Champions League

A história de Liverpool x Benfica pela Champions guarda momentos marcantes a ídolos e grandes times

O Liverpool leva a melhor no retrospecto, mas o Benfica possui também uma classificação histórica em Anfield

Os tempos áureos de Benfica e Liverpool não coincidiram. Os encarnados viveram seu ápice na década de 1960, enquanto a afirmação continental dos reds aconteceu apenas na virada dos anos 1970. Ainda assim, os duelos pela Champions foram relativamente frequentes. Os lusitanos estavam entre as vítimas favoritas dos ingleses, eliminados em três encontros ocorridos de 1978 a 1984. A revanche dos lisboetas demorou a vir. Ao menos, seria paga com juros em 2006, quando os benfiquistas surpreenderam os então campeões continentais e selaram uma surpreendente classificação nas oitavas de final.

Coincidentemente, o primeiro duelo entre Liverpool e Benfica pela Champions aconteceu nas quartas de final, pela temporada 1977/78. Os benfiquistas passaram por Torpedo Moscou e B1903 nas fases anteriores, mas não inspiravam tanta confiança. O Liverpool, afinal, era o atual campeão continental e chegou a golear o Dynamo Dresden por 5 a 1 na fase anterior. Bob Paisley treinava uma constelação composta por Kenny Dalglish, Emlyn Hughes, Ray Clemence, Ray Kennedy e outros ídolos históricos em Anfield. Do outro lado, os encarnados até reuniam jogadores de seleção como Nené, Toni, Humberto Coelho e Manuel Bento. Contudo, as diferenças ficaram expressas logo.

A ida, em Lisboa, já teria uma virada do Liverpool por 2 a 1. Nené abriu o placar logo aos 13 minutos, mas Jimmy Case empatou aos 36. No segundo tempo, Emlyn Hughes concluiu o triunfo que abria caminho antes do segundo embate na Inglaterra. E o que se viu em Anfield foi uma goleada por 4 a 1, facilitada pelos enormes erros dos benfiquistas. Ian Callaghan e Kenny Dalglish receberam dois presentaços para os primeiros gols antes dos 17 minutos. O empate de Nené seria uma retribuição da zaga inglesa. Já no segundo tempo, coube a Terry McDermott e Phil Neal fecharem a contagem. Depois de superar também o Borussia Mönchengladbach na semifinal, o Liverpool conquistou o bicampeonato diante do Club Brugge.

https://www.youtube.com/watch?v=JJJ0v2nrGk0

Seis anos depois, pela Champions 1983/84, outro embate pelas quartas de final. O Benfica eliminou Linfield e Olympiacos nas fases anteriores. Já o Liverpool passara por Odense e Athletic Bilbao. Os reds já eram dirigidos por Joe Fagan, numa equipe com poucos remanescentes do encontro anterior. Eram tempos de Ian Rush, Graeme Souness e Alan Hansen entre os destaques. Já os encarnados preservavam Nené e Manuel Bento, além de incluírem Glenn Strömberg no meio. O comando ficava por conta de Sven-Göran Eriksson.

A vitória mínima em Anfield, por 1 a 0, já daria tranquilidade ao Liverpool. Ian Rush desferiu uma cabeçada potente no segundo pau e determinou o triunfo. E se alguém temia uma reviravolta no Estádio da Luz, os medos acabaram dissipados com a goleada por 4 a 1 dos ingleses – em noite desastrosa do goleiro Manuel Bento. Ronnie Whelan e Craig Johnston marcaram com meia hora de partida. Só no meio do segundo tempo é que Nené descontou, mas Rush e Whelan deram os golpes de misericórdia. Após derrotar o Dinamo Bucareste, o Liverpool seria outra vez campeão, ao ganhar da Roma nos pênaltis na final.

Quis o destino que, meses depois, um novo confronto ocorresse nas oitavas de final da Champions 1984/85. O Benfica ganhou um duro encontro com o Estrela Vermelha na fase anterior, enquanto o Liverpool tinha superado o Lech Poznan. Rush e Dalglish formavam um ataque de respeito na equipe de Joe Fagan. Do outro lado, Pál Csernai era o treinador do Benfica, sem mais Nené para aquele embate, mas com o brasileiro Wando entre as alternativas. O retrospecto do confronto, porém, seguiria o mesmo.

O Liverpool encaminhou a classificação logo na ida, com o triunfo por 3 a 1. Rush estava numa noite infernal e marcou os três gols dos reds com muito oportunismo. Os benfiquistas descontaram com Diamantino. No Estádio da Luz, finalmente os encarnados ganharam dos ingleses. O placar foi de 1 a 0, graças a um pênalti convertido por Michael Manniche logo aos seis minutos. O que, por si, não bastaria para reverter o agregado. O goleiro Bruce Grobbelaar teve uma atuação decisiva para evitar qualquer susto. Mais uma vez, o Liverpool alcançou a decisão, com classificações sobre Austria Viena e Panathinaikos. O desfecho é que seria triste, com a tragédia de Heysel, em que a derrota para a Juventus na final acaba pouco lembrada.

Entre a suspensão aos ingleses nas copas europeias e as rupturas dos anos 1990, Liverpool e Benfica só voltaram a se encarar pela Champions 22 anos depois. As oitavas de final de 2005/06 garantiam o embate, entre os ingleses que saíram invictos da fase de grupos e os portugueses que passaram na conta do chá. Ronald Koeman dirigia os encarnados na época e tinha um ótimo elenco. Luisão, Petit, Simão Sabrosa, Nuno Gomes, Fabrizio Miccoli, Geovanni e Laurent Robert faziam parte do grupo. Já Rafa Benítez mantinha a base campeã no ano anterior. Xabi Alonso, Harry Kewell, Fernando Morientes, Peter Crouch e Steven Gerrard estavam entre as opções dos reds.

O Benfica cumpriu o mando de campo na ida com uma vitória por 1 a 0 definida apenas nos minutos finais. Aos 39 do segundo tempo, Petit cobrou uma falta da intermediária e Luisão apareceu na área para testar no barbante. Já em Anfield, o ambiente se voltava para uma virada do Liverpool. Os encarnados surpreenderam, com os 2 a 0 arrancados. A bola não entrava para os ingleses, com direito a boas defesas do goleiro Moretto e um chute na trave de Peter Crouch. Aos 36 da primeira etapa, então, Simão abriu espaço na entrada da área e acertou um lindo chute por cobertura, na gaveta de Reina. Um gol simbólico, considerando que o ponta quase assinou com o próprio Liverpool semanas antes. Já aos 44 da etapa final, um golpe fatal no contra-ataque. A bola ia escapando de Fabrizio Miccoli após o domínio, até que o italiano emendasse um plástico voleio e fuzilasse Reina.

O Benfica seria eliminado pelo futuro campeão Barcelona nas quartas de final daquela Champions 2005/06, mas o triunfo em Anfield permanece como um dos grandes orgulhos da torcida benfiquista na história recente pelas copas continentais. Depois disso, houve mais uma classificação do Liverpool nas quartas de final da Liga Europa de 2009/10, com a derrota por 2 a 1 na Luz revertida pela goleada por 4 a 1 em Anfield. As camisas pesadas de ambos os clubes, ainda assim, merecem ter a Champions como grande palco. E as quartas de final desta vez reavivam tal história.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo