Champions League

A força do Real Madrid esteve em seus virtuosos, que bateram no peito em meio ao desmoronamento

Benzema, Vinícius Júnior e Modric mais uma vez foram importantes num jogo em que o Real Madrid parecia prestes a ser devorado

O Manchester City 4×3 Real Madrid se torna instantaneamente um dos maiores jogos da história recente da Champions League. Os elementos de uma partida lendária estiveram todos em campo no Estádio Etihad. Porém, as análises sobre as equipes se distanciam. O City coletivamente foi superior e criou chances para mais. O Real conseguiu ser bem mais efetivo, o que reduziu o marcador repetidamente. E não há maior mérito dos merengues na noite que a qualidade de seus jogadores. Se o sistema defensivo de Carlo Ancelotti pecou bastante e esteve desprotegido pelo meio-campo, o ataque funcionou na base de seus virtuosos. Karim Benzema, Vinícius Júnior e Luka Modric, mais uma vez, desequilibraram.

O maior lamento ao Real Madrid neste jogo foi não contar com Casemiro. Talvez a presença do volante não fosse suficiente para evitar a derrota, mas certamente os merengues não estariam tão expostos. Sem a melhor forma física, o brasileiro assistiu a tudo do banco de reservas. Viu seus companheiros de zaga serem envolvidos pelas construções do Manchester City. Saíram quatro gols, mas poderiam ter saído muitos mais com precisão na hora de finalizar. O plano de jogo dos celestes e o entendimento de suas engrenagens foram ótimos para explorar as fragilidades madridistas.

O Real Madrid, no entanto, não se deu por vencido na Inglaterra. Muitos times entrariam em espiral pela forma como o jogo se desenvolvia. O mental é uma fortaleza dessa equipe de Carlo Ancelotti, como foi provado tantas vezes nessa campanha pela Champions. Os merengues não sucumbiram diante do que não dava certo, mesmo que seu treinador não tenha encontrado uma solução para o problema, demorando demais para mexer. A equipe partiu para a trocação e confiou na qualidade de seus protagonistas para manter o páreo contra o City. Deu certo, como também foi nos encontros anteriores dos mata-matas.

Benzema não precisa de mais elogios. É, hoje, franco candidato a conquistar a Bola de Ouro. Seu poder de decisão não se esgota e a maneira como chama a responsabilidade é ainda mais importante. O centroavante sabe que está em estado de graça e quer aproveitar ao máximo essa fase. Mais uma vez, ele preponderou. O primeiro gol, talvez o mais importante por aquilo que se via em campo, para esfriar o City, teve participação plena do artilheiro. Limpou o lance pelo meio e, na hora do cruzamento, pediu onde queria. Não era das bolas mais fáceis de domar, mas seu movimento bruto mandou onde ela deveria estar, nas redes. Depois, muita sutileza para cobrar um pênalti de cavadinha, depois de dois perdidos no mesmo jogo contra o Osasuna. Confiança no próprio taco é tudo.

Vinícius Júnior também resgatou o Real Madrid com o segundo gol. E aí foi importante a maneira como ele mesmo se reergueu. Da bola perdida no terceiro tento do City, diante de Fernandinho, o ponta tirou coelho da cartola no próximo embate com o veterano. O corta-luz que virou caneta é coisa de quem antevê a jogada. A cara de Fernandinho ao perceber que estava batido diz muito. O garoto abriu o caminho e também contou com o espaço deixado pela falta de cobertura dos adversários. Na aceleração, ninguém o pegaria mesmo. Dosou a desaceleração para fazer o simples diante de Ederson. Nem foi a partida em que Vini tomou as melhores decisões, em alguns lances nos quais prendeu demais a bola consigo. Mas isso também era uma mostra de que ele sabia que poderia agir. Foi um perigo constante. O jogo pendeu mais à esquerda, já que Rodrygo pouco conseguiu ajudar na direita.

Modric não foi impecável como em outras noites nessa Champions. O meio-campo era um latifúndio e o veterano sozinho não daria conta mesmo, até porque Toni Kroos e Federico Valverde estavam mal. Contudo, o croata é daqueles caras que precisam de um lance ou outro para transformar a partida. Foi assim no primeiro gol, quando seu carrinho na intermediária ofensiva é que permitiu a assistência de Ferland Mendy. Depois, muitas vezes, quando precisou clarear com a bola nos pés, fazia isso em sua característica destreza, com dribles em espaço reduzido. Achava brechas num jogo que não era simples, mas que na sua batuta sempre pode entrar no ritmo do maestro.

A temporada do Real Madrid não é nada linear. Os merengues tiveram algumas derrotas muito duras, vide o que tinha acontecido no recente clássico contra o Barcelona. Esse jogo contra o Manchester City poderia terminar de forma igualmente arrasadora. O que diferencia mesmo os merengues é a maneira como o nível individual de muitos jogadores compensa as deficiências e o desencaixe. Não foi o caso dessa vez, entre o austríaco sem as melhores condições e o brasileiro errando muito, mas mesmo o desempenho individual de David Alaba e Éder Militão já compensou várias vezes a falta de equilíbrio que ocorre. Mais à frente, sempre tem quem resolva.

O placar apertado no Estádio Etihad não é a garantia de que o Real Madrid vai se impor no Santiago Bernabéu. A mística do estádio é muito importante, assim como o peso do clube na Champions, mas há acertos que demandam mais cuidados na preparação. O Manchester City teve um plano tático mais inteligente nesta partida de ida e por isso dominou. Os merengues, no entanto, sabem que se nada der certo, eles ainda contarão com jogadores capazes de levar o time mais longe. Foi exatamente o que aconteceu. Há uma pitada de sorte pela forma como os madridistas se safaram atrás, mas o que deu certo na frente é puro talento e competência. É um time muito duro de se enfrentar, porque mesmo o City não conta com essa quantidade de caras capazes de bater no peito e pedir a bola em meio ao desmoronamento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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