Champions League

Ancelotti e Guardiola duelaram poucas vezes, mas, na mais importante, Don Carlo ganhou dando show

Os adversários da semifinal desta terça-feira se encontraram na mesma fase em 2014, e o Real Madrid de Ancelotti despachou o Bayern de Munique com 5 a 0 no placar agregado

Carlo Ancelotti e Pep Guardiola precisam estar em qualquer lista de melhores técnicos de todos os tempos, mas não existe exatamente uma rivalidade. Poucas vezes se enfrentaram e a maioria dos confrontos diretos aconteceu com um grande desnível técnico. Mas houve uma ocasião, oito anos atrás, quando ambos ficaram frente a frente com recursos similares, e Don Carlo saiu por cima.

O duelo desta terça-feira, que inicia as semifinais da Champions League, será o sétimo entre eles. Em quatro, Carlo Ancelotti estava no comando do Everton, começando um projeto que se imaginava de médio/longo prazo antes de ser interrompido pela convocação do Real Madrid. Guardiola comandava a locomotiva do Manchester City e ganhou todos. Foram três pela Premier League e um nas quartas de final da Copa da Inglaterra de 2021 – que estava 0 a 0 até os 39 minutos do segundo tempo, quando Gündogan e Kevin de Bruyne construíram a vitória por 2 a 0.

Eles simplesmente se desencontraram. Enquanto Guardiola dava seus primeiros passos pelo Barcelona, Ancelotti terminou seu trabalho pelo Milan, treinou Chelsea e Paris Saint-Germain. Durante a maior parte da estadia de Pep na Alemanha como técnico do Bayern de Munique, Ancelotti estava no Real Madrid. Foi nessa configuração que disputaram as semifinais da Champions League, quando o italiano conseguiu suas únicas vitórias contra o catalão – e sem dúvidas as mais marcantes do confronto direto.

Guardiola deixou sua marca no Bayern de Munique. Pegou um time que havia acabado de conquistar a Tríplice Coroa e conseguiu fazê-lo jogar melhor ainda. Conquistou a Bundesliga três vezes consecutivas. A Champions League, porém, foi uma decepção. Três eliminações nas semifinais. A de 2013/14 foi a primeira e a mais categórica de todas.

O Real Madrid estava em modo obsessivo. José Mourinho havia conseguido quebrar a maldição das oitavas de final, mas a décima conquista, La Décima, ainda escapava. O ás na manga para conquistá-la naquela temporada havia custado € 100 milhões quando ainda era obsceno pensar que um jogador poderia custar € 100 milhões. Gareth Bale foi a cereja no bolo de um time que contava com Casillas, Pepe, Sergio Ramos, Xabi Alonso, Luka Modric, Ángel Di María, Cristiano Ronaldo e Karim Benzema.

Os jogos foram também no fim de abril. O Bayern de Munique havia conseguido ridículas 25 vitórias nas primeiras 27 rodadas da Bundesliga, com dois empates. O título foi conquistado com todas as rodadas de antecedência possíveis e coincidiu com uma queda de rendimento. O Manchester United capenga de David Moyes deveria ter sido despachado com mais facilidade – após empate em Old Trafford, Patrice Evra chegou a abrir o placar no começo do segundo tempo, antes dos Red Devils levarem a virada. Na Bundesliga, veio um empate contra o Hoffenheim seguido por derrotas para Augsburg e Borussia Dortmund. Havia sinais. Sinais de que o Bayern de Munique era vulnerável ao contra-ataque.

Bale, gripado, começou no banco no Santiago Bernabéu. Isco completou o ataque do Real Madrid. O Bayern de Munique teve Philipp Lahm no meio-campo, Rafinha na lateral direita e as tradicionais ameaças de Arjen Robben e Franck Ribéry pelas pontas. E foi nos contra-ataques que os donos da casa mais castigaram os alemães. Nem precisou ser rápido. Aos 19 minutos, o Real Madrid trabalhou a bola com consciência. Cristiano Ronaldo pela lateral esquerda encontrou Fabio Coentrão se projetando nas costas da defesa. O cruzamento rasteiro terminou com a finalização de Benzema na pequena área – pois é, ele sempre fez gols decisivos.

Detalhes da jogada: Rafinha saiu para dar o bote em Cristiano Ronaldo e deixou a defesa do Bayern de Munique um pouco torta. Coentrão apareceu nas costas de Boateng, e Dante tentou dobrar a marcação. Alaba ficou responsável por Benzema no meio da área e errou o bote na hora de cortar o cruzamento. Mario Mandzukic até voltou, mas, trotando, chegou a tempo de assistir ao lance do melhor lugar do estádio. Cristiano Ronaldo perdeu uma chance de ouro, em outra jogada criada em cima do lateral direito brasileiro. Di María teve mais uma. Sempre pelos lados, sempre em transições.

O Bayern de Munique teve problemas para furar a defesa do Real Madrid. Abusou dos cruzamentos tentando encontrar a cabeça de Mandzukic e raramente lhe ocorria chutar de fora da área. Guardiola esperou 20 minutos no segundo tempo para consertar a marcação, com Javi Martínez no meio-campo e Lahm de volta à lateral. Cristiano Ronaldo exigiu doas boas defesas de Neuer, e a melhor chance de empate aos bávaros saiu aos 39 minutos, em trama de dois substitutos. Müller acionou Götze, que bateu em cheio. Casillas foi muito bem.

Apesar de tudo, a vitória era magra. O Real Madrid lamentava as chances desperdiçadas que poderiam ter lhe dado uma vantagem maior. Teria que enfrentar a Allianz Arena. Ancelotti mudou pouco. Bale retornou ao ataque. Guardiola fez uma mudança também, mas mais significativa. Thomas Müller foi titular, com Toni Kroos e Bastian Schweinsteiger no meio-campo e Lahm começando na lateral direita. Na prática, era um 4-2-4, com Müller encostando em Mandzukic, dois pontas, dois meias. E deu tudo muito errado.

Em uma primeira bola nas costas da defesa, Neuer saiu para tirar de cabeça, pegou mal e Gareth Bale mandou direto da intermediária. Não chutou bem, para fora. Aos 15 minutos, Modric cobrou escanteio, e Sergio Ramos cabeceou para fazer 1 a 0. Aos 20 minutos, Di María cobrou falta, Pepe desviou e Sergio Ramos cabeceou para fazer 2 a 0. Tudo bem que o calcanhar de Aquiles do Bayern de Munique eram os contra-ataques e não a bola parada. Mas também foi a bola parada, e os contra-ataques viriam logo mais.

Aos 34 minutos, Bale interceptou no campo de defesa e deixou com Di María. Lançamento à direita para Benzema, que acionou Bale em velocidade. Era uma época em que Bale em velocidade era um fundista. Boateng não teve a menor chance. Na entrada da área, o galês tocou para o lado e Ronaldo fez 3 a 0 para o Real Madrid, na Allianz Arena, ainda no primeiro tempo. A semifinal havia acabado. Mas Cristiano Ronaldo ainda esfregou sal na ferida com um gol de falta, batendo rasteiro por baixo da barreira bávara.

O legal é que essa derrota foi registrada em livro.

“Os jogadores estavam animados, muito animados, ansiosos pela revanche contra o Real Madrid. Em Munique, se havia criado um ambiente mais propício a uma virada épica que a uma fria análise tática. E Pep se deixou influenciar. Esse foi seu grande erro. Até mesmo suas declarações na coletiva soaram estranhas. Ele perguntou aos jogadores sobre o que sentiam e eles lhe falaram do espírito alemão para as viradas, da paixão que a Allianz Arena irradiava nas noites heroicas, pediram a ele para jogar com o coração, partir com tudo e atacar ferozmente desde o primeiro minuto. E Guardiola mudou de ideia. O esquema 3-4-3 inicial deu espaço ao 4-2-3-1, mas na segunda-feira se transformou em um 4-2-4. Como em Dortmund, em julho de 2013, em sua estreia na Alemanha (4 a 2 para o Borussia pela Supercopa), ele se debatia entre a paciência e a paixão, e acabou se inclinando pela paixão. E como em Dortmund, se deu muito, muito mal”, escreveu Martí Perarnau em “Guardiola Confidencial”.

“A virada épica foi um desastre”, continuou. “Pela forma como os gols foram sofridos, mas sobretudo porque o Bayern esteve irreconhecível. Não foi o time dono da bola, que havia dominado no Bernabéu, em Manchester, em Londres e em tantos outros campos, mas um conjunto despojado do seu principal atributo: o meio de campo. Lembrou demais o acontecido na Supercopa Alemã, quando o Bayern teve um meio formado por Thiago, Kroos e Müller, e também se converteu no fim em um 4-2-4, uma equipe dividida em duas metades (…) O Real jogou com mais cabeça que o Bayern, que atuou acelerado, sem controlar o jogo. Foi uma noite perfeita para compreender que uma coisa é ter a bola em seu poder e outra diferente é controlar o jogo. O Bayern tinha a bola; o Real, no entanto, teve o controle das ações.

O relato do livro destaca que Javi Martínez não estava em condições ideais e Thiago era desfalque por lesão. Duas peças que seriam importantes para o Bayern de Munique atuar da maneira como queria e vinha fazendo durante toda a temporada. Mas principalmente diagnostica que a derrota partiu de Guardiola abandonando os seus princípios. Classificou a derrota como a primeira “maiúscula” da carreira do técnico, talvez uma chaga necessária porque “as grandes vitórias sempre nasceram das grandes derrotas”, e trouxe uma declaração definitiva: “Toda a temporada me negando a usar um 4-2-4. Todo o ano resistindo. E uso no dia mais importante. Que grande cagada!”.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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