Champions League
Tendência

A bola só queria Haaland, incomparavelmente letal numa noite de recorde da Champions e também participação além dos gols

Haaland teve sua noite mais avassaladora por clubes, com cinco gols que igualaram o máximo num jogo de Champions - e o recorde poderia ter sido demolido, não fosse Guardiola

As discussões ao redor de Erling Braut Haaland se tornaram bastante enfadonhas nas últimas semanas. Os debates se concentram sobre o encaixe do centroavante no Manchester City, na Premier League, no tipo de futebol que Pep Guardiola pratica. Há, evidentemente, uma dissonância. É exagero falar em incompatibilidade do atacante que não de cansa de marcar gols. É verdade que a sensação inicial ao redor do norueguês não se manteve e as cobranças se tornaram até exacerbadas, como se ele tivesse obrigação de balançar as redes a cada finalização ou de se transformar, num estalo, no jogador que não é. Bem, nesta terça de Champions, Haaland foi tudo o que queriam: converteu praticamente todos os seus arremates e participou bem além dos tentos. Teve uma noite perfeita, assustadora, com cinco gols nos 7 a 0 sobre o RB Leipzig e o recorde igualado em uma partida de Champions.

Pedir algo a mais para Haaland soa como um descolamento da realidade. O atacante não vive uma fase tão prolífica quanto a do começo da temporada. Mas isso parece desconsiderar vários fatores. É um jogador de 22 anos, cujo rumo natural seria a oscilação, não a assiduidade surreal que possui diante das redes. Também é um atleta com um histórico razoável de lesões nos últimos anos, que chega num momento mais desgastante da temporada. E há uma questão de se encontrar num Manchester City que se acostumou a atuar com outro tipo de centroavante e que, além disso, também não exibe seu futebol mais exuberante dos últimos anos. Existem mais explicações para essa estagnação recente do que necessariamente motivos para pesar a mão na crítica.

Dito isso, de fato Haaland impressionou menos nas últimas semanas. Suas apresentações recentes não foram exatamente as melhores da temporada. O centroavante, por exemplo, fez uma partida apagada contra o Leipzig dentro da Alemanha. Os compromissos na Premier League também não mais enchiam os olhos, mesmo que o norueguês continuasse sobrando na artilharia. Durante o final de semana, por exemplo, Haaland perdeu algumas chances bastante claras diante do Crystal Palace. Em compensação, apareceu no momento mais importante ao converter o pênalti que valeu a vitória por 1 a 0. A comemoração foi bastante emblemática, com todos os companheiros correndo para abraçá-lo. Era um reconhecimento não só ao peso que aquele triunfo poderia ter na perseguição ao Arsenal, mas também um sinal de confiança do jogadores sobre o potencial do matador.

E um atacante com a confiança no talo pode fazer a diferença, vide o que aconteceu nesta terça, no Estádio Etihad. Haaland já mostrou algumas vezes que pode virar a chavinha, que pode se transformar numa máquina, que pode elevar seu nível de concentração. Foi o que se notou da maneira mais escancarada contra o Leipzig. Nem foi uma noite tão brilhante do centroavante em termos de classe dos lances. Também não precisou ter o campo para acelerar, como seus tentos saíam nos melhores momentos pelo Borussia Dortmund. Entretanto, ele estava incomparavelmente letal. Aparecia sempre no lugar certo, sempre à espreita de marcar os tentos. Foram quatro em rebotes e um de pênalti. O norueguês representou o pior pesadelo dos alemães.

O primeiro gol é o mais contestável, com um pênalti que não deveria ter sido marcado. Haaland não tinha nada a ver com isso e mandou para dentro. Já o segundo gol é o mais importante, em termos de participação e também de impacto sobre os rumos da partida. Com o Leipzig grogue, o City nocauteou os adversários ao balançar as redes tão rapidamente. Haaland fez de tudo no lance. Primeiro pressionou o erro dos adversários. Depois, apareceu como pivô para ajeitar a bola. Ainda abriu espaços na marcação, ao chute de Kevin de Bruyne. E logo se projetou na área para conferir a sobra da bola no travessão. A partir disso, foi só arreganhar os dentes e mostrar o sorriso.

O terceiro gol surgiu num rebote em cima da linha, que Haaland bloqueou e não tinha como perder a chance. Já no segundo tempo, mais duas sobras contaram com o centroavante faminto por balançar as redes. Parecia capaz de passar por cima de qualquer um, companheiros ou adversários, para chegar antes na bola e desferir seu golpe fatal. A bola também só queria ser acariciada por ele. Foram oito finalizações de Haaland, cinco delas nas redes. E as três que não entraram ainda exigiram algumas das defesas mais difíceis do goleiro Janis Blaswich na noite. Desta vez, o norueguês não vacilou por um instante sequer.

E um sinal tão animador quanto a mão cheia de Haaland foi sua participação constante. O centroavante algumas vezes voltou para construir os lances mais atrás e, então, partia em velocidade rumo ao ataque. Incomodava a marcação com suas arrancadas e até chegou a quebrar as linhas com a bola. Também dava bons passes. Algo que aconteceu no tento de Ilkay Gündogan, o único que o norueguês não fez. Ele primeiro recua para auxiliar com um passe, depois avança e se movimenta, o que desencaixa a marcação do Leipzig. Méritos também do meio-campista, para aproveitar os espaços e bater rasteiro.

O único pesar seria mesmo ao redor de Pep Guardiola. O treinador resolveu poupar Haaland e sacá-lo aos 18 minutos do segundo tempo. O próprio centroavante deu uma risada amistosa ao comandante e, depois da partida, confessou que pediu para ficar. O técnico podia ter visto o suficiente, mas quem assistia à partida queria mais. Afinal, com os cinco gols, o jovem igualou Lionel Messi e Luiz Adriano como os jogadores que mais vezes balançaram as redes numa única partida de Champions. O sexto parecia bem possível, no que estabeleceria também o recorde geral do torneio desde 1956. Outros dez jogadores assinalaram cinco gols num jogo do torneio continental contando seu “formato antigo”, incluindo lendas como Gerd Müller e José Altafini “Mazzola”, mas nem eles alcançaram os seis. Para quem chegou a fazer nove no Mundial Sub-20, atingir os seis ou mesmo os sete não parecia problema com mais meia hora no relógio ao norueguês.

Se o recorde da Champions não é isolado, pelo menos Haaland tem a marca histórica compartilhada com outros. E o atacante parece cada vez mais disposto a demolir números. Neste momento, ele contabiliza 33 gols no total pela Champions, 23° maior artilheiro da história da competição, só um tento atrás de Gerd Müller e a três de Ferenc Puskás. Só na atual edição, são dez gols, ultrapassando Mohamed Salah e ambicionando a artilharia. Tudo conspira a favor de Haaland. Principalmente, sua incessante sede de gols, tão bem evidenciada nessa noite demolidora.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo