Champions League

A noite em que Deco aprovou um passe que eu dei

Por Bruno Bonsanti

O segurança na porta do vestiário checava as pulseirinhas para permitir a entrada das pessoas. Entre cadeiras e boxes para o banho, três mesas de plástico seguravam os uniformes – meião, calção e camisa – que seriam distribuídos. Metade verde, metade branco. Foram entregues alternadamente entre os convidados da Heineken, dividindo os dois times, para uma pelada que faz parte do tour da taça da Champions League pelo Brasil. Recebi a camisa 10, que condiz com minha posição no futebol society amador, um bom impostor como meia-atacante pela esquerda, mas o sonho de ser o maestro do time branco foi muito curto. “Quem pegou a 10? Troca para mim, por favor, porque o Deco pediu para jogar com a 10”.

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Deco? Onde ele jogou? Ganhou o quê para exigir a camisa 10 desse jeito? Dizem que jogou no Porto, no Barcelona, no Chelsea e no Fluminense. Há boatos que ganhou duas edições da Champions League, dois campeonatos espanhóis, três portugueses, um inglês, dois brasileiros, foi vice-campeão europeu e quarto colocado da Copa do Mundo por Portugal. Até que são bons argumentos, no mínimo suficientes para me convencer. A contragosto, cedi a camisa para que ele assumisse aquele número tão simbólico.

Peguei a 2, branca, junto com calções da mesma cor, e guardei o meião na minha bolsa porque, como Renato Gaúcho, mas sem os dribles curtos, os gols e a capacidade de conquistar mulheres, jogo com as meias baixas. A chuteira foi cedida pelo Playball Pompeia, uma Ace da Adidas, tamanho 40, cor verde limão. O rapaz do balcão me ajudou a escolhê-la. Perguntou como era meu estilo, mais velocista ou mais passador. Meu amigo, estou dez quilos acima do peso, fumo um maço de cigarro por dia e não aguento correr mais de cinco minutos, então meu estilo é tentar chegar até o fim do jogo sem pisar na bola ou ser muito xingado pelos companheiros de equipe por causa da minha maneira medíocre de marcar o adversário. Isso foi o que respondi na minha cabeça. Para o rapaz do balcão, disse apenas que “era mais de passe” e recebi a Ace, que exige algo próximo de uma operação cirúrgica para ser calçada.

Nós poderíamos muito bem estar em La Masia naquele momento porque, aparentemente, todos os outros convidados também são bons de passe. Entre os 14 “jogadores” que foram organizados em duas filas, como na entrada em campo de um jogo de verdade da Champions League, apenas um não pegou a Ace. Preferiu outra, cujo nome eu não sei, branca e com detalhes azuis. Antes de a bola rolar, chequei novamente, e identifiquei uma chuteira preta clássica que tanto gostamos. Estava nos pés de Deco. “Você prefere chuteira preta?”, perguntei, aguardando uma resposta contundente contra a colorização das chuteiras, a mercantilização do esporte ludopédico e o futebol moderno em geral. “Não. Os moleques lá em casa sumiram com as outras. Só sobrou essa”, disse. “Ah”, retruquei, esforçando-me muito pouco para esconder a decepção.

A partida foi realizada na última quadra do complexo principal do Playball da Pompeia. Conhecia a cancha, já havia sido campeão nela. Jogava praticamente em casa. Estava ansioso para trocar passes com Deco, que começaria a pelada no time branco. Já visualizava aquele lançamento de dez metros traçando uma parábola na noite fresca de outono e morrendo na minha chuteira verde-limão (antes de a bola provavelmente escapar e ir para fora). Mas a quadra é pequena e não comporta todo mundo. Decidimos jogar com seis na linha, mais o goleiro, e havia dois sobressalentes. A justiça incontestável da contagem de dedos decidiu quem começaria no lado de fora. Adivinha? A ideia era trocar depois de cinco minutos, o que apresentava um inconveniente matemático, porque nos haviam dito que Deco jogaria apenas cinco minutos em cada time. Disse que estava meio machucado.

Por sorte, Deco aguentou as dores e disputou todos os minutos da partida. Depois de contar os segundos para entrar em campo (contagem final: 517), finalmente integrei-me à partida. Comecei tentando auxiliar na saída de bola, mas foi um esforço inócuo. Você pode atirar um míssil para Deco que ele o transforma em biribinha e sai jogando com tranquilidade budista. Até que a camisa 10 caiu bem nele. Tramamos duas jogadas: na primeira, dominei no meio, avancei e toquei com o biquinho da chuteira, na esperança de uma tabela. Passei no espaço vazio, um pouco à frente de onde ele estava, mas Deco não queria correr muito naquela noite. Na segunda, recebi a bola esticada pela esquerda, cortei para o meio para tentar o arremate e me atrapalhei todo com a bola, os pés da marcação, o gramado, o oxigênio e minha própria ruindade. Logo em seguida, dominei na ponta da pequena área e soltei a bola em profundidade com o lado de fora do pé direito para o companheiro que passava às costas da defesa. Foi quando ouvi uma palavrinha de três letras, que carregou um misto de surpresa e aprovação: “Boa!”.

Esse é o momento de fazermos uma pausa. Todo brasileiro que se preza já sonhou em jogar futebol profissionalmente, até aquele dia terrível, o pior da vida de qualquer homem ou mulher, em que ele percebe que o bonde já passou e dificilmente as contas serão pagas chutando uma bola. Mas em cada passe preciso, drible desconcertante ou golaço executados em uma pelada com amigos, o frustrado e ingênuo amador pensa no que poderia ter acontecido se tivesse bebido duzentas garrafas de cerveja a menos, deixado de fumar outras centenas de maços de cigarro, alimentado-se melhor, aprimorado a forma física e os fundamentos, encontrado um bom empresário ou se aventurado na segunda divisão do futebol australiano. A conclusão é que apenas um ou dois detalhes ficaram entre ele e um contrato de R$ 20 mil por mês com o Batatais. Isso também acontece quando um bicampeão europeu qualifica o seu passe com o segundo melhor elogio da cultura da pelada. O primeiro colocado, para quem ficou curioso, é muito mais elaborado e consiste em se aproximar do companheiro e dizer “boa jogada, cara!”.

A primeira etapa do amistoso terminou 3 a 2 para o time branco, e depois de um pequeno intervalo, Deco fardou-se de verde e foi para o outro lado. Agora, a missão era marcá-lo. Logo na saída de bola, ele recebeu na ponta esquerda, evitou que a redonda saísse pela lateral e virou o corpo em direção ao gol. Fui marcá-lo  com a volúpia de uma criança em loja de doces, mas atento para manter o vão entre as minhas pernas o menor possível. Estava deliciado por jogar bola com o Deco. Não ficaria tão feliz assim se levasse um rolinho do Deco. Travei a bola e fiz o desarme, mas com uma virilidade pouco compatível com o clima amistoso daquela noite. Mas ele também achou que foi duro demais. Porque, no meio da confusão, acertou a minha testa com um tapa. Perguntou se havia me machucado, respondi que não, e a bola seguiu rolando sobre a  borracha do Playball.

Ao final do jogo, que terminou empatado (os árbitros contaram apenas a diferença de gols, mas chuto que o placar foi algo entre o 8 a 8 e o 10 a 10), Deco mais uma vez perguntou se havia me machucado, o que demonstra uma preocupação louvável por parte dele. Tirou fotos e atendeu às demandas dos convidados, sempre com muita atenção, mas demonstrando certa pressa. Pensei que poderia ser porque o seu Corinthians estava prestes a enfrentar a Ponte Preta. Na realidade, tinha marcado de jantar em algum restaurante chique de São Paulo. Subiu no banco de passageiros da sua SUV branca e foi por um lado. Pelo outro, fui eu, morrendo de vontade de contar para todo mundo que o Deco elogiou o meu passe.

Esse passe aqui, no caso:

deco 02

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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