Champions League

Bayern x Barcelona: o duelo entre uma Superpotência em crise e outra que parece ter encontrado um caminho

A Champions League teve um grupo de elite na virada década, com três Superclubes frequentemente chegando pelo menos às semifinais e, como sintoma de que todos eles passam por momentos de transição, apenas um alcançará essa fase na atual temporada. O Real Madrid, depois de três títulos seguidos e quatro em cinco anos, está nos estágios iniciais de uma necessária reconstrução. Restam Barcelona e Bayern de Munique, adversários nesta sexta-feira, com times que também ainda não estão prontos, mas passam perspectivas completamente diferentes para o futuro.

Entre 2007 e 2015, o Barcelona ficou sete vezes entre os oito primeiros e conquistou o título três vezes. Nas últimas cinco temporadas, porém, parou quatro vezes nas quartas de final, com algumas derrotas pesadas, como para a Roma, e, quando conseguiu ir além, deixou escapar uma vantagem de três gols contra o Liverpool. Por ter um confronto direto com o Real Madrid no âmbito doméstico, os títulos recentes de La Liga são significativos, mas preocupa a maneira como parece se afastar um pouco mais da elite a cada ano que se passa, mesmo contando com um dos melhores jogadores de todos os tempos ainda em ótima forma.

Os erros que deterioraram o clube que virou a década no auge se espalham por todos os setores: direção, comando técnico e recrutamento.

Desde Guardiola, o Barcelona não consegue se comprometer em longo prazo com nenhum treinador. Sérios problemas de saúde não permitiram que Tito Vilanova fosse o sucessor natural que parecia ser. Tata Martino foi nada mais do que um tampão. Luis Enrique teve sucesso, com base em um trio de ataque entrosado e voando, e um estilo de jogo mais direto, mas não ficou muito tempo. Com Ernesto Valverde, o Barça tinha um time que não atuava tão bem, ganhava La Liga e fracassava na Champions. Agora, com Quique Sétien, tem um time que atua pior, não ganha La Liga e entra pressionado para salvar a temporada com o torneio europeu.

Sétien não foi a primeira escolha. Pelo menos Xavi Hernández e Ronald Koeman foram procurados antes dele. E em muitos aspectos, não foi a melhor escolha. Aos 61 anos, seu maior feito era um sexto lugar com o Betis, um bom trabalho, mas cheio de altos e baixos – levou 7 a 0 do Levante no agregado dos dois turnos em 2018/19, quando caiu para décimo colocado. Impressionava, como em seu clube anterior, o Las Palmas, pelo controle de jogo com a posse de bola. É um fiel convicto do cruyffismo, filosofia que o Barcelona buscava resgatar após Valverde ter seguido outra direção.

Há uma diferença fundamental entre colocar um clube médio para atuar de uma maneira que clubes médios geralmente não fazem, podendo se contentar com uma ou outra vitória notória, sem que as derrotas pesem tanto, e precisar fazê-lo em um Superclube que exige seis pontos por semana. Nada no currículo de Sétien indicava que ele conseguiria e nada do que foi apresentado até agora indica que ele conseguirá, em que pese o fato de que ter Lionel Messi em seu time sempre significa uma chance de sucesso.

A culpa não é de Sétien que, dormindo entre o ruminar das vacas quando recebeu a ligação do Barcelona, pareceu o mais surpreso de todos. Era a chance da sua vida. Por mais que não estivesse pronto, não poderia recusá-la. O tempo até pode levá-lo a pegar o jeito, evoluir como treinador e administrador de egos, e é sempre um fator importante de todo processo de formação de time. No entanto, tempo é justamente a moeda que o Diabo cobra pela licença de Superclube: ele lhe dará todo o dinheiro do mundo e nenhuma paciência para gastá-lo.

Certo ou errado, é uma realidade que a diretoria do Barcelona deveria ter levado em conta e entra em uma longa lista de coisas que ela deveria ter levado em conta e não levou. Como, por exemplo, que contratar uma empresa de redes sociais para atacar seus próprios jogadores – acusação que Josep Bartomeu negou antes de rescindir contrato com a I3 Ventures – não pegaria bem. Ou que alegar em público, sem citar nomes, que o elenco não trabalhava duro sob o comando de Valverde, como fez o diretor Eric Abidal, geraria uma reação desagradável.

Lionel Messi voltou a bater na diretoria pela maneira como ela administrou o corte salarial dos jogadores, quando o futebol espanhol foi paralisado, um dos motivos que levou à renúncia de seis diretores, incluindo dois vice-presidentes e quem Bartomeu havia escolhido para ser seu sucessor. Em uma carta, pediram eleições antecipadas, e Emili Rousaud, o tal do sucessor, alegou corrupção. Para completar a fenda profunda do Camp Nou, Xavi disse que não treinará o time enquanto houver tantas questões extra-campo, e o fato de que isso é uma má notícia, considerando que nem se sabe se Xavi é bom treinador, diz muita coisa.

O mercado do Barcelona também tem sido de um fracasso especial. Nem precisamos voltar até 2016, quando € 100 milhões foram gastos em cinco jogadores que não estão mais no clube, ou pensar que Antoine Griezmann parece ser uma ótima aquisição para todos os times do mundo menos o que ele está no momento. Basta citar que os € 220 milhões recebidos por Neymar e mais um bom valor foram gastos em Philippe Coutinho e Ousmane Dembélé, um jogador que precisou sair por empréstimo para não ter a carreira estagnada e agora busca desesperadamente um novo clube e outro que ainda não fez 100 jogos em três anos na Catalunha.

Foi até surpreendente a facilidade com que o Barcelona derrotou o Napoli, nas oitavas de final, depois da sequência de tropeços pós-paralisação que lhe custou o título espanhol. Salvo um título europeu, e mesmo assim a manutenção do treinador não seria 100% certa, o mais provável é que em breve tenha que começar tudo novamente, em contraste com um Bayern de Munique que parece ter finalmente encontrado um caminho.

A experiência do Barcelona com Guardiola gerou uma onda de clubes ao redor da Europa tentando repetir a fórmula: ex-jogador, jovem, identificado com o clube. O Milan navegou por toda sua lista de ídolos, sem sucesso. Entre exemplos mais recentes inspirados nessa ideia, a Juventus agora tenta com Andrea Pirlo, o Chelsea deu o cargo a Frank Lampard, e o Manchester United, a Ole Gunnar Solskjaer. O Real Madrid acertou em cheio com Zinedine Zidane. Há casos que terminaram em sucesso, em fracasso ou em algum lugar entre os dois extremos, porque a constante não é ser ex-jogador, jovem e identificado com o clube. É estar preparado para ser um treinador de elite.

O Bayern de Munique percorreu os últimos dez anos por meio de treinadores com diferentes características, mas que deram poucos motivos para serem contestados. Até o controverso Van Gaal, responsável por estabelecer a base que foi elevada a um outro patamar pela filosofia mais direta de Jupp Heynckes. Guardiola chegou para fazer o clube ganhar de outra maneira, com posse de bola, protagonismo, sufocando todos os adversários, alinhando-o ao estilo da moda que ele próprio havia iniciado. E, quando saiu, vieram alguns passos em falso.

Por tudo que representa, Carlo Ancelotti era uma tentativa muito válida que não deu certo. Niko Kovac tinha seus predicados, embora nunca tenha realmente empolgado e, apesar de ter levado a Dobradinha em sua primeira temporada, o desempenho ruim o fez perder o emprego. É dura a missão do treinador dos Superclubes: tem que ganhar e também apresentar um futebol empolgante, ou apresentar um futebol empolgante e também ganhar. Não importa a ordem, desde que faça os dois.

Inicialmente, Hans-Dieter Flick comandaria o time interinamente. Deu tão certo que foi efetivado. Não tem um passado tão longo como jogador do Bayern de Munique como outros representantes da fórmula Guardiola, mas tinha o preparo. Passou dois ciclos de Copa do Mundo ao lado de Joachim Löw na seleção alemã e se tornou auxiliar de Kovac poucos meses antes da troca de comando. E há sinais fortes de que demorará para haver outra.

O Bayern chega às quartas da Champions tendo ganhado seus últimos 19 jogos. Não houve derrotas em 2020 e apenas um empate. E entre as 23 vitórias deste ano, 11 foram construídas marcando pelo menos quatro gols. A última derrota foi em dezembro, para o Borussia Monchengladbach. Os bávaros encontraram uma nova marcha e simplesmente deixaram todos seus concorrentes na Alemanha comendo poeira. A maneira como dominaram o Chelsea, quarto colocado da Premier League, foi mais evidência do patamar em que Flick os colocou.

Houve erros também. O mesmo Philippe Coutinho não brilhou em nenhum dos dois clubes, embora o Bayern o tenha utilizado sob condições melhores – sob empréstimo. Houve algumas contratações que não deram certo, mas dentro do esperado em um projeto de renovação, depois das aposentadorias de Franck Ribéry, Arjen Robben, Philipp Lahm e Bastian Schweinsteiger. Um grande diferencial foi ter uma espinha dorsal mais jovem e em forma, com Manuel Neuer, Joshua Kimmich, Robert Lewandowski, Thiago, David Alaba e Thomas Müller, praticamente ressuscitado por Flick. E um bom trabalho coletivo também minimiza eventuais erros de recrutamento.

O que o Bayern de Munique tem no momento é uma base experiente, mas não excessiva. Apenas seis jogadores acima de 30 anos atuaram mais de 1.000 minutos nesta temporada, a maioria muito bem, e apenas três com mais de 28 – e dois deles, Coutinho e Thiago, não ficarão no elenco. Enquanto isso, a nova geração aparece com força. A renovada defesa conta com Kimmich (25), Pavard (24), Alphonso Davies (19), transformado em lateral esquerdo, Niklas Süle (24) e Lucas Hernández (24). O meio-campo recebeu bons sinais de Goretzka (25) e Tolisso (26). O setor de pontas viu o melhor futebol de Serge Gnabry (25). Ainda tem Kingsley Coman (24) e aguarda a chegada de Leroy Sané (24).

Nem todo mundo está pronto, e ainda há buracos para preencher, como preparar a sucessão de Lewandowski (31), embora, com 53 gols do polonês nesta temporada, não pareça nada urgente. É uma base muito talentosa, coerente com o futebol que o clube quer praticar e em ótima idade para ficar junta durante pelo menos meia década. Se Flick realmente se provar um treinador de alto nível, todas as peças do quebra-cabeça parecem estar se encaixando para que o Bayern de Munique volte a ser um participante frequente das últimas fases da Champions League. Não chega à final desde que foi campeão em 2012/13 e fez apenas uma semi nos últimos três anos.

O contraste entre o momento dessas duas Superpotências às vésperas do grande duelo desta sexta-feira é alarmante. Uma parece perdida, a outra no caminho certo. O favoritismo pende a favor do Bayern de Munique, a menos que Messi pegue a bola duas ou três vezes, faça as coisas que Messi faz e torne todo este texto irrelevante.

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo