Champions League

A classificação suada do Lyon terminou em uma grande confusão entre jogadores e os próprios torcedores

O Lyon conquistou uma classificação que até parecia improvável na Champions League e deveria comemorar bastante. Os Gones permitiram que o RB Leipzig abrisse dois gols de vantagem dentro do Estádio Groupama e conseguiram arrancar o empate por 2 a 2 na etapa final – suficiente à segunda colocação do Grupo G, graças à derrota do Zenit na visita ao Benfica. No entanto, a celebração terminou interrompida por uma enorme confusão já depois do apito final. Jogadores e torcedores entraram em conflito à beira do gramado, diante das críticas pesadas ao zagueiro Marcelo.

Ao longo dos últimos meses, Marcelo se tornou um dos alvos favoritos dos ultras do Lyon, mesmo aparecendo mais no banco de reservas do que em campo. O estopim aconteceu após a derrota fora de casa para o Benfica, nesta Champions, em outubro. Os ultras resolveram insultar os jogadores dos Gones no aeroporto e Marcelo os enfrentou. A partir de então, o brasileiro sofreu ataques sistemáticos e pedidos para que saísse do clube.

No início de novembro, durante a visita ao Toulouse, os torcedores do Lyon presentes no estádio passaram a atirar objetos contra Marcelo durante o aquecimento. A mesma irritação se notou no reencontro com o Benfica, dentro da França. Independentemente da vitória, os ultras entoaram cânticos contra o defensor e levaram faixas provocativas. Já no início de dezembro, a última aparição do veterano no Estádio Groupama não o ajudou. Ele falhou justamente no lance que garantiu a vitória do Lille por 1 a 0.

Nesta terça, o imbróglio se tornou maior. Marcelo entrou em campo para os cinco minutos finais contra o RB Leipzig, o suficiente para ser vaiado. Após o término da partida, os jogadores caminharam primeiro ao setor sul do estádio para agradecer o apoio dos torcedores. O ato, ordenado pelo próprio técnico Rudi Garcia, quebrava o protocolo de aplaudir primeiro o setor norte – onde ficam os ultras. Os uniformizados não gostaram e viraram as costas ao time, que seguiu para lá já contrariado, também puxado pelo treinador. Pior seria a atitude de um rapaz que invadiu o gramado e trazia consigo um cartaz contra Marcelo. Nele, o zagueiro era representado como um burro, com um pedido por sua saída.

Marcelo, obviamente, se revoltou e passou a responder os insultos com gestos obscenos. Mas não só ele ficou possesso. Capitão do Lyon, Memphis Depay saiu em disparada do círculo central até o tal torcedor. O holandês tomou a frente na briga e tentou tirar o cartaz do invasor. Os seguranças do estádio precisaram intervir para evitar algo maior, quando mais torcedores invadiam o campo, enquanto outros jogadores se dirigiram ao local. Ao final, o entrevero terminou apaziguado. Anthony Lopes e Houssem Aouar tentaram conversar com os ultras e Rudi Garcia acompanhou Depay até os vestiários.

Na zona mista, o capitão seguiu furioso: “Olhe para mim: o que você vê? Estou com raiva, estou nervoso, não sei o que dizer. Não fizemos nosso melhor jogo, mas estamos classificados. Entramos em campo, jogamos com o coração e estamos classificados. É difícil jogar quando alguns de nossos jogadores têm problemas com os torcedores. O que eles querem? Que a gente vá agradecer o apoio quando falam coisas malucas sobre nossas famílias, nossos filhos? Não faz sentido jogar em um estádio cheio se, depois de um bom resultado, não pudermos agradecer ao público. Queremos nos aproximar dos nossos torcedores, mas eles não desejam o mesmo”.

“Os líderes precisam assumir as responsabilidades. Você se classifica às oitavas e sai de campo nessas condições? Há algo errado nisso. Corri atrás do torcedor para dizer que ele guardasse a bandeira. Quem tem tempo para desenhar um burro numa bandeira? Se você tem tempo para isso, faça perguntas a si mesmo. Se você vem ao estádio, deve nos apoiar. Mas eles cospem em nós, cospem em nós! Nunca vi isso. Estamos orgulhosos pela classificação. Somos unidos, somos fortes”, complementou o capitão.

Já Rudi Garcia manteve a razão de Depay. Elogiou a postura do atacante e indicou que o clube não pode aceitar tais ataques: “Depay foi um verdadeiro capitão. Ele agiu e falou como um capitão, o que mostra toda a solidariedade e o caráter desse grupo. Reagir contra uma equipe contra o RB Leipzig é verdadeiramente uma grande atuação e não vai ser o que aconteceu depois que vai arruinar a nossa classificação”.

Outros jogadores, como Joachim Andersen e Anthony Lopes, expressaram que não tinham motivos para se alegrar. E o presidente Jean-Michel Aulas prometeu sanções ao invasor: “Memphis foi enorme, estava certo em reagir assim. Sairá maior e os outros o seguirão. Ele é o capitão e assumiu suas responsabilidades. Nem sempre tivemos pessoas que assumiram as responsabilidades conosco. Memphis nos classificou e defendeu seus homens. A pessoa com a bandeira não tem nada a fazer em um estádio. Temos os vídeos, o torcedor será sancionado e não queremos aqui as pessoas que insultam. Além do mais, esse tipo de manifestação não tem desculpas. Propus me encontrar com o torcedor e procurar uma solução com esses grupos”.

Em uma temporada conturbada ao Lyon, a classificação às oitavas de final da Champions surge como um alento. Na Ligue 1, o time não corre mais riscos de rebaixamento e, apesar das oscilações, está a três pontos do G-3. Pode se recuperar plenamente. E, diante da postura dos jogadores, é fundamental que a diretoria os respalde nestes conflitos. Apesar do direito ao protesto, os ultras perdem a razão com este grau de perseguição e agressividade.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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