Champions League 2026/27

Atlético de Madrid x Manchester United: dois projetos em busca de respostas para problemas diferentes

Atlético tenta aliar a fluidez ofensiva à solidez que marcou sua identidade, enquanto United ainda não sabe como transformar a posse de bola em controle

A partida entre Atlético de Madrid e Manchester United, nesta terça-feira (13), pela segunda rodada da Champions League, coloca frente a frente duas equipes que chegam ao confronto por caminhos distintos, mas com uma questão em comum: como fazer o próprio modelo de jogo funcionar diante de um adversário que pode explorar suas fragilidades?

O Atlético atravessa um bom início de temporada em LaLiga. Vice-líder, o time de Diego Simeone foi derrotado por 2 a 1 para o Liverpool na estreia europeia e interrompeu o embalo, mas não apaga os sinais de evolução de uma equipe que tem buscado combinar sua tradicional competitividade sem a bola com um repertório mais variado no ataque.

O Manchester United, por sua vez, vive um começo de temporada turbulento. Depois de terminar a Premier League anterior na terceira posição, Michael Carrick tenta consolidar o trabalho. Até aqui, porém, os resultados não acompanham: a equipe perdeu pontos em jogos nos quais teve dificuldades para controlar o adversário e ainda procura uma maneira eficiente de atacar quando não encontra espaço para acelerar.

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Atlético de Simeone: a evolução de uma identidade sem abandonar suas raízes

Durante anos, falar do Atlético de Madrid era falar de compactação defensiva e intensidade. A equipe de Simeone transformou essas características em uma identidade, capaz de competir com elencos financeiramente mais poderosos e de incomodar adversários que preferiam controlar os jogos por meio da posse.

Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid
Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid (Foto: Alejandro Matias Acosta / AgenciaLOF / IMAGO)

Esse Atlético, porém, já não explica sozinho o time que entra em campo em 2026/27. A equipe tem buscado mais alternativas para progredir com a bola, ocupar o campo ofensivo e encontrar seus atacantes em condições favoráveis. Não se trata de abandonar a organização defensiva ou de passar a jogar como uma equipe de posse a qualquer custo, mas de deixar de depender exclusivamente da recuperação e da aceleração para produzir perigo.

Essa mudança exige mais do que colocar jogadores técnicos em campo. O desafio está em coordenar os movimentos: criar linhas de passe por dentro, oferecer largura pelos lados e permitir que os jogadores de ataque troquem de posição sem desmontar a estrutura que protege a equipe quando a posse é perdida. É nessa combinação entre liberdade ofensiva e segurança coletiva que o Atlético procura dar o próximo passo.

Álex Baena pode contribuir para conectar a construção ao ataque, encontrar companheiros entre as linhas e dar continuidade às jogadas. Ademola Lookman, por sua vez, oferece capacidade de drible e de desequilíbrio individual, mas precisa ter liberdade para insistir nas tentativas mesmo quando elas não funcionam de imediato.

Julián Álvarez também é central nessa discussão. Simeone ressaltou que o argentino oferece mais do que gols: sabe participar das associações e contribuir para o funcionamento coletivo. É um atacante capaz de recuar para conectar passes, arrastar um zagueiro ou abrir espaço para a chegada de outro jogador amplia as possibilidades do time, desde que os companheiros saibam ocupar os espaços liberados.

Contra o United, essa capacidade de movimentação pode ser decisiva. A equipe inglesa tem demonstrado dificuldades para manter distâncias adequadas entre meio-campo e defesa quando sua primeira pressão é superada. Se o Atlético conseguir atrair os adversários para um lado e encontrar um passe vertical por dentro, poderá atacar uma estrutura ainda em processo de ajuste.

A evolução do Atlético, portanto, não significa simplesmente ter mais a bola, mas aprender a usar a posse para controlar o ritmo, manipular a organização adversária e escolher quando acelerar.

Manchester United tem mais posse, mas menos clareza

O dilema do Manchester United é quase o inverso. Sob Carrick, a equipe tem passado mais tempo com a bola, mas esse aumento não se converteu automaticamente em controle dos jogos. Atualmente, o United tem média de 59,9% de posse na Premier League, contra 49,1% durante o período de Carrick na temporada anterior. A mudança de comportamento, porém, veio acompanhada de resultados irregulares e de dificuldades para transformar o domínio territorial em oportunidades perigosas.

Carrick não ficou nada satisfeito após o United ter cedido o empate diante do Tottenham (Foto: Mark Cosgrove / News Images / IMAGO)

A contradição está em tentar assumir o protagonismo com uma equipe cujas melhores características aparecem quando há espaço para atacar. O United tem jogadores rápidos e capazes de conduzir em velocidade, mas encontra dificuldades quando precisa construir diante de uma defesa organizada, com pouco espaço nas costas da última linha. Nesses cenários, a equipe pode circular a bola e chegar ao terço final sem conseguir desmontar o bloco adversário.

Segundo análise da “Opta”, o United finalizou 113 vezes na liga até a pausa da Data Fifa, mais do que qualquer outro clube naquele momento, e somado 182 toques na área adversária, também a maior marca. Ainda assim, a distância média de seus chutes era de 17,9 metros, a segunda maior da competição. Em outras palavras, o volume de ataques não se traduzia na mesma proporção em chances de alta qualidade.

Esse é um problema de ocupação e de tomada de decisão, não apenas de pontaria. Chegar muitas vezes perto da área não significa conseguir entrar nela em condições favoráveis. Se os atacantes ocupam zonas semelhantes, se os jogadores de meio não encontram linhas de passe verticais e se os laterais oferecem poucas alternativas de ultrapassagem, a equipe acaba recorrendo a cruzamentos ou finalizações de longe.

O resultado é um ataque que nem sempre consegue combinar seus jogadores de maneira complementar. Cunha é perigoso quando recebe de frente e tem campo para conduzir. Se precisa jogar de costas para o gol e se afastar da área para participar da construção, perde parte de sua principal virtude. Bruno é importante para criar, mas precisa encontrar companheiros em movimento, em vez de receber a bola com todas as opções paradas à sua frente.

O problema também aparece sem a bola. A mesma análise da Opta observou que o United passou a utilizar o bloco alto em uma proporção maior dos jogos, mas nem sempre consegue sustentar a pressão com uma linha defensiva suficientemente adiantada. Quando os atacantes pressionam na frente e a defesa recua, abre-se um espaço entre os setores.

O United, portanto, não precisa abandonar a posse ou aceitar passivamente o domínio territorial do Atlético. Precisa encontrar uma forma de atacar: movimentar os jogadores para abrir linhas de passe, usar a largura para alongar a defesa e reconhecer quando uma progressão rápida é mais vantajosa do que insistir na circulação.

O confronto da Champions League será decidido pelos espaços que cada equipe deixar

O duelo tático mais importante pode acontecer nas transições. O Atlético quer ter mais recursos para controlar o jogo com a bola, mas precisa manter uma estrutura capaz de impedir que as perdas de posse se transformem em contra-ataques. O United tem jogadores que podem atacar rapidamente os espaços, mas sua própria organização ofensiva pode deixá-lo vulnerável quando a jogada termina em perda de bola.

Se o Atlético conseguir avançar com vários jogadores sem perder a proteção central, poderá obrigar o United a defender perto da própria área e expor sua dificuldade para se organizar contra ataques posicionais. A movimentação de Álvarez, a capacidade de associação de Baena e o desequilíbrio individual de Lookman são caminhos possíveis para deslocar a defesa inglesa e abrir corredores de infiltração. O desafio será evitar uma circulação lenta, previsível e sem progressão.

Para o United, a oportunidade pode surgir justamente quando o Atlético se comprometer com a construção. Recuperar a bola e encontrar rapidamente Cunha, Mbeumo ou Rashford em movimento pode ser mais perigoso do que tentar dominar o jogo durante longos períodos. Mas isso depende de uma primeira pressão mais coordenada e de jogadores próximos o suficiente para transformar a recuperação em ataque.

Para Simeone, a partida oferece a oportunidade de provar que a fluidez ofensiva pode sobreviver a um adversário agressivo e veloz, sem que a equipe perca seu equilíbrio. Para Carrick, é um teste sobre a capacidade de adaptar o plano àquilo que o elenco executa melhor, em vez de confundir posse com domínio.

O Atlético chega mais estável, mas ainda precisa mostrar que sua transformação funciona contra adversários capazes de explorar os espaços. O United tem recursos para machucar em transição, mas precisa encontrar uma estrutura que dê continuidade aos ataques e reduza a exposição defensiva. A questão central não é qual equipe terá mais a bola: é qual delas conseguirá usar melhor os momentos em que o adversário estiver fora de posição.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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