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Bayern x PSG é sempre uma ótima ocasião para relembrar o melhor gol de Weah na Champions

Um ano antes de receber a Bola de Ouro, Weah anotou um gol fantástico em Munique: deixou três marcadores tontos e mandou uma pancada na gaveta de Oliver Kahn

Os duelos entre Bayern de Munique e Paris Saint-Germain se tornaram corriqueiros na Champions League. As oitavas de final de 2022/23 marcam a quarta temporada nas últimas seis em que os dois clubes se encaram no torneio continental. E se a final de 2020 permanece como a ocasião mais grandiosa, há outros embates do passado que merecem ser exaltados. A primeira vez que bávaros e parisienses mediram forças foi na Champions de 1994/95, quando os franceses se estabeleciam como uma equipe relevante no cenário continental. George Weah, prestes a ser eleito Bola de Ouro, sobrou naqueles embates durante o segundo semestre de 1994. O liberiano certamente causa pesadelos em alguns dos alemães ainda hoje, em especial em Oliver Kahn, atual chefe executivo do Bayern e que estava em sua primeira temporada após chegar do Karlsruher.

PSG e Bayern foram sorteados no Grupo B daquela Champions, ao lado de Spartak Moscou e Dynamo Kiev. As duas equipes da Europa Ocidental se classificaram, mas quem sobrou mesmo foi o campeão francês. O PSG ganhou os seis compromissos naquela chave. Era um timaço o treinado por Luis Fernández, que reunia figuras como David Ginola, Valdo, Ricardo Gomes, Raí e Bernard Lama. Mas não que os bávaros não merecessem respeito, com estrelas do porte de Lothar Matthäus, Mehmet Scholl, Jean-Pierre Papin, Jorginho e Alain Sutter. Giovanni Trapattoni era o comandante. Weah se mostrou um nível acima de todos naqueles duelos.

O primeiro encontro aconteceu logo na abertura do Grupo B, dentro do Parc des Princes. Vitória segura do PSG por 2 a 0. Weah começou aprontando rapidamente, ao aplicar um chapéu na marcação e bater com perigo. O primeiro gol dos parisienses foi assinalado pelo liberiano, aos 41 do primeiro tempo, no rebote de uma bola na trave de Ricardo Gomes. Já durante a segunda etapa, Kahn chegou a realizar uma defesaça num chute de Weah, mesmo que o artilheiro não tenha acertado em cheio. Só que o goleiro não teve o que fazer aos 38 minutos, numa pancada de Daniel Bravo na entrada da área que fechou a contagem.

O Bayern não vinha em situação tão tranquila para o reencontro. Derrotou o Dynamo, mas empatou as duas com o Spartak e estava ameaçado na segunda posição. O PSG disparara com 100% de aproveitamento e a classificação já tinha sido confirmada. Mesmo assim, os parisienses não abriram mão do triunfo na visita ao Estádio Olímpico de Munique. Os visitantes anotaram 1 a 0 no placar e contaram com um dos gols mais famosos de Weah. O atacante entrou apenas no segundo tempo, diante da opção do técnico Luis Fernández em poupar forças. Kahn até conseguiu segurar as pontas durante o primeiro tempo, mas não teve o que fazer quando Weah destroçou aos 35 da etapa final.

Weah apresentou seu melhor naquela jogadaça: habilidade, explosão e capacidade de finalização. O atacante tabelou pelo meio e recebeu na intermediária com espaço. Então, passou a enfileirar os adversários. O primeiro a ficar no chão foi Dieter Frey, que até tentou pegar a bola com a mão. Depois, Jorginho quis parar o liberiano no carrinho e passou no vácuo. Weah já invadia a área, quando Mehmet Scholl apareceu à sua frente. O meio-campista teve sua coluna entortada pelo corte seco do craque, com suas passadas largas e os movimentos elegantes. Quando surgiu a brecha, enfim, saiu a sapatada do matador. Uma pancada direto no ângulo, que fez Kahn voar em vão, para deixar tudo ainda mais bonito.

“Era só ele, tinha muita gente na frente. Mas George estava feliz, calmo, confiante. Quando o vi fazer esse slalom, sabia que ele era capaz de marcar. Não foi por acaso! Ele marcou um gol parecido pelo Milan meses depois, de seu próprio campo. Era um gol de Bola de Ouro. Treinei dois jogadores, Weah e Ronaldinho, que eram capazes de tais feitos. Eles tinham algo diferente, um dom, eram fora do comum”, relembrou o técnico Luis Fernández, em 2020, à France Football. “George sabia que eu gostava muito dele e, antes do jogo, me pediu permissão para fazer compras em Munique. Depois, voltou cheio de sacolas com presentes. George era assim, dentro e fora de campo: generosidade, humanidade”.

O Paris Saint-Germain fez uma campanha mais lembrada que a do Bayern na Champions 1994/95, embora ambos tenham caído nas semifinais. O PSG passou pelo Barcelona nas quartas, mas não resistiu ao timaço do Milan na etapa seguinte. Já o Bayern sofreu contra o IFK Göteburgo e passou, mas não sobreviveu ao futuro campeão Ajax nas semis. Kahn teria tempo de fazer seu nome como um herói dos bávaros no torneio continental durante os anos seguintes. Todavia, o momento era mesmo de Weah. O liberiano trocou Paris por Milão meses depois, transferindo-se ao Milan. Por lá conquistou a Bola de Ouro, no fim de 1995.

Aquele gol contra o Bayern segue lembrado como a maior obra de George Weah pela Champions League. E um reconhecimento enorme veio da própria Uefa: na ocasião dos 60 anos da entidade, a pintura acabou eleita entre os 60 maiores gols de suas competições. Um símbolo do tamanho do talento do craque.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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