Anorthosis: Ascensão e queda

Pode um clube desacreditado que chega à fase de grupos da Uefa Champions League e faz um belo papel –mesmo desclassificado- estar em crise? Pode. É o que acontece com o Anorthosis Famagusta neste momento. Mesmo depois da incrível trajetória realizada pelo clube cipriota neste segundo semestre, os atuais campeões cipriotas estão no olho de um furacão que promete deixar cicatrizes no clube de Famagusta.
A crise não é relativa à fase técnica do clube. Pelo contrário. Se na Marfin Laiki League, a liga cipriota, o Anorthosis não repete a mesma campanha da temporada, tendo sofrido duas derrotas -enquanto na temporada anterior os alvi-azuis terminaram invictos, por exemplo. Mas ainda assim, o clube lidera a primeira fase da Alpha Ethiniki com tranquilidade.
Mas o que faz a diferença, dentro de campo, nesta temporada é a inédita participação do campeão cipriota na fase de grupos da Champions. No momento em que a edição da UCL começou –em meados de Julho-, ninguém esperava que o time cipriota quase se classificaria para o mata-mata da competição. Mesmo os mais torcedores mais fanáticos diriam que uma classificação para a terceira fase de classificação da Champions já seria um lucro absurdo. Se alguém tivesse a audácia de prever tal absurdo, naquele momento, poderia ter a sua sanidade mental questionada. Pois bem. Eis que isso quase se tornou realidade, numa história no melhor estilo Cinderela.
Tradicional saco de pancadas das fases anteriores da UCL, o Anorthosis Famagusta, de forma heróica, chegou à fase de grupos da Champions, passando por Pyunik Yerevan-ARM, Rapid Viena-AUT e Olympiacos-GRE. E, além de se tornarem os primeiros cipriotas a chegarem tão longe numa competição européia, os campeões cipriotas se tornaram um dos primeiros clubes sobreviventes da primeira fase eliminatória a chegar a disputar a fase de grupos da principal competição continental interclubes do mundo, juntamente com o BATE Borisov-BIE. Com isso, tornava realidade um sonho que parecia distante para a sua sofrida torcida.
Como não poderia deixar de ser, o clube exilado em Nicósia iniciava a competição propriamente dita como o grande azarão do Grupo B, e um dos principais candidatos à pior campanha da fase de grupos. Pelo menos, imaginavam os seus torcedores, teriam a oportunidade de acompanhar Inter de Milão e Werder Bremen em território cipriota, jogando contra a sua equipe. Uma oportunidade única.
Toda a história vivenciada até o momento já garantiria aos integrantes do elenco do Anorthosis uma vaga na galeria histórica da história do clube. Mas não era tudo. Eis que a história ainda ganharia contornos de fábula dos mais incríveis no decorrer da fase de grupos. A história do Anorthosis na fase de grupos começou com um ótimo empate sem gols em Bremen, garantindo ao Anorthosis um resultado positivo fora de casa contra um dos adversários mais temidos do grupo. E ficou melhor quando a Velha Senhora, em Nicósia, venceu o Panathinaikos por 3 a 1. No difícil confronto com a Internazionale –em que, teoricamente, perder pontos não era assim nenhum absurdo-, os cipriotas dificultaram a vida dos neroazzurri em Milão (perdendo pela contagem mínima), enquanto, em Nicósia, conseguiram arrancar um empate em três gols.
A classificação dos cipriotas para a fase seguinte parecia ser apenas questão de tempo. E a situação ficou ainda melhor quando, na quinta rodada, em casa, o clube de Famagusta abriu dois gols de vantagem sobre o Werder Bremen –enquanto a Inter ia roubando mais dois pontos do Panathinaikos em Milão. Aos 17 do segundo tempo Nicos Nikolaou abriu o placar, e logo aos 23, Sávio ampliou.
Se estes resultados se mantivessem até o final da rodada, os cipriotas estariam praticamente classificados no grupo. Afinal, somariam oito pontos contra cinco do Panathinaikos –que seria o seu perseguidor mais próximo.
Porém, a partir deste momento, como que num encanto, a carruagem voltou a ser uma abóbora para os cipriotas, Tudo passou a dar errado. Instantes depois do gol de Sávio, o Panathinaikos abriu o placar em Milão, com Josu Sarriegi. E mais alguns minutos depois, Nikolaou veio do céu para o inferno ao cometer um pênalti sobre Aaron Hunt –que Diego assinalou e trouxe os alemães de volta para a briga. Hugo Almeida, no finalzinho, decretou o empate que deixava o Anorthosis em situação difícil na última rodada.
Dois dias depois do primeiro baque, a grande bomba, numa notícia um tanto mal explicada. O que se sabe, com certeza, é que o Presidente do clube, Andreas Pantelis, foi preso pela polícia cipriota por seis dias. A acusação era grave. Desvio de dinheiro do clube e fraude. Cerca de um milhão de euros teriam desaparecido do caixa do clube nos últimos meses.
Isto foi o suficiente para gerar uma grave crise institucional no Anorthosis. Com isso, o noticiário positivo sobre a campanha dos sonhos praticamente desapareceu do mapa. Além da saída do Presidente, que renunciou ao cargo assim que deixou a prisão, outros três conselheiros do clube (de 14) também deixaram o clube.
A direção do clube está dividida. A Pantelis é creditada a sobrevivência e o renascimento do clube. Endividado, o clube estava próximo da falência. Há cinco anos no comando do clube, o empresário conseguiu reverter a situação e fez do Anorthosis uma grande potência local. Porém, as acusações são graves, o que causa um grande desconforto para os envolvidos. Para piorar a situação, um dos patrocinadores do clube rescindiu o contrato nesta semana.
Tudo indica que a crise interfere dentro de campo. Uma amostra do estado de nervos da equipe é o técnico georgiano Temuri Ketsbaia, que brigou com a imprensa após ser perguntado sobre a saída dos patrocinadores. E, obviamente, influiu também na desclassificação do time da Champions League, quando o clube não conseguiu se apresentar na melhor de sua forma em Atenas.
Mas o pior, para os cipriotas, não será acabar assim uma das epopéias continentais mais surpreendentes dos últimos tempos. Claro que há a decepção de não alcançar nem o terceiro lugar de um grupo que chegaram a brigar pela liderança, depois de uma campanha tão bonita. Mas o pior será acordar deste belo sonho num cenário de terra arrasada. Sem direção, sem clube, sem time. De volta ao limbo.
Uma surpresa e uma decepção
Por um lado, um time que se superou e, mantendo a tradição de boas campanhas na Europa, garantiu a liderança do grupo com uma grande campanha na segunda fase. Por outro, um clube voltou à sua sina de protagonizar vexames em gramados europeus e ficou de fora até mesmo da Copa Uefa. Esta foi a tônica da fase de grupos da Champions League para Panathinaikos e Fenerbahçe, respectivamente.
Quando acabou o primeiro turno da fase de grupos da Champions League, o Panathinaikos estava em seríssimos apuros. Depois da terceira rodada, os verdes somavam apenas o ponto que haviam acabado de conquistar no empate contra o Werder Bremen, disputados dois jogos em casa.
Considerando isso, as chances de classificação dos Trifilis pareciam remotas, ainda mais com um time que ainda parecia sofrer para se entrosar, sob a batuta de um técnico reconhecido internacionalmente mas não muito acostumado à posição de treinador -o holandês Henk Ten Cate.
Mas uma sequência impressionante de três vitórias -sendo Werder Bremen e Internazionale fora de casa-, impulsionou o PAO à liderança do grupo. Claro que os verdes contaram com a colaboração de seus adversários, de uma Inter que se desmotivou na segunda metade da fase, de um Werder que apenas se achou quando já era tarde e de um Anorthosis que sofreu com a falta de experiência na hora de sacramentar a sua classificação. Mas o fato é que o Panathinaikos também se encontrou na segunda metade da fase, ao ter 100% de aproveitamento, e aproveitou as suas chances de garantir a sua classificação.
Na próxima fase os Trifilis enfrentarão o Villareal-ESP. Não será um adversário fácil -como é quase impossível de acreditar que seria nesta fase da competição. De toda a forma, os verdes entram em igualdade de condições técnicas e psicológicas, o que não aconteceria se os verdes enfrentassem potências continentais como Chelsea, Arsenal e Real Madrid. Por isso, pode-se dizer que o sorteio foi bem benevolente com os gregos.
Por seu lado, o Fenerbahçe nunca conseguiu esboçar alguma reação na UCL, rememorando os velhos tempos de más campanhas da equipe turca na competição. Mesmo com investimentos altíssimos -como a contratação do volante Emre e do atacante espanhol Dani Guiza-, os canários sofreram com as baixas no elenco e as dificuldades de um técnico que rearmava um elenco.
Mesmo Luis Aragonés sendo um técnico experiente, e sua competência comprovada no meio do ano, quando levou a Espanha ao título da Euro 2008, as dificuldades que o espanhol enfrentou na montagem do elenco foram parecidas com as enfrentadas por Zico há dois anos. E o Fenerbahçe não engrenou no começo da temporada, com esta dificuldade sendo refletida também na campanha européia. Justamente por isso, sem somar nenhuma vitória, os canários se despedem da Champions de forma melancólica.
Neste momento, o Fener tem um momento de renascimento na Süper Lig, em que conseguem se colocar na vice-liderança da competição mesmo depois de um começo claudicante. Mas no momento em que as coisas se colocavam no lugar em gramados locais, a campanha européia já tinha virado pó. E, com o maior foco no campeonato local, a tendência é que houvesse uma melhora na participação na Süper Lig enquanto a participação européia degringolasse. Acabam sendo dois fatores interligados.
Justamente por estes fatores -a estabilização do time e a adaptação do time com o trabalho de Aragonés-, a tendência para o futuro é que o Fener continue em sua escalada. Assim, não seria nenhuma surpresa de os Canários Amarelos conquistassem o quinto título nacional do século.



