Champions League

Bayern e PSG se reencontram vivendo momentos distintos, em que a reedição da final vira reafirmação

O favoritismo é dos bávaros, mas abaixo da fase avassaladora de 2020, enquanto os franceses atravessam o início da reformulação no comando

A pandemia adiou a final da Champions de 2020 para agosto. E o destino providenciou, através do sorteio das quartas de final, que o reencontro entre Bayern de Munique e Paris Saint-Germain acontecesse apenas oito meses depois. A reedição da decisão é cercada por expectativas, especialmente pelos nomes envolvidos no jogo. Porém, nenhum dos times deu um salto de qualidade desde o duelo em Lisboa. Pelo contrário, o momento de ambos atualmente é menos empolgante, por mais que as mudanças em Paris sejam mais drásticas e mantenham o favoritismo ao Bayern. A vitória, neste momento, vale como reafirmação.

Em certo ponto, a final de 2020 careceu um pouco em qualidade. Era uma partida de grande apelo, entre o ineditismo do PSG e a fúria do Bayern. Contudo, as individualidades dos parisienses acabaram não preponderando no Estádio da Luz. E se os bávaros ao menos levaram a taça, não conseguiram imprimir o mesmo ritmo avassalador de outros encontros, além de dependerem de algumas defesas decisivas de Manuel Neuer. Desde então, que os times não tenham mudado muitos nomes, alternaram momentos.

O Bayern não consegue imprimir a intensidade impressionante daqueles meses em 2020. Não é exatamente um demérito, considerando a forma impressionante apresentada pelos bávaros ali, mas alguns problemas se tornaram mais evidentes. A defesa, que tantas vezes parecia se expor já na temporada passada, realmente está mais vulnerável. E o ataque não consegue manter uma rotação tão alta, mesmo que continue carregando os alemães a vitórias constantes. O nível de confiança sobre a equipe de Hansi Flick é um pouco menor – o que não custa, ainda assim, seu favoritismo dentro da Champions, diante dos excelentes jogadores à disposição e também da mentalidade vencedora.

Porém, uma impressão que fica é que o Bayern não foi realmente testado nesta temporada. O time encaminha a conquista da Bundesliga sem apresentar um futebol totalmente irresistível. Desperdiçou pontos em partidas de menor calibre, mas conseguiu derrotar os principais rivais diretos pela Salva de Prata. Já na Champions, fica a espera por algum oponente que consiga bater de frente com os bávaros. Atlético de Madrid e Lazio teriam essa chance, mas fizeram jogos bem abaixo e acabaram engolidos, com uma sequência invicta dos alemães que se estende desde a temporada passada.

Em campo, a principal perda em relação à final da Champions é Thiago Alcântara. O meio-campista foi um dos melhores jogadores na reta final da competição e dominou a intermediária contra o PSG. Arrumou as malas para seguir ao Liverpool, mas, apesar de suas características especiais, não é que tenha feito tanta falta até agora. Joshua Kimmich e Leon Goretzka tomam conta do meio-campo muito bem, entre a visão de jogo de um e a agressividade de outro. É uma das melhores duplas de volantes da Europa, que já relegava Thiago muitas vezes ao banco na temporada passada e só acabou mudada pela necessidade de deslocar Kimmich à lateral direita na reta final da Champions. Talvez a ausência do espanhol seja mais sentida exatamente nos jogos grandes, nos quais os duelos podem pedir um meio-campista que faça o jogo orbitar ao seu redor.

Por outro lado, o maior reforço é Leroy Sané. O ponta chegou como sonho de consumo do Bayern e aparece com constância na equipe titular, mas ainda não é o protagonista que se espera. Seu jogo mais individual às vezes parece fazer ruído dentro do coletivo de Hansi Flick, mas a adaptação é gradual. Nas últimas rodadas, o jovem tem se mostrado mais solidário e contribuído com assistências. Pode firmar uma parceria importante com Kingsley Coman, o herói de Lisboa, que é um dos melhores do ataque na temporada. O francês tem se exibido em alto nível com constância. E a dupla pelos lados tende a ser mais visada, até pelas ausências de Serge Gnabry, que diminuiu um pouco seu nível em relação à temporada passada e será desfalque por coronavírus, e do recém-recontratado Douglas Costa.

Já na frente, não menos importante é a contusão de Robert Lewandowski. Se o artilheiro passou em branco na final, era um cara para impor respeito no setor e poderia ser essencial neste confronto em dois jogos. Eric Maxim Choupo-Moting deixou o PSG na temporada passada e seus antigos companheiros sabem como o camaronês intimida bem menos que o titular. Thomas Müller é quem pode aparecer mais, buscando os espaços e aparecendo no apoio ao centroavante. Além disso, Jamal Musiala também é uma alternativa para essa faixa central, uma revelação bávara nesta temporada e que pode liberar Müller à frente, com características mais clássicas de um armador.

Por fim, vale pincelar que a defesa não vê tantos destaques individuais neste momento. Alphonso Davies perdeu um pouco a empolgação ao seu redor, com problemas de lesão e sem jogar no mesmo nível. David Alaba vive sua temporada final na Baviera, mas também não salta aos olhos. De positivo, há as alternativas para o setor, considerando como as lesões limitaram as escolhas de Hansi Flick na reta final da temporada passada. Niklas Süle, Lucas Hernández e Benjamin Pavard estavam no banco na final em Lisboa, todos titulares no último final de semana pela Bundesliga.

E, claro, ainda há Manuel Neuer. Nenhum goleiro do mundo faz tanta diferença dentro de campo e o capitão tem se tornado ainda mais preponderante, com seus companheiros de zaga por vezes vulneráveis. Decisivo na final passada, pode seguir atormentando os atacantes do PSG. Durante a primeira metade da atual temporada, sobretudo, não foram poucas as vitórias que dependeram de Neuer como o melhor jogador em campo. É um dos maiores da história e que cresce em momentos decisivos, como já demonstrou inúmeras vezes na Champions, com duas taças na estante.

Kingsley Coman comemora o gol do Bayern contra o PSG na final da Champions League (Miguel A. Lopes/Pool via Getty Images/Onefootball)

O Paris Saint-Germain, por sua vez, não tem aquela mesma aura de ineditismo que acompanhou sua chegada à final da Champions de 2020. A equipe pode até ter sofrido um bocado contra a Atalanta, mas vinha credenciada por quebrar barreiras antes intransponíveis ao clube, mesmo com o investimento altíssimo do Catar, e pelo futebol apresentado por alguns jogadores, em especial Neymar. O problema é que o Bayern realmente tinha mais força e confirmou tal superioridade sem fazer sua melhor apresentação. De novo, o time de Hansi Flick chega um passo à frente nesta disputa de quartas de final. E sem que os parisienses indiquem o embalo ao seu redor.

Afinal, até o técnico mudou no Parc des Princes nestes oito meses. O feito inédito de Thomas Tuchel não serviu de garantia de emprego e, com um clima mais azedo nos corredores franceses, pela relação ruim com Leonardo, o alemão acabou deixando a equipe numa sequência negativa. Mas seu trabalho não era incontestável, com certas dificuldades para fazer o coletivo render tão bem, como se viu na própria Champions. Chegou Mauricio Pochettino, o melhor nome à disposição no mercado e também com a identificação de quem já tinha sido capitão do PSG nos tempos de jogador. Por enquanto, falta uma identidade nesse novo período, com muitas oscilações e pouca confiabilidade sobre os parisienses.

O PSG conquistou um resultado histórico contra o Barcelona, assim como espantou um fantasma nas oitavas da Champions. Mas a goleada no Camp Nou ainda precisa se provar como parte de algo maior dentro da equipe nesta temporada, o que ainda não acontece. Os parisienses tiveram que suar um bocado na volta contra o Barça no Parc des Princes. Além disso, a própria campanha na fase de grupos teve altos e baixos, com dificuldades para se classificar numa chave dura que tinha RB Leipzig e Manchester United como principais concorrentes. Enquanto isso, na Ligue 1, o PSG faz sua pior campanha desde que os catarianos chegaram. São oito derrotas no campeonato, o que não acontecia desde 2010/11, exatamente a última campanha antes da injeção financeira realizada pelos atuais donos.

Em relação à temporada passada, a principal despedida aconteceu com o capitão Thiago Silva. O veterano seguia correspondendo em campo, mas a diretoria optou por abrir mão de seus serviços. Por experiência, ainda poderia ser um nome importante para o confronto. Em compensação, Marquinhos não apenas assumiu a braçadeira, como também retomou seu posto no miolo de zaga ao lado de Presnel Kimpembe. É um dos melhores zagueiros desta Champions e também uma liderança clara aos franceses, que pode ser importante contra o Bayern. Ainda mais porque seus companheiros de setor nem sempre são os mais seguros – apesar da importante adição de Alessandro Florenzi na lateral, outro que vem rendendo bastante, mas será desfalque por COVID-19.

Na defesa, além de Marquinhos, outro protagonista do PSG é Keylor Navas. A experiência do goleiro na Champions conta muito e ele acaba sendo um nome na campanha até o momento, pela maneira como segurou a classificação contra o Barcelona. Defendeu um pênalti de Lionel Messi e foi o principal responsável por evitar uma reviravolta nas oitavas. O interessante é como o arqueiro tem aparecido inclusive em jogos nos quais o time conquista bons resultados, dando tranquilidade para seus companheiros resolverem na frente. E o próprio passado na competição conta, a quem já ergueu a taça três vezes nos tempos de Real Madrid.

Talvez a chave para o Paris Saint-Germain no confronto esteja no meio-campo. Era o setor onde Thomas Tuchel tinha mais dificuldades para dar coesão e o que rendeu melhor em conjunto na goleada sobre o Barcelona. A presença de Marco Verratti poderia ser importante, mas o italiano não joga pelo menos a ida. Reserva em Lisboa por problemas físicos, agora vira desfalque por COVID-19. Sem ele, e com Ander Herrera em declínio, o setor acaba se tornando mais físico pelas opções à disposição. Danilo Pereira até é uma novidade, mas sem grande destaque. O nome para aparecer é Leandro Paredes, um volante de pegada, mas que sabe armar o jogo e pode explorar a velocidade do ataque com seus lançamentos. Suspenso, todavia, se limitará à volta.

O quarteto ofensivo vê Mauro Icardi perder sua vez e Moise Kean recobrar seu prestígio, como um nome central desde sua chegada nesta temporada e anotando gols frequentemente. Ángel Di María é outro essencial ao setor ofensivo por seu talento na criação, providenciando muitas assistências, por mais que nesta temporada seu destaque seja moderado depois de se ausentar no Camp Nou. De qualquer maneira, os holofotes acabam se centrando mesmo em Kylian Mbappé e Neymar. O francês, de contribuição modesta na Champions passada, arrebentou contra o Barcelona. E acabará mais visado diante do Bayern, considerando as chances perdidas na final em Lisboa. A mentalidade com a qual reencontrará os alemães será importante.

Já Neymar se torna uma incógnita neste momento. O camisa 10 protagonizou a campanha até a decisão passada, decisivo em todas as fases classificatórias. Não se sobressaiu tanto em Lisboa, mas também não dá para colocar apenas em sua conta. No entanto, o rendimento do atacante atualmente é um ponto de interrogação. O craque ficou mais tempo lesionado do que qualquer outra coisa. Foi importante na fase de grupos da Champions para evitar os riscos de uma eliminação precoce, mas não se tornou uma ausência tão sentida contra o Barcelona. E, com apenas dois jogos disputados neste retorno recente, acabou mais discutido pela expulsão descontrolada diante do Lille. Vai ser pressionado para responder na bola.

Pelos jogadores à disposição e pela continuidade do trabalho de Hansi Flick, o Bayern de Munique ainda se encontra mais preparado que o Paris Saint-Germain. Mas não é uma fase tão significativa quanto a vivida às vésperas daquela final. Da mesma maneira, os parisienses chegam menos badalados do que a goleada sobre o Barcelona poderia indicar. Aos dois, a classificação seria uma reafirmação. E quem sobreviver certamente chega com o favoritismo renovado para a semifinal, até pelo grau de desafio que pode haver com o Borussia Dortmund ou principalmente com o Manchester City no caminho.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.