Champions League

Berlim viu duelo de duas torcidas que concordaram apenas no respeito aos craques

por Caio Carrieri, de Berlim

A Juventus esteve com a taça da Champions League em suas mãos. Não em campo, ainda que estivesse em bom momento pouco antes de o Barcelona marcar o segundo gol. Mas foi fora das quatro linhas, ainda antes de a bola rolar, quando um mosaico no setor bianconero das arquibancadas mostrou a imagem de dois braços estendidos em direção a uma Orelhuda inflável posicionada no tradicional local destinado à pira olímpica do histórico estádio. Situados do lado oposto, os blaugranas responderam com as cores e o lema da Catalunha: “Més que un club”. Aquele era só o início de uma disputa nas arquibancadas, um duelo em que só houve dois momentos de unanimidade.

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Mas vamos voltar ao pré-jogo. Os juventinos, ainda no ritmo do mosaico, foram à loucura ao avistarem a lenda Alessandro Del Piero percorrendo a pista de atletismo do estádio. “Capitano! Capitano! Capitano!”. Os culés não tiveram uma lenda do passado para reverenciar, mas podiam vaiar o passado de um bianconero, tornando o ex-madridista Morata no jogador mais vaiado durante o anúncio das escalações. Mas rapidamente os dois lados se alinharam. Foi o momento em que veio a unanimidade, o extraterrestre. A aparição de Messi no telão foi seguida por aplausos com os corações apaixonados de cada admirador seu presente no estádio.

A confiança no argentino e nos demais extraterrestres vestidos de azul e grená era tão grande que o lado espanh… ops, catalão do estádio entoou um provocativo “Olé! Olé! Olé!” ainda no começo do segundo tempo, com o placar em 1 a 0. Foi no momento de uma envolvente troca de passes da La Masía entre Busquets e Iniesta, únicos titulares do Barcelona ao lado de Messi que se formaram na melhor categoria de base do mundo e seguem no clube até hoje.

O lado italiano fazia sua parte nas arquibancadas. Os decibéis atingiram os níveis mais altos nos 15 minutos de intervalo entre a bola na rede de Morata e a aparição na outra área de Suárez. Antes do uruguaio aproveitar raro rebote do enorme Gianluigi Buffon, os italianos engoliram o estádio com as suas vozes. Até um sinalizador foi aceso. Assim como a igualdade no placar, o artefato durou pouco tempo e logo se apagou.

Mas a esperança de Storari seguiu viva. O goleiro reserva da Juve ficava inquieto no banco. Ao contrário de Massimiliano Allegri, praticamente sem expressão na beira do campo, o jogador campeão da Champions com o Milan em 2007 (fez parte do elenco) representava a preocupação dos torcedores com os contra-ataques do Barcelona. A cada ataque da Velha Senhora, Storari se levantava e sinalizava para que a defesa com Bonucci e Barzagli, mas desfalcada de Chiellini, machucado, fizesse a recomposição rapidamente. Leitura pefeita do que estava por vir.

Empurrado pelas vozes vibrantes atrás do gol de Buffon no segundo tempo, o Barça fechou a conta dos 3 a 1 com Neymar. Storari se sentou, enquanto comissão técnica e atletas blaugranas invadiram o campo para celebrar o quinto título da Champions e a segunda Tríplice Coroa – a primeira acontecera em 2009, com Guardiola.

A premiação reservou momentos marcantes, e mais momentos de união ítalo-catalã. Xavi, de saída do Barcelona, foi aplaudido até por juventinos ao receber a braçadeira de capitão de Iniesta ao substituí-lo. A gentileza foi retribuída com outro mito do meio-campo, quando Pirlo recebeu sua medalha de vice-campeão ouvindo a torcida barcelonista cantar seu nome.

Sinal de que as duas torcidas concordaram que a vontade de conquistar a Europa não era maior que a reverência aos craques.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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