e se transformaram em inimigos íntimos durante a última década. Tantas vezes, os dois clubes estamparam as mesmas manchetes – seja sobre a transferência de Neymar, seja pelos rumores envolvendo Lionel Messi ou mesmo o retorno do brasileiro ao Camp Nou. Dentro de campo, os embates também foram recorrentes. Foram oito partidas entre as potências de 2013 a 2017, seis delas nos mata-matas da Champions. Este será o primeiro reencontro desde o apoteótico 6 a 1 blaugrana no Camp Nou. No entanto, o novo embate indica uma mudança de cenário. Hoje, as diferenças entre os clubes não são mais tão visíveis e o PSG até transmite uma ideia maior de solidez a médio prazo.

Durante a década de 1990, Barcelona e Paris Saint-Germain já tinham protagonizado jogos bastante importantes nas copas europeias. Raí liderou os franceses nas quartas de final da Champions de 1994/95, quando o time pela primeira vez alcançou a semifinal do torneio continental. A chance de revanche aconteceu na antiga Recopa Europeia, em 1997, desta vez com os dois oponentes se encarando na final. E o Barça deu o troco, com o triunfo por 1 a 0 garantido por Ronaldo, às vésperas de conquistar a Bola de Ouro. A rixa ficaria adormecida por mais alguns anos, até que se reavivasse a partir de 2013.

Quando Barcelona e PSG foram sorteados para os confrontos de 2012/13, a situação era bem diferente da atual. Os catalães ainda surfavam na era vitoriosa que haviam construído na virada da década. Já enfrentavam um delicado processo de renovação no comando técnico, após a saída de na temporada anterior. Tito Vilanova dirigia a equipe naquele momento. Já dentro de campo, boa parte da base famosa permanecia, com Lionel Messi, Andrés Iniesta, Xavi, Gerard Piqué, Daniel Alves e companhia. Era um time potencializado com nomes como David Villa, Cesc Fàbregas e Alexis Sánchez.

O PSG, por sua vez, era uma equipe que iniciava sua ascensão. Havia conquistado a Ligue 1 na temporada anterior e iniciado sua dinastia. Já realizara contratações do peso de Zlatan Ibrahimovic, Ezequiel Lavezzi e Thiago Silva, além de apostas como Lucas Moura e Javier Pastore. Mas talvez o grande símbolo das ambições fosse personificado por David Beckham, em sua curta passagem pelo Parc des Princes ao final da carreira. Carlo Ancelotti também completava mais de dois anos à frente dos parisienses naquele momento.

Apesar da impressão de que ainda era uma equipe em formação, o PSG deu trabalho. Os franceses haviam eliminado o Valencia na fase anterior, enquanto o Barça passou credenciado por uma goleada sobre o Milan. No fim das contas, os blaugranas se impuseram com certo aperto nas quartas de final, prevalecendo apenas pelos gols fora de casa. Messi e Xavi marcaram no Parc des Princes, em empate por 2 a 2 arrancado pelos franceses nos acréscimos do segundo tempo. Dentro do Camp Nou, os visitantes até marcaram o primeiro, mas Villa garantiu o 1 a 1 já suficiente aos catalães – dependendo também de Messi, que voltava de lesão e seria decisivo ao sair do banco. Mas ficaria claro como o Barça não atravessava sua fase mais imponente, atropelado pelo nas semifinais.

Duas temporadas depois, o reencontro começou na fase de grupos da Champions 2014/15. E de novo via o favoritismo pender ao Barcelona. Luis Enrique estava à frente da equipe que desfrutava do auge do trio composto por Messi, Neymar e Luis Suárez. Era uma formação bastante completa, com as lideranças de Iniesta e Busquets, além da ascensão de Marc-André ter Stegen no gol e de Ivan Rakitic no meio-campo. Xavi, neste momento, começava a se tornar menos frequente na equipe.

Já o PSG nesta época tinha Laurent Blanc em seu comando técnico, o que ainda não se mostrava o suficiente para o salto almejado da equipe. Muitas faces se assemelhavam ao time de duas temporadas antes. A grande novidade era Edinson Cavani, acompanhando Ibrahimovic e Lucas Moura na linha de frente. Além disso, Marco Verratti também ganhava respaldo ao lado de Blaise Matuidi no meio-campo, assim como David Luiz formava a dupla com Thiago Silva na zaga. Uma equipe forte, mas que precisava se provar.

No primeiro duelo pela fase de grupos, o PSG empolgou ao derrotar o Barcelona por 3 a 2. Soube explorar as fraquezas dos adversários e deu uma prova de caráter em Paris. Porém, os blaugranas conseguiram responder com o triunfo por 3 a 1 no Camp Nou. Num duelo que valia a liderança da chave, a qualidade individual do ataque barcelonista preponderou e entregou o primeiro lugar ao time de Luis Enrique. Ainda assim, os destinos voltariam a se cruzar outra vez nas quartas de final, depois que os espanhóis despacharam o na fase anterior e os franceses superaram o Chelsea.

Neste momento, o Barcelona ganhava embalo com o entrosamento do trio MSN. O PSG parecia um adversário capaz de incomodar, mas sem forças para tanto. A prova da qualidade do Barça aconteceu já na ida, dentro dos Parc des Princes. Novo 3 a 1 no marcador, com dois de Suárez e um de Neymar, e os franceses só descontando no fim graças a um gol contra de Jérémy Mathieu. Cabe ponderar que o PSG teve desfalques importantes, incluindo Ibra. Nada que reduzisse a superioridade dos barcelonistas, em noite infernal de Suárez, com direito a duas canetas desmoralizantes que aplicou em David Luiz.

Assim, nem mesmo a volta de Ibra causaria grande impacto no segundo jogo, dentro do Camp Nou. Seria a vez de Neymar tomar o protagonismo para si, em grande atuação contra seu futuro clube. O camisa 11 anotou os dois gols dos blaugranas na vitória por 2 a 0, que selou a passagem do time de Luis Enrique às semifinais e representaria mais um passo firme na reconquista continental em Berlim. Ficava claro que o PSG não tinha aquele poderio ofensivo para bater de frente com os principais concorrentes pela Orelhuda.

E o novo reencontro seria o mais emblemático, em 2016/17, pelas oitavas de final. O Barcelona ainda era um time mais tarimbado e talhado nas grandes competições. Contudo, o elenco lidava com a inescapável necessidade de renovação que se acentuou a partir de então. O trio composto por Messi, Suárez e Neymar vivia seus últimos meses junto, com a capitania de Iniesta e a presença cada vez mais necessária de Ter Stegen no gol. O ciclo de Luis Enrique à frente do time também se encerrava, cada vez mais cobrado pelo sucesso paralelo do Real Madrid na mesma Champions.

Já o Paris-Saint Germain havia perdido Ibrahimovic, mas também ganhou qualidade ofensiva com Ángel Di María. De qualquer maneira, era um time de mais apostas do que certezas. Outra novidade era Julian Draxler, ainda que a força principal estivesse no meio-campo composto por Adrien Rabiot, Blaise Matuidi e Marco Verratti. Já no comando técnico, a bola da vez era Unai Emery, credenciado pelas conquistas à frente do Sevilla. E até pareceu capaz que os parisienses transformassem o momento.

A goleada do PSG por 4 a 0 no Parc des Princes está entre os grandes momentos do clube na Champions, apesar do que aconteceria depois. Di María teve atuação decisiva, com dois gols, enquanto Draxler e Cavani complementaram a vantagem. Porém, também seria essencial a maneira como o meio-campo parisiense trabalhou e travou o Barça. Mesmo com a ausência de Thiago Silva na zaga, Marquinhos e Presnel Kimpembe deram conta da situação. A impressão era de que o placar poderia ser mais dilatado, considerando a superioridade dos franceses. A classificação estava nas mãos.

Isso até que a história fosse revirada em 8 de março de 2017. Embora tenha contado com uma ajuda da arbitragem, o Barcelona conseguiu aquilo que parecia inimaginável e goleou por 6 a 1. Luis Enrique mexeu na equipe, com uma formação bastante ofensiva que botava Messi na armação e aproveitava melhor a qualidade do meio-campo. A autoconfiança destruiu o PSG, que sentiu o baque diante da reação adversária. Neymar foi a estrela da noite, com duas assistências e dois gols. Os franceses desabaram especialmente a partir dos 43 minutos do segundo tempo, quando os catalães arrancaram os três gols necessários à classificação. E o tento de Sergi Roberto valeu a eternidade, mesmo com a eliminação diante da Juventus logo na fase seguinte.

O Paris Saint-Germain atravessou uma transformação desde então. Unai Emery não duraria à frente dos franceses, mas Thomas Tuchel também não seria a solução dos problemas no lugar. Assim, Mauricio Pochettino parece ser o treinador de peso que o projeto sugere, e com o fato positivo de que foi capitão no Parc des Princes em seus tempos de jogador. O problema é que o trabalho ainda está no começo, sem tantas mostras de quão bem sucedido poderá se tornar. E os entraves também são diferentes, considerando que hoje parece mais complicado gerir o vestiário cheio de estrelas do que lidar com um time que falha nos grandes momentos.

Neymar é dúvida para o confronto, mas se tornou protagonista do PSG depois de tanto maltratar os franceses dentro de campo. Ganhou a companhia de Kylian Mbappé, outro astro capaz de alavancar os parisienses rumo à inédita final em 2020. Poucos daquele time de 2017 permanecem no Parc des Princes. Dos titulares no Camp Nou, apenas Marquinhos e Verratti seguem como figuras centrais – além de Di María, que saiu do banco na ocasião. Mas dá para dizer que as transformações dos parisienses são mais sensíveis, numa estratégia de mercado em busca de outros jogadores com poder de decisão (citando ainda Keylor Navas) e novos coadjuvantes para renovar a empreitada em busca da Champions.

O Paris Saint-Germain saiu em alta da Champions passada. Não conseguiu fazer uma decisão tão brilhante contra o Bayern de Munique, mas se mostrou passos à frente em seu projeto e mais capaz de competir num cenário de equilíbrio na Europa. As individualidades fazem mais diferença do que antes aos parisienses. Por mais que Pochettino tenha assumido o barco no meio do caminho, parece cada vez mais factível que o PSG leve a tão sonhada taça, com mais tarimba do que em temporadas anteriores – quando insistia em cair para adversários mais renomados, a exemplo do próprio Barcelona.

Por sua vez, este Barça não é o mesmo de quatro anos atrás. Há algumas semelhanças, entre a presença de Messi e outros craques em declínio. Contudo, muito mais forte é a imagem de um clube que busca seu caminho para a renovação e repete erros nos últimos tempos. Ronald Koeman foi o eleito para ser o treinador, mas não consegue uma série de resultados tão confiável. Jogadores que custaram fortunas não rendem com regularidade e aquele que pode ser o fim da história de Messi no Camp Nou guarda suas doses de melancolia. Os blaugranas são uma incógnita enorme, numa montanha-russa de sofrimento e brilhantismo que ainda depende demais de seu camisa 10.

No papel, o Barcelona possui um elenco com muito mais lacunas que em temporadas anteriores. Ter Stegen e Frenkie de Jong são das raras certezas, ao lado de companheiros oscilantes. Jovens como Pedri, Trincão ou o lesionado Ansu Fati podem ser novos craques blaugranas no futuro. Mas as perspectivas atuais são ruins, ante o impasse sobre Messi e as dívidas enormes que impedem uma mínima certeza sobre como será a próxima temporada. Ainda existem possibilidades de que Antoine Griezmann e Ousmane Dembélé sejam mais preponderantes ao Barça. No entanto, é difícil cravar qualquer coisa, quando a equipe oscila demais. E esta talvez seja a última chance de Messi, para tentar apagar a péssima imagem deixada pelos 8 a 2.

A noção de equilíbrio prepondera nestas oitavas de final, e o favoritismo talvez recaísse ao PSG caso estivessem Neymar e Di María em campo na partida de ida. Esta será a primeira vez em quase uma década que Barça e PSG se pegarão pela Champions sem disparidades tão evidentes entre os dois times. Os espanhóis não se rotulam como a superpotência de antes, da mesma forma que os franceses romperam algumas amarras ao chegarem na decisão de 2020. Talvez essa mudança de ares crie mais expectativas para o embate desta terça. E pode culminar numa mudança de posição dos parisienses, após a longa freguesia.