A Juventus surge como o pior adversário para um Bayern pressionado pela Champions
Entre todos os adversários possíveis nas oitavas de final da Liga dos Campeões, a Juventus pintava inegavelmente como o mais indigesto para os primeiros colocados. A soma de fatores era considerável, não apenas pelo peso da camisa ou pela campanha até a decisão na última temporada. Parafraseando Ronaldinho Gaúcho, na profundidade de sua filosofia simplória, “Juve é Juve”. E o monstro ganhou tamanho desde o sorteio. De um grande time que fazia uma campanha de recuperação, os bianconeri emendaram sua maior sequência de vitórias na história da Serie A. Ganharam embalo, entrosamento e jogadores em excelente fase para amedrontar o Bayern de Munique em um momento decisivo.
Pela qualidade de seu elenco, os bávaros permanecem como favoritos para o duelo. Não dá para negar a qualidade do time, sobretudo pelo início de ano ainda mais fabuloso que vivem Robert Lewandowski e Thomas Müller. Todavia, a pressão que se coloca sob as costas do Bayern é maior do que a sua possível vantagem no confronto. Como afirmou Buffon na coletiva, o embate vale pelas oitavas, mas tem força de semifinal. Para os alemães, até mais do que isso, sendo também um momento preponderante para a avaliação dos três anos de trabalho de Pep Guardiola no clube.
Por mais que Guardiola tenha quebrado vários recordes na Bundesliga e tenha tudo nas mãos para conquistar o tricampeonato nacional (em inédito tetra, juntando também a Salva de Prata de 2013), a cobrança sempre recai sobre a Champions. Jupp Heynckes se aposentou com um parâmetro muito grande na Baviera: a melhor temporada da história do clube. E, por mais que não tenha mantido a máquina de seu antecessor, Guardiola fortaleceu o elenco e promoveu variações interessantes ao time. Que, no entanto, não valeram nada em seu principal objetivo. Por toda a força do Bayern e pelo renome de Guardiola, o mínimo que se esperava era uma conquista continental. Pois a última oportunidade se intensifica agora.
Para piorar, o anúncio da saída para o Manchester City cria um desgaste que os bávaros não precisavam necessariamente ter que aguentar neste momento decisivo. A equipe segue vencendo e liderando no alemão, mas não com a mesma contundência. A brecha para que a imprensa local comece a propagar a crise interna, ao mínimo sinal. Além disso, parte da torcida demonstra descontentamento – embora a faixa “Pep não é nossa coisa” erguida contra o Darmstadt, apesar da possível interpretação sobre o técnico, tenha sido uma brincadeira com os adversários por outra levantada no jogo de ida, em que os alviazuis diziam “Nossa maconha é melhor que a sua anfetamina (apelidada de ‘pep’ em alemão)”.

Fato é que, com manifestações públicas de desafeto ou não, o clima de Guardiola não anda dos melhores. É erguer a Champions ou deixar a Allianz Arena sob a impressão de que nunca cumpriu sua missão. Bom para a Juventus, que faz o primeiro jogo em Turim sem responsabilidades tão pesadas. Por mais que o confronto coloque frente a frente duas equipes dominantes nas grandes ligas, a Velha Senhora pode assumir o rótulo de desafiante. O que lhe vale bastante, diante do potencial que possui.
O equilíbrio na Serie A não permite que a Juve se concentre na Champions, com o Napoli em seu encalço. De qualquer maneira, a conquista da liderança alivia um pouco das cobranças sobre a equipe de Massimiliano Allegri. E nem dava para ser diferente, depois das 15 vitórias consecutivas para chegar ao topo. Além disso, vale lembrar, os bianconeri fizeram boa campanha na fase de grupos da Champions, a despeito da segunda colocação. Inclusive, venceram por duas vezes o Manchester City, adversário mais tarimbado da chave.
A campanha da Juventus na temporada passada também serve como motivo de confiança. Tudo bem, muito mudou desde então. Mas os juventinos conseguiram eliminar uma força dentro da Alemanha, especialmente pelos 3 a 0 diante do Borussia Dortmund no Signal Iduna Park. E ainda derrubaram um gigante como o Real Madrid, dono de um elenco tão forte quanto o do Bayern – em classificação que, no fim das contas, acabou sendo decisiva para a demissão do sucessor de Guardiola. Seja pelo local ou pela reputação, a experiência da Juve diante de rivais com semelhanças aos bávaros é positiva, por mais que há quatro temporadas os italianos tenham sido duramente eliminados pelo Bayern de Heynckes.
Por fim, o momento também pesa bastante para dar confiança à Juventus. Individualmente, vários jogadores estão voando. A defesa mantém uma segurança impressionante, com apenas um gol sofrido nas 11 partidas disputadas em 2016. Embora Chiellini seja desfalque, Bonucci tem exercido uma liderança tremenda. No meio, Khedira e Marchisio aparecem em ascensão, embora quem arrebente mesmo seja Pogba, voltando ao nível de suas atuações mais exuberantes na Velha Senhora. Na frente, os números espetaculares de Dybala falam por si. E ainda há outras duas peças que tendem a ser essenciais: Buffon, como sempre, diante do bombardeio que porventura possa acontecer; e Cuadrado, pela velocidade nas pontas. Aliás, o time juventino possui características que tendem a incomodar o Bayern, forte na defesa e impiedoso nos contragolpes.
Pelo fator “entorta varal”, pela dominância dos times e pela qualidade atual, Juventus x Bayern já valeria como grande jogo das oitavas de final da Champions. Mas ainda há esse caráter decisivo em torno do confronto. Mesmo que para os juventinos seja importante (e muito) fazer outra campanha imponente na Champions, não há o peso determinante para um ciclo como existe em Munique. Elemento um tanto quanto subjetivo, mas que tende a influenciar bastante os dois jogaços que acontecem a partir desta terça-feira.



