Champions League

A questão não são as escolhas de Klopp, mas por que ele (ainda) tinha tão poucas

Quando Mohamed Salah foi machucado em Kiev, Jürgen Klopp tinha dois jogadores de ataque no banco de reservas. O jovem Dominic Solanke e Adam Lallana, que mal havia atuado naquela temporada por problemas físicos. Nenhuma novidade. Quando o Liverpool teve mais alternativas no banco de reservas no mata-mata daquela Champions League, elas eram Ings e Woodburn. Klopp será criticado pelas escolhas que tomou na derrota para o Barcelona por 3 a 0, nesta quarta-feira, no Camp Nou, mas o principal questionamento tem que ser por que, um ano depois do vice-campeonato europeu, e quatro anos depois de sua chegada, ele ainda tem tão poucas opções à disposição.

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Klopp explicou, antes da partida, que por ter feito dois jogos em um curto período de tempo, decidiu colocar em campo quem estava com as pernas mais frescas, embora seu último jogo tenha sido na sexta-feira, um passeio pouco exigente contra o Huddersfield, e eliminações precoces nas duas copas inglesas tenham aberto muito espaço no calendário do Liverpool.

“Henderson jogou cinco partidas em sequência, por exemplo, e jogamos duas vezes por semana (apenas quatro vezes entre março e abril). Milner não jogou dois jogos, então estava claro que deveríamos utilizá-lo. Fabinho não jogou dois jogos, então era claro que o usaríamos. Keita não jogou tantas vezes durante a temporada. Wijnaldum não jogou todos os jogos”, afirmou, à BT Sport.

Como o nível dos jogadores de meio-campo do Liverpool é mais ou menos parecido, é um setor em que a rotação diminui pouco o rendimento. O problema começa quando chegamos ao ataque e à lateral direita. Firmino era dúvida antes da partida. Klopp recebeu o ok do departamento médico, mas, sem ter certeza que o atacante aguentaria 90 minutos, deixou o no banco de reservas. E escalou Wijnaldum como centroavante.

A escolha por Wijnaldum não é absurda. Firmino não é atacante com presença de área e faro de gol. Ele recua, abre espaços e arma o jogo, funções que um meia como o holandês pode exercer naturalmente. Mas não deu certo. Wijnaldum não pareceu à vontade e, embora tenha tido uma boa movimentação, participou muito pouco das ações ofensivas. Normal: ele não está acostumado à posição. Então por que Klopp decidiu colocá-lo nela em um jogo decisivo?

Porque não confia nos atacantes de ofício que manteve no elenco. E se não confia neles, por que os manteve no elenco? Pelo que fez na pré-temporada, Sturridge merecia uma chance. Mas não conseguiu manter o bom momento nos jogos a sério e a janela de transferências de janeiro passou sem nenhuma providência. Nem ficou no banco contra o Barcelona. Origi fez um gol importante contra o Everton, na pura sorte, e outro diante do Watford. E só. Atuou dez vezes na Premier League, apenas três desde o começo. Permanece em Anfield somente porque ninguém quis pagar o que o clube pediu por ele, por volta de £ 20 milhões.

E tem a lateral direita. “Era claro que quando Joe Gomez estivesse disponível novamente, haveria um jogo para ele, e acho que hoje (contra o Barcelona) ele faz sentido nessa posição. Com Trent (Alexander-Arnold), está tudo bem. Ele pode descansar um pouco, há jogos importantes pela frente. Mas a primeira coisa que queremos é montar uma boa escalação e para uma boa escalação você precisa de pernas, e isso que quisemos assegurar”, disse.

Arnold, portanto, foi poupado. A decisão é, em si, discutível porque seu poder ofensivo (nove assistências na Premier League) parece mais necessário contra o Barcelona do que contra o Newcastle, no fim de semana. Mas tudo bem. Klopp pode ter optado por um jogador que fechasse melhor o lado direito, onde Alba aparece com muita força no apoio. Só que Joe Gomez, que começou bem a campanha como zagueiro, ainda não havia sido titular desde que voltou de lesão, com um combinado de 30 minutos em campo contra Porto, Cardiff e Huddersfield.

A outra opção seria Nathaniel Clyne, muito mais experiente que Gomez. A esta altura, está com ritmo, depois de passar os quatro primeiros meses da temporada machucado. Mas atualmente defende o Bournemouth, emprestado generosamente pelo Liverpool. “Joe estava em forma, Trent apareceu, e Clyne está em uma idade (28 anos) em que precisa jogar e quer jogar. Ele me procurou e pediu para ir, eu pensei sobre isso e permiti. Porque temos outras opções, jovens aparecendo e tudo isso. Você sempre pode manter um jogador, mas não é sempre fácil mantê-lo em boa forma e com a quantidade certa de confiança. Ele tem que jogar mais do que Clyne estava jogando”, justificou, em janeiro.

O Liverpool gastou mais nesta temporada do que em todas as outras sob o comando de Klopp. Mas o principal gasto foi com uma posição que o treinador alemão negligenciava, a de goleiro, e o único setor que realmente ganhou em profundidade foi o meio-campo. O ataque recebeu mais uma opção com Xherdan Shaqiri, mas, com a lesão séria de Oxlade-Chamberlain, o resultado final foi mais ou menos o mesmo. E o suíço, que havia começado bem a temporada, a ponto de motivar uma mudança de esquema tático (para o 4-2-3-1) para encaixá-lo ao lado do trio de ataque, nem está mais em consideração.

Teve apenas 36 minutos em campo desde o fim de fevereiro. Klopp explicou que ele sentiu uma lesão contra o Bournemouth, no começo daquele mês, e, quando retornou à melhor forma, o time havia engrenado no 4-3-3. “Com a escalação e o sistema que temos, precisamos mudar um pouco se Shaq está jogando, e não fizemos isso nos últimos jogos”, justificou o treinador, no começo de março.

A questão não é torrar dinheiro em uma série de jogadores reservas. Klopp já provou mais de uma vez ser bom em garimpo – Robertson, um leão na lateral esquerda, saiu do Hull City por € 9 milhões – e transformou o Liverpool em um time que briga pelos principais troféus com um gasto líquido (vendas menos compras) relativamente pequeno: € 128 milhões em três temporadas, porque, na sua primeira, chegou em outubro e não contratou ninguém. Esse valor é menor apenas que o do Tottenham, entre os seis principais times da Inglaterra, no mesmo período.

Mas faz pelo menos duas temporadas que está claro que o elenco é curto. Dinheiro não falta e, reforçando, a exigência não é fazer contratações caras para o banco de reservas, mas buscar alternativas a jogadores que já deram o que tinham que dar, desgastados com a torcida e com tetos de desempenho bem conhecidos. O setor mais urgente é o ataque. Qualquer intruso ao trio ofensivo reduz demais o poder de fogo do Liverpool, a ponto de Klopp ter preferido uma improvisação em uma semifinal de Champions League. A defesa, que ainda tem Matip ou Lovren como principais parceiros de Van Dijk, também se beneficiaria de uma renovação.

São válidas as críticas às decisões de Klopp contra o Barcelona. No mínimo, Firmino poderia ter entrado antes, e Alexander-Arnold pelo menos saído do banco de reservas. E, no fim das contas, o Liverpool fez uma boa partida no Camp Nou e o placar foi construído em um misto de falha nas finalizações, um pouco de falta de sorte e a genialidade de Messi. Mas, pela segunda vez seguida, os Reds chegaram às fases agudas da temporada com poucas opções à disposição. Muitos apontam como motivo o excesso de lealdade de Klopp, a relutância em arriscar a harmonia do grupo, ou mesmo pura teimosia. O fato é que, em um clube com a estrutura, o caixa e o poder de atração do Liverpool, Klopp precisa apenas de vontade para mudar esse panorama.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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