Champions League

A Champions ganhou um duelo para se lembrar para sempre com o espetacular Bayern 4×2 Juve

A Liga dos Campeões costuma ser pródiga em grandes jogos. Olhando para trás, não é difícil pensar em duelos memoráveis nos últimos mata-matas. Ainda assim, é difícil encontrar um confronto tão espetacular quanto o que Bayern de Munique e Juventus fizeram nestas oitavas de final. Foram duas partidas alucinantes. Turim já tinha recebido 90 minutos intensos, da aula de ofensividade dos bávaros no primeiro tempo à vontade dos bianconeri pelo empate no segundo. Já nesta quarta, a Allianz Arena ganhou mais 120 minutos de futebol disputado em seu ápice. A Juve teve a classificação nas mãos, abrindo dois tentos de vantagem. Mas o Bayern não desistiu. Insistiu no empate até arrancá-lo nos acréscimos do segundo tempo. E arrebatou a classificação para as quartas de final na prorrogação, com a vitória por 4 a 2.

A riqueza do confronto esteve, principalmente, no embate de estilos entre as equipes de Massimiliano Allegri e Pep Guardiola. Os juventinos eram suor e sangue desde o início, mas se esgotaram antes do tempo. Já os bávaros, mesmo errando mais do que o costume, mantiveram os nervos no lugar. Por mais que se exalte a atuação fabulosa da Juve, espanta também a qualidade do Bayern, que nem viveu a sua melhor noite, mas cresceu no momento certo. Isso sem contar as grandes apresentações individuais. Difícil ficar em apenas um nome. Se o brilhantismo de Pogba, Morata e Cuadrado mereceu muitos aplausos de um lado, o senso de decisão valeu muito a Thomas Müller, Coman e Vidal do outro.

Allegri assimilou perfeitamente as lições dadas por Guardiola no primeiro tempo em Turim. E, apesar dos muitos desfalques, moldou o seu time para surpreender o Bayern nos primeiros 45 minutos em Munique. A marcação adiantada, dificultava bastante a saída dos bávaros para o jogo. Pior, forçava o erro do time da casa. Uma estratégia que acabou sendo fundamental para dar a vantagem logo aos cinco minutos.

O mérito inicial da Juve, contudo, também dependeu de um enorme demérito do Bayern. Após passe de Bonucci para Lichtsteiner, Alaba errou o domínio e Neuer saiu estabanado do gol. A bola sobrou limpa para Pogba, com a meta vazia. O camisa 10 não perdoou. A vantagem dava ainda mais tranquilidade para a Velha Senhora fazer o seu jogo, demonstrando enorme solidez defensiva. Mais do que não deixar o Bayern finalizar, os italianos sequer permitiam aos anfitriões se aproximarem de sua área, com a muralha de meio-campistas antecipando a pressão defensiva no campo de ataque. Além disso, Pogba e Cuadrado bloqueavam muito bem o jogo pelas pontas, tanto explorado por Guardiola em Turim.

Outro acerto de Allegri foi a opção por Álvaro Morata no comando de ataque, ao invés de Mandzukic. E o espanhol teve papel decisivo para puxar os contragolpes. O centroavante até chegou a balançar as redes, aos 22, aproveitando erro de Neuer na saída de bola. Porém, o assistente salvou a pele do camisa 1 marcando um impedimento inexistente. Ainda assim, não fez falta naquele momento. A partir do talento de Morata, a vantagem se ampliou aos 28. Depois de uma roubada de bola na entrada da área, o camisa 9 arrancou. Correu mais do que Alaba e deu um drible da vaca em Kimmich, antes de passar para Cuadrado. Já o colombiano demonstrou uma frieza imensa para definir, deixando Lahm no chão antes de vencer Neuer. A Juve repetia, em Munique, o que havia sofrido durante o primeiro tempo em Turim.

Do outro lado, diante da entrega tática da Juventus, o Bayern era nulo ofensivamente. Lewandowski era encaixotado pela defesa, enquanto o máximo espaço que se criava era para os chutes de média distância. Enfim, os bávaros conseguiram criar perigo aos 42. Thomas Müller conseguiu encontrar um espaço na área e arrematou, mas parou em defesa de Buffon. Já na sobra, a Velha Senhora ainda deu sorte no corte parcial, quando a bola carimbou a barriga de Lewandowski e seguiu para fora. Dois minutos depois, a resposta veio em mais um contra-ataque veloz. Neuer fez milagre para evitar o segundo de Cuadrado.

Durante o início da segunda etapa, a Juventus até parecia mais inteira para fazer o terceiro. Morata estava isolado na frente, e aproveitando muito bem as bolas longas vindo da defesa. Por três vezes, teve a chance de arrematar, mas as tentativas não foram das melhores. Ao lado do espanhol, outro que gastava a bola era Pogba. O meio-campista fazia o papel de “todo-campista”, onipresente nas ações ofensivas e defensivas. A entrega do camisa 10 na marcação era digna de aplausos, se esforçando até o fim e se jogando a cada bola.

O trabalho coletivo da Juventus se evidenciou em uma cobrança de escanteio que permitiu o contra-ataque dos alemães. Como uma manada, oito jogadores da equipe italiana conseguiram voltar para a área e abafar a jogada. Só que o cansaço começou a pesar sobre as pernas a partir dos 15 minutos da segunda etapa. Justamente quando Guardiola revigorou o seu ataque, trocando Xabi Alonso por Coman. Uma mudança que se mostraria decisiva. Mesmo sem demonstrar tanta criatividade, o Bayern passou a pressionar intensamente. Diante da solidez da Velha Senhora, o caminho passou a ser pelo alto. Os bávaros começaram a cruzar à exaustão. Além disso, também começavam a encontrar mais liberdade nas pontas.

Douglas Costa, em si, demonstrou um protagonismo impressionante. O Bayern parecia orbitar em torno do camisa 11, sempre com a bola. E quase sempre levantando a bola na área. Aos 28, deu resultado. Lewandowski passou pelas costas de Bonucci e, enfim em sua primeira finalização na noite, conseguiu vencer Buffon. O tento motivava os bávaros, enquanto os bianconeri precisaram trocar Khedira e Morata por Sturaro e Mandzukic. Com o croata, ganhavam presença de área contra a baixa zaga adversária, mas perdiam a capacidade nos ataques rápidos.

Se faltava um Robben para definir sozinho, a insistência do Bayern garantiu o empate no primeiro minuto dos acréscimos. E aproveitando um erro da Juventus. Vidal roubou a bola de Evra e lançou Coman na ponta direita. O francês cruzou no segundo poste, onde Thomas Müller se posicionava perfeitamente para arrematar – relembrando bastante o tento que anotou contra o Chelsea, na final da Champions de 2012. O jogo seguiria para a prorrogação, repetindo a alternância de gols da ida, embora em um roteiro totalmente diferente. Por mais que a Juve tivesse a vantagem do gol qualificado, avançando se fizesse um e tomasse um, o Bayern permanecia mais inteiro no jogo. Fez diferença.

O tempo extra perdeu ritmo. Seguia às ordens da posse de bola do Bayern, que não conseguiu levar perigo nos primeiros 15 minutos. Mas matou o duelo na metade final. Thiago Alcântara saiu do banco, no lugar de Ribéry, para ser o salvador. O meio-campista aproveitou uma sobra de bola na entrada da área para tabelar com Thomas Müller e arrematar. No desespero, a Juventus se mandou para o ataque. Permitiu que Coman sacramentasse o resultado, em grande jogada individual após lançamento de Vidal. No fim, houve tempo para Neuer realizar mais uma boa defesa, antes de Sturaro isolar a chance dos italianos voltarem para o confronto nos cinco últimos minutos.

Apesar do gosto amargo, a Juventus sai engrandecida do confronto. Pela maneira como ignorou os desfalques. Pela maneira como lutou. Pela maneira como peitou um timaço como o do Bayern. Que, por sua vez, também ganha força psicológica para a sequência da Champions. A maneira como matou os bianconeri impressiona e evidencia o poder de decisão dos alemães, embora tenham deixado a desejar. Se o time de Guardiola é tão bom, também é por causa da capacidade individual quando o coletivo não funciona tão bem. Graças a isso, seguem vivos e, mais do que isso, como fortes candidatos à taça.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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