporadas em que compôs o elenco. Foram 32 gols e 48 assistências em 172 partidas, com contribuições importantes ao crescimento dos milanistas. Seria inclusive decisivo na campanha que recolocou o clube de volta à Champions League depois de sete anos. Contudo, não ficaria para disputar o torneio.

Sem acordo para renovar com o Milan, Çalhanoglu decidiu assinar com a Internazionale em 2021. Esportivamente, sua decisão tinha lógica. Acertava com o time que acabara de conquistar o Scudetto e parecia mais preparado para almejar novos sucessos. Entretanto, nunca os milanistas aceitaram sua traição. E a resposta veio em campo. Enquanto os nerazzurri patinavam sem Antonio Conte, os rossoneri é que levaram o Scudetto em 2021/22. O turco foi bem em seu primeiro ano com a Inter, até superando seu recorde de assistências dos tempos de Milan. Mas teve que ouvir seus antigos companheiros fazendo “homenagens” nada lisonjeiras na comemoração do título. Ninguém queria mais saber do armador em Milanello.

Çalhanoglu teve seu prêmio de consolação com a conquista da Copa da Itália 2021/22, torneio no qual a Inter deixou o Milan pelo caminho nas semifinais. O meia anotou um gol importante na final contra a Juventus, ao forçar o empate no tempo normal e permitir a vitória por 4 a 2 na prorrogação. Isso garantiu outra revanche contra o Milan, na Supercopa. O turco riu por último ao ficar com o troféu. Também teria a vitória no segundo turno da Serie A 2022/23, com direito a assistência do armador. Por fim, a semifinal da Champions ofereceu a melhor versão do camisa 20.

Çalhanoglu já tinha sido um dos responsáveis pelo pesadelo do Milan na partida de ida. O meio-campista teve participação direta na vitória, com a assistência para o gol de Edin Dzeko e ainda uma bola na trave. Estava com vontade, especialmente para auxiliar os interistas a dominarem o meio-campo durante o primeiro tempo. O resultado parcial a favor dos nerazzurri facilitava demais a situação para o jogo de volta. E o comprometimento do turco se notou outra vez no San Siro nesta terça.

Desta vez, Çalhanoglu teve uma atuação mais contida no ataque. Em compensação, foi essencial no trabalho tático da Internazionale. O meio-campista esteve muito ativo para auxiliar seu time a controlar os espaços e também ditou o ritmo a partir das recuperações dos interistas. Podia domar um adversário desesperado e pouquíssimo produtivo. Mais uma vez, a Beneamata foi senhora do meio-campo e isso se tornou uma das chaves do confronto. A escolha do turco se pagou, fundamental na passagem rumo à final.

Olhando em perspectiva, Çalhanoglu não se transformou no maestro que alguns poderiam imaginar quando surgiu no Hamburgo e no Leverkusen. Mesmo assim, é jogador importante na primeira prateleira do futebol europeu e dono de uma visão de jogo excelente. A passagem pela Itália até apresentou um atleta mais útil, por sua funcionalidade, mesmo que menos cerebral do que se projetava. E se há uma dose de falta de sorte por ter zanzado por Milão sem levar o Scudetto, uma final de Champions é uma baita oportunidade – especialmente com a chance de atuar em “casa”, na Turquia. Abriu caminhos através da vingança cumprida contra os antigos companheiros que o zombaram.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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