Champions League

A mágica de 2006 se repete grandiosa: Villarreal resiste ao Bayern e, no fim, arranca o empate que vale a semifinal

O Villarreal precisou lidar com uma pressão incessante do Bayern na Allianz Arena, mas sofreu apenas um gol e conseguiu a igualdade num contragolpe perfeito aos 43 do 2° tempo

A Champions League de 2005/06 permaneceu por uma década e meia como uma lembrança tão mágica quanto única aos torcedores do Villarreal. Disputar uma semifinal continental, a um pênalti de passar à decisão, era algo inimaginável à pequenina cidade espanhola anos antes. O bom trabalho do clube, porém, excedeu limites. Desde então, o futebol europeu mudou muito e se concentrou mais em poucas mãos. O Submarino Amarelo, por sua vez, seguiu operando além de seus limites e se manteve como um figurante costumeiro nas copas europeias, mesmo com um rebaixamento nesta linha do tempo. Na temporada passada, o título da Liga Europa inaugurou a sala de troféus com um merecido reconhecimento às bases construídas por lá. Já nesta terça, o Villarreal garantiu que aquele 2005/06 não seja um sonho isolado na imaginação de sua torcida. O Submarino Amarelo volta à semifinal da Champions, e com uma classificação titânica sobre o Bayern de Munique. Depois da vitória histórica por 1 a 0 na Espanha, o time de Unai Emery buscou o empate por 1 a 1 durante os minutos finais na Allianz Arena. É a confirmação que o presente é o momento mais glorioso da história dos espanhóis.

A comemoração vibrante do Villarreal em Munique, no entanto, dependeu de um esforço imenso durante 88 minutos. O Bayern sabia do que precisava e arregaçou as mangas para pressionar. O primeiro tempo seria jogado só de um lado do campo, mas a firmeza da muralha montada pelo Submarino Amarelo não concedeu muitas oportunidades aos bávaros. O segundo tempo seria mais duro aos visitantes, com a melhora clara dos anfitriões e o gol de Lewandowski logo de início. Entretanto, o Villarreal seguiu resistindo. Ainda precisava de uma só bola. Ela veio num contragolpe de manual, aos 43 da etapa final, que valeu por cada gota de suor derramada e proporcionaria lágrimas à façanha escrita na Alemanha.

Chukwueze, do Villarreal, comemora (JOSE JORDAN/AFP via Getty Images/One Football)

Julian Nagelsmann mudou o sistema de sua equipe para a partida. Voltava a alinhar os bávaros num 3-2-4-1, com as entradas de Leon Goretzka e Kingsley Coman, nos lugares de Alphonso Davies e Serge Gnabry. A escalação começava com Manuel Neuer no gol, além da zaga alinhada com Benjamin Pavard, Dayot Upamecano e Lucas Hernández. Joshua Kimmich e Leon Goretzka eram os volantes. Mais à frente, Leroy Sané e Kingsley Coman estavam abertos na ponta, com Jamal Musiala e Thomas Müller se movimentando no meio. No comando do ataque, Robert Lewandowski. Unai Emery, por sua vez, não alterou o 4-4-2 do Villarreal. Tinha Gerónimo Rulli no gol, bem como Juan Foyth, Raúl Albiol, Pau Torres e Pervis Estupiñán na zaga. O meio trazia Giovani Lo Celso, Étienne Capoue, Dani Parejo e Francis Coquelin. Na frente, Gerard Moreno e Arnaut Danjuma.

O Bayern de Munique apresentou um ritmo de jogo maior do que o visto na ida. Os bávaros conseguiam ocupar os espaços no campo de ataque e tinham muita amplitude nas pontas. Além disso, a marcação alta dos alvirrubros tentava abafar o Villarreal. Apesar disso, o Submarino Amarelo mantinha sua postura de tentar sair jogando pelo chão e construir. Nem sempre isso dava resultado, mas claramente a equipe tinha recursos para não atuar na base do chutão e chegou a incomodar, nas corridas de Danjuma e num tiro de Moreno para fora. No entanto, a presença ofensiva dos alemães empurrava as linhas de marcação amarelas para dentro da área e isso ditava o duelo.

Apesar da imposição, o Bayern demorou a criar chances claras. Um cruzamento fechado de Sané provocou a primeira defesa de Rulli na pequena área. Já aos 20, Musiala escapou pela ponta esquerda e chutou cruzado, mas torto, para fora. Os bávaros buscavam os cruzamentos, sem necessariamente uma conexão. Lewandowski e Thomas Müller demoravam a aparecer, com seus companheiros quase sempre tentando os passes pelo alto. De certa maneira, a resistência do Villarreal dava resultado por também não permitir oportunidades.

A primeira finalização no alvo do Bayern veio aos 29 minutos, quando Musiala cabeceou livre e mandou direto nos braços de Rulli. A partida ficava mais pegada, com lances duros entre os times e atendimentos médicos. Quando os bávaros restabeleceram sua blitz, o Villarreal se defendia com o time inteiro ao redor da área. Mesmo Moreno e Danjuma estavam bastante recuados, empenhados nos bloqueios. Independentemente da retranca, o Submarino Amarelo assustou num contra-ataque aos 41, depois de grande jogada de Capoue. Danjuma escapou nas costas da zaga e isolou o chute, mas estava impedido. Na reta final da primeira etapa, os espanhóis tiveram mais presença ofensiva, o que, se não rendeu tantos lances, garantia um respiro atrás.

Logo no primeiro minuto do segundo tempo, o Bayern conseguiu acertar um cruzamento ótimo como nenhum outro na primeira etapa. Musiala escapou da linha de impedimento e apareceu livre na área, mas Rulli se antecipou e bloqueou o meia. Logo depois, mais um recurso diferente: o chute de fora de Coman, que saiu sem tanto perigo assim. Os bávaros pareciam mais dispostos a arriscar e isso, claro, deixava o Villarreal no limite. Foram alguns bloqueios e cortes essenciais logo antes dos cinco minutos, até que Sané desse um presente a Upamecano após escanteio e o zagueiro isolasse de frente para o gol, com a visão congestionada.

Robert Lewandowski, do Bayern (CHRISTOF STACHE/AFP via Getty Images/One Football)

O gol do Bayern começava a amadurecer e não demorou a sair, aos sete minutos. O Villarreal tentou sair pelo chão e Dani Parejo viu seu passe ser bloqueado por Coman na intermediária. Os bávaros armaram o contragolpe com toques curtos, até Lewandowski receber na entrada da área. Mesmo cercado por dois, o artilheiro abriu para o chute e mandou o tiro cirúrgico, que não precisou de força para sair do alcance de Rulli e beijar a trave antes de entrar. A equipe da casa se inflamava e não parecia se contentar com a prorrogação. Havia mais variação das jogadas dos alemães, o que expunha o Villarreal. Isso sem contar a confiança elevada dos anfitriões.

Thomas Müller apareceu na área aos 11, mas não pegou bem na bola. A pressão era incessante e um ótimo escape vinha na esquerda, onde Coman bagunçava a marcação com seus dribles e até forçou o cartão amarelo de Foyth. As triangulações do Bayern fluíam bem mais e as finalizações de fora eram recorrentes. Enquanto isso, o Villarreal pareceu sentir o jogo e errava muito as transições, com bolas longas facilmente contidas pela defesa bávara. A partir dos 20, o Submarino Amarelo teve um pouco mais de respiro e voltou a avançar em campo, com algumas incursões ao redor da área. No entanto, os alemães seguiam mais contundentes e, aos 26, Müller desperdiçou uma cabeçada sozinho na área, ao lado, após cruzamento perfeito de Sané.

O cansaço pesava um pouco mais, o que reduziu o ritmo. Contudo, nenhum dos dois treinadores parecia disposto a fazer alterações. O duelo ficava mais contido e mais cauteloso. A primeira troca veio somente aos 37, com Gnabry na vaga de Musiala. Logo na sequência, o Villarreal teve uma ótima chance com Danjuma pela esquerda, em chute cruzado que saiu próximo da trave de Neuer. E o Submarino Amarelo também ganhou sangue novo, com Samuel Chukwueze e Alfonso Pedraza, saindo Coquelin e Danjuma. Na série de alterações, Alphonso Davies suplantava Lucas Hernández.

O Bayern, contudo, dava sinais de que estava mais exposto aos contragolpes. Um avanço muito bem encaixado do Submarino Amarelo rendeu o gol de empate aos 43 – o gol da classificação. Dani Parejo foi magistral para limpar a jogada no campo de defesa. Lo Celso recebeu e enfiou na velocidade para Moreno. O atacante inverteu um passe rasteiro na área e, com espaço da marcação de Davies, Chukwueze definiu sozinho. Mandou no alto, acima das mãos de um Neuer, que esperava o chute mais baixo. O tempo dos bávaros para reagir seria bem diminuto, com apenas quatro minutos de acréscimos.

Eric Maxim Choupo-Moting seria a cartada final de Nagelsmann, na vaga de Thomas Müller. Enquanto isso, Serge Aurier ajudava a fechar o Villarreal no lugar do herói Dani Parejo. O Bayern sentia o abatimento e voltou a esbarrar nos mesmos erros do primeiro tempo: era uma equipe previsível, limitada a cruzamentos, que acabavam neutralizados pelo Villarreal. O Submarino Amarelo controlou o tempo, até que o apito final desencadeasse uma comemoração emocionada. As vaias ecoavam na Allianz Arena.

O Bayern de Munique jogou pela vitória no segundo tempo, mas havia desperdiçado os primeiros 45 minutos de jogo. Quando o time melhorou, não conseguiu manter a intensidade até o fim. E, nas alterações, ficou exposto a um adversário competente na marcação e que precisava só de uma bola. Fica a decepção aos bávaros, que até deram sinais positivos em relação ao momento de baixa na temporada, mas não apresentam o nível de consistência que marcou os últimos anos com Hansi Flick. Coman sai como o destaque individual da reviravolta que não ocorreu.

Já a história do vencedor é do Villarreal, numa classificação histórica, ainda mais pesada que a vivida contra a Internazionale em 2005/06. O Submarino Amarelo contou com a experiência de jogadores-chave e também uma construção perfeita para conseguir o gol. Os elogios, de qualquer forma, residem ao trabalho coletivo no campo de defesa que valeu ouro no confronto e impediu que o Bayern tivesse tantas chances claras quanto foi grande seu volume de jogo. Taticamente, em especial, esse time de Unai Emery se supera. E escreve outro capítulo inesquecível, na esteira do último título da Liga Europa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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