Campeões sem moral

Quatro a zero, cinco a um. A primeira terça-feira da Liga dos Campeões 2010/11 não começou nada bem para os campeões gregos e turcos. Bursaspor e Panathinaikos foram os sacos de pancada da rodada, tomando surras violentas de Valencia e Barcelona, respectivamente. Não fosse o feito heróico do Aris na Liga Europa, além da vitória do AEK na mesma competição, os clubes da região poderiam dar por perdida a primeira semana nas competições continentais.
Os derrotados pelo Aris, coincidência ou não, também foram campeões na temporada passada. Atual detentor do título da Liga Europa, além de ter batido a Internazionale na Supercopa Europeia, o Atlético de Madrid perdeu por 1 a 0. Ótimo início para o Aris que, depois de vencer os favoritos da chave, começa a sentir as possibilidades de classificação.
Javito foi o símbolo da vitória, autor do único gol do jogo. No entanto, amplos méritos também para o tarimbado Héctor Cúper, treinador dos gregos. Armado em um 4-2-3-1, com Carlos Ruiz encravado na área adversária, o time foi perigoso o suficiente nas rápidas subidas de Koke e Javito ao ataque.
Melhor postado ainda estava o setor defensivo. Suficientemente protegido por Faty e Prittas no meio, impedia quaisquer progressões centrais. E com o apoio dos próprios Koke e Javito na marcação das laterais, ainda conseguia neutralizar os lances mais perigosos dos Colchoneros. Outro ponto de destaque foi o preparo físico de todos os titulares. Com um banco de reservas limitado, contando com apenas cinco jogadores quando o número máximo poderia ser de sete, a única substituição aconteceu depois de 92 minutos de bola rolando. Tal limitação no elenco, todavia, pode atrapalhar Cúper quando o ritmo da temporada for mais intenso.
Em lance de velocidade é que o gol dos tessalonicenses saiu. Ruiz ajeitou e Javito, depois de matar no peito, acertou o canto, de fora da área. Com o dobro de chutes ao gol ao longo do encontro, o Aris ainda pôde desperdiçar duas chances excelentes para ficar com a vitória. Em uma delas, Koke acertou a trave e, com o goleiro caído, Ruiz carimbou um defensor adversário. Na outra, De Gea fez milagre em chute à queima roupa de Koke.
A vitória ajuda a evidenciar também a marca expressiva do Aris em competições europeias. Há 23 partidas, seja pela Recopa ou Copa da Uefa, que o time não é batido em casa. São 12 vitórias e 11 empates, sendo que a última derrota aconteceu em 1969, contra os húngaros do Újpest. Prova de que o time protegido pelo Deus da Guerra não costuma perder batalhas em seu próprio terreno.
Outro vencedor da rodada, o AEK parece se encontrar aos poucos, pesar de uma preparação nebulosa para esta temporada. Favoritos na partida ante o Hajduk Split, os Dikefalos não encontraram dificuldades para abrir o placar com Djebbour, que avançou pela lateral e fuzilou logo aos 12 minutos. Contudo, em um pênalti muitíssimo reclamado pelos donos da casa, os croatas empataram. Com cavadinha e tudo, Ibricic fez aos 29.
Trabalhando bem as incursões pelos lados do campo, o AEK permanecia mais agudo. Em outra decisão contestável da arbitragem, novo pênalti, desta vez para os Dikefalos. Djebbour, porém, desperdiçou. Mas os gols da vitória não tardariam. Primeiro com Liberopoulos, aos 20, e depois com Scocco, aos 44, os gregos pegaram a defesa adversária desprevenida. A questão é que, em ambas as jogadas, os marcadores estavam em posição irregular.
Ajudados ou atrapalhados pela arbitragem, os atenienses lideram o grupo G, ao lado do Zenit. O jogo contra o Hajduk Split, contudo, deverá ser o menos complicado da tabela dos Dikefalos. Contra Zenit e Anderlecht, o treinador Dusan Bajevic precisará melhorar a organização do time. Apesar de arriscar-se bastante ao ataque, o AEK deu brechas para que os croatas também arriscassem bastante ao gol. Em uma noite infeliz do goleiro Giannis Arabatzis, o resultado poderá não ser dos melhores.
Na Liga dos Campeões, a derrota do Panathinaikos era praticamente contada, mas esperava-se que o time fizesse um pouco de frente ao Barcelona em pleno Camp Nou. Exceção feita ao gol, os Trifilis mal incomodaram a meta defendida por Valdés. Enquanto isso, na defesa, se desencontravam e deixavam brechas para que os catalães apresentassem o ápice de seu futebol.
O próprio gol do PAO foi uma cartada de sorte. Depois de segurar a pressão contínua do Barça nos primeiros minutos de jogo, o tento só saiu em um contra-ataque velocíssimo, exatamente no primeiro e único chute ao gol dado pelos gregos durante toda a partida. Com os blaugranas se recompondo após um ataque, Tzorvas mandou a pelota para frente e Cissé, com um belo toque de calcanhar, desmontou a defesa. Foi a brecha necessária para que Govou ganhasse na velocidade e abrisse o marcador de forma surpreendente.
Além deste lance, o Panathinaikos foi inoperante. O meio-de-campo não conseguia manter a posse de bola e Cissé mal tocou na bola durante toda a partida. Nem mesmo Katsouranis ou Leto, de quem se espera um pouco mais de criatividade, apareceram. Se é possível apontar algum destaque, este fica mesmo para Tzorvas, que iniciou a jogada do gol e ainda evitou uma tragédia ainda maior. Mesmo mal posicionado no quinto gol, o arqueiro fez ao menos três defesas complicadas.
Show de Messi à parte, a defesa parecia conivente com a derrota. Passível na maioria dos lances de ataque e pouquíssimo compacta, contribuiu bastante para o passeio culé. Os zagueiros centrais Cédric Kanté e Jean-Alain Boumsong demonstraram-se anos-luz longe do entrosamento ideal. Kanté, especificamente, foi espectador de luxo em três gols, preferindo assistir aos dribles de seus adversários a tentar o bote.
Já o Bursaspor, mesmo pouco cotado pela falta de expressividade no cenário internacional, também deu vexame. O jogo era em casa e o estádio Ataturk estava cheio. Apesar disso, os Yesil Timsah foram impotentes diante do Valencia e precisam tirar o prejuízo nas próximas rodadas. Agora é arrancar pontos preciosos contra o Rangers fora de casa para não sucumbir já nas primeiras rodadas.
Após início de partida equilibrado, os turcos se desestabilizaram após o primeiro gol dos Che, marcado aos 15 minutos do primeiro tempo. Os defensores alviverdes, aliás, mostraram-se nervosos durante a partida. Um lance que exemplifica bem isto é o terceiro gol do Valencia, no qual a sequência de erros conta com Erdogan e Stepanov batendo cabeças, além de Ivan Ergic furando o chute. Até mesmo o ídolo Dimitar Ivankov, que segurou a barra em muitas partidas durante o título da Super Lig, estava inseguro, surpreendido no primeiro gol dos visitantes.
Do meio para frente, o time não manteve o controle da bola e pecou na hora de finalizar as poucas oportunidades de balançar as redes. Um dos fatores que explicam parte destas deficiências é a opção questionável de Ertugrul Saglam para o ataque de seu time. O treinador tem deixado o prodígio Sercan Yildrim, um dos destaques da última temporada, no banco de reservas. Apesar de mais jovem, Yildrim parece mais preparado que o titular no início da partida, o recém-chegado Leonel Nuñez. A melhor chance de gol dos Yesil Timsah, inclusive, foi criada pelo atacante de 20 anos.
No jogo restante dos times da região nas competições continentais, o PAOK ficou no 1 a 1 contra o Club Brugge na Liga Europa. Em confronto aberto e com chances iguais para ambas as equipes, os gols só saíram no segundo tempo. Aos 16 minutos, Kouemaha aproveitou contra-ataque e só completou para as redes, anotando o primeiro para os donos da casa. O empate do PAOK veio aos 33. Stelios Malezas resvalou de cabeça escanteio cobrado da direita para marcar.



