Champions League

A goleada por 5 a 1 sobre o Liverpool que apresentou o Ajax de Rinus Michels e Johan Cruyff à Europa

O duelo entre Ajax e Liverpool carrega uma história de peso, e não apenas pela galeria de feitos de ambos os clubes. Foi num confronto diante dos Reds, afinal, que a Europa descobriu o talento de Johan Cruyff e testemunhou a formação da brilhante geração dirigida por Rinus Michels ainda em 1966. O embate pelas oitavas de final se tornou uma espécie de eclosão aos Ajacieden, em sua terceira aparição na antiga Copa dos Campeões. Os Godenzonen chegaram a golear a equipe de Bill Shankly por 5 a 1 em Amsterdã, num confronto marcante à trajetória de ambos os gigantes além das fronteiras.

O Ajax pouco tinha disputado as competições continentais até 1966/67. A equipe possuía duas participações anteriores na Champions, sem passar da segunda fase, e também caiu na primeira etapa quando teve a oportunidade de disputar a Recopa Europeia. O Liverpool, por sua vez, era mais reconhecido. Os Reds viviam seu renascimento sob as ordens de Bill Shankly e começavam a despontar além das fronteiras, diante dos sucessos domésticos. Em 1964/65, os ingleses alcançaram a semifinal da Champions. Eliminaram Anderlecht e Colônia, antes da queda diante da poderosa Internazionale de Helenio Herrera. Já em 1965/66, o time despachou Juventus e Celtic para alcançar a final da Recopa Europeia, mas perdeu o troféu para o Borussia Dortmund na decisão.

Desta maneira, o favoritismo se concentrava ao Liverpool, representante da Inglaterra – campeã do mundo pouco antes. Havia uma expectativa sobre o ressurgimento do clube, por mais que os comandados de Bill Shankly tenham sofrido para eliminar o Petrolul Ploiesti na fase anterior, dependendo de uma partida extra em Bruxelas. Em campo, ainda assim, era uma equipe recheada por grandes figuras. Ian St. John, Ron Yeats, Tommy Smith, Roger Hunt e Peter Thompson eram algumas das estrelas principais em Anfield.

Já o Ajax era um tanto quando desconhecido, com Rinus Michels em seu segundo ano à frente da equipe. Em tempos nos quais a seleção local não era muito expressiva, poucos nomes tinham reconhecimento internacional. Sjaak Swart, Henk Groot e Bennie Muller eram os mais notáveis entre aqueles que defendiam a Oranje, com menção ainda Klaas Nuninga. Todavia, despontava uma geração mais jovem, com Wim Suurbier e Piet Keizer. E nenhum deles com a dimensão de Johan Cruyff, que surgia como fenômeno aos 19 anos. Na etapa anterior da Champions, os Ajacieden cumpriram sua parte com duas vitórias sobre o Besiktas.

Antes do duelo, Bill Shankly viajou a Amsterdã para assistir ao Ajax. Viu os oponentes ganharem do modesto Telstar sem apresentarem tanto e voltou cheio de confiança, achando que o Liverpool se classificaria com facilidade. Não poderia estar mais enganado. O Estádio Olímpico ofereceria um desafio além da qualidade dos oponentes, considerando a densa névoa que tomou o gramado. De qualquer maneira, os ingleses também não viram a cor da bola pelo talento dos anfitriões.

Por causa da neblina que prejudicava a visibilidade em campo, as equipes discutiram o adiamento da partida. Bill Shankly era favorável a esta opção, mas preferia não atuar no dia seguinte, já que estava às vésperas de um confronto com o Manchester United pelo Campeonato Inglês. O árbitro Antonio Sbardella, no fim das contas, decidiu autorizar o pontapé inicial. Os jogadores tinham uma visibilidade de cerca de 50 metros ao redor. Os maiores prejudicados eram os torcedores. A transmissão na TV era acompanhada por uma mancha branca na tela. Mesmo no estádio, os 55 mil presentes não viam direito a bola e precisavam esperar a comemoração dos jogadores para perceberem os gols. Foram muitos.

Curiosamente, o Ajax quase foi escalado com uma série de desfalques. A equipe passou os três dias anteriores ao jogo concentrada em uma cidade nos arredores de Amsterdã e os atletas estavam com seus carros, não no ônibus do clube. O carro de Swart quase não funcionou, o que também poderia resultar nas ausências de Cruyff, Nuninga e Muller. Por sorte, o quarteto conseguiu sair meia hora antes do pontapé inicial. Chegaram ao estádio a tempo e Rinus Michels nem tinha como punir o atraso. Eles seriam decisivos.

O show do Ajax (vestido todo de branco) se concentrou durante o primeiro tempo. O estreante Cees de Wolf, que substituía Piet Keizer, aproveitou uma sobra do goleiro Tommy Lawrence e abriu o placar logo aos três minutos. Mantendo a pressão, os Godenzonen ampliaram aos 17. Swart fez fila e passou a Nuninga, que fuzilou. Lawrence defendeu, mas Cruyff não perdoou o rebote. Mesmo com Suurbier lesionado, em tempos nos quais as substituições não eram permitidas, o time da casa fez o terceiro aos 39. Cruyff sofreu uma falta perigosa e, depois da cobrança de Frits Soetekouw, Nuniunga guardou.

Por fim, o quarto gol é emblemático para mostrar como a situação era caótica por conta da névoa. Aos 42, quando o árbitro apitou, Swart achou que o primeiro tempo havia acabado e começou a caminhar aos vestiários. Um segurança do estádio o avisou que a bola ainda estava rolando e ele voltou a campo não apenas para disputar os minutos restantes, como também para dar a assistência ao quarto tento, em cruzamento para Nuninga. Outro momento folclórico da primeira etapa aconteceu quando Bill Shankly entrou em campo para dar instruções aos seus jogadores durante um atendimento médico e só depois que os árbitros perceberam.

Durante o segundo tempo, o Liverpool voltou disposto a reagir. Pressionou, mas o goleiro Gert Balls evitava qualquer ameaça e o Ajax cozinhava muito bem o jogo, com seu estilo de troca de passes e movimentação dinâmica. Como se não bastasse, Groot fez o quinto numa falta cobrada aos 30. Foi apenas aos 44 da segunda etapa que os Reds conseguiram descontar, num tento solitário de Chris Lawler. A missão dos ingleses se tornava praticamente impossível para o reencontro em Anfield, uma semana depois.

Bill Shankly ainda mantinha um grau elevado de arrogância. Dizia que o Ajax fez uma exibição defensiva e se beneficiou da neblina. Prometeu anotar pelo menos sete gols no retorno. A postura de Rinus Michels era bastante distinta. O treinador admitia até um pouco de sorte na goleada de Amsterdã. Ainda assim, mantinha a segurança sobre o desempenho de sua equipe e temia um pouco mais a agressividade dos Reds, caso resolvessem exagerar nas faltas dentro da Inglaterra.

A preocupação em Liverpool não ficou apenas no que aconteceu dentro de campo. Ainda nos primeiros minutos, houve um incidente na famosa The Kop: os torcedores posicionados mais atrás empurraram aqueles mais à frente e quase provocaram uma tragédia. Cerca de 150 pessoas ficaram feridas na confusão e 30 foram hospitalizadas, com parte dos torcedores entrando em campo. Apesar disso, o jogo seguiu em frente. Na primeira etapa, os Reds carimbaram as traves duas vezes, mas não conseguiriam uma reviravolta.

Na volta ao segundo tempo, Cruyff abriu o placar. Roger Hunt até empatou aos dez, mas Cruyff apareceu de novo para recolocar o Ajax em vantagem aos 26. Por fim, restando mais quatro minutos no relógio, Hunt também repetiu a dose e evitou uma derrota do Liverpool. O empate por 2 a 2 frustrava os 53 mil presentes em Anfield, calava Bill Shankly e provava que os 5 a 1 em Amsterdã não eram mera obra do acaso. Os Ajacieden seguiam em frente, começando a construir sua fama europeia. Prova do reconhecimento, Shankly foi ao vestiário dos adversários parabenizá-los pela apresentação e pela classificação.

“O jogo com o Liverpool foi, para mim, um momento importante para ser reconhecido internacionalmente. Não só o primeiro jogo, porque pode ter sido um acidente com as condições do tempo. O desempenho que tivemos em Anfield sob circunstâncias ruins foi importante – nunca vi um ambiente tão agitado. Empatamos em 2 a 2 e nunca realmente tivemos problemas. Para mim, foi a prova de que estávamos no nível internacional”, diria Michels, em entrevista ao livro Brillant Orange.

Já Cruyff apontaria: “Embora eu seja ruim para me lembrar dos jogos, ainda consigo rememorar quase tudo que aconteceu naquela lendária partida da neblina no Estádio Olímpico de Amsterdã e no retorno em Anfield. Confirmamos que éramos tecnicamente superiores e que tudo o que Michels estava implementando funcionava”, escreveu em sua autobiografia, ‘My Turn’. “Fiquei em campo em Anfield arrepiado depois da classificação, por causa da atmosfera. Minha felicidade por avançarmos foi igualada apenas pela impressão que Anfield deixou em mim. A partir de então, o futebol inglês capturou meu coração. Eu nunca tinha visto nada parecido – a paixão pelo jogo e o quanto os torcedores queriam que seu time vencesse”.

O Ajax nem teria vida tão longa na Champions 1966/67. A equipe acabou eliminada na fase seguinte, superada pelo Dukla Praga de Josef Masopust, base da seleção tchecoslovaca. Os Ajacieden dominariam a Eredivisie nos anos seguintes e, depois do vice europeu em 1969, seriam tricampeões da Champions de 1971 a 1973. O Liverpool experimentou em primeira mão o Futebol Total e levaria um tempo até triunfar além das fronteiras, com o troféu da Copa da Uefa chegando apenas em 1973. Ao menos, os Reds viveriam sua própria dinastia continental, depois que Bill Shankly passou o bastão a Bob Paisley.

 

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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