Adeus do comandante

A sensação da Süper Lig turca nos últimos dois anos passa, mais uma vez, por maus bocados no começo da temporada. E, com isso, o pequeno clube da Anatólia perde a chance de fazer um papel melhor nas competições internacionais. A diferença é que, desta vez, o treinador preferiu não esperar a recuperação total do time e pediu o boné.
Essa é a tônica do Sivasspor de Bulent Uygun no começo de temporada, que mais uma vez decepciona na disputa de uma competição europeia depois de se intrometer novamente na tradicional luta dos gigantes de Istambul pelo título turco. A campanha europeia fraca se repetiu, tanto na fase eliminatória da Uefa Champions League -derrotado pelo Anderlecht por 5 a 0 na Bélgica antes de vencer por 3 a 1 em casa-, quanto na da Europa League -derrotado duas vezes pelo Shaktar Donetsk (2 a 0 em casa e 3 a 0 fora).
Esta não foi a primeira vez que os Yigidolar (Bravos) se vêem em dificuldades na temporada em decorrência do sonho europeu. Na temporada passada a história foi mais ou menos parecida. O clube da Anatólia (região central da Turquia) deixou a briga por uma vaga na Copa Uefa ainda na 3ª fase da extinta Copa Intertoto -depois da brilhante campanha na Süper Lig 2007/8, que acabou com a quarta colocação -e também começaram a temporada com derrota. Porém, logo o time se recuperou na Süper Lig e alcançou as primeiras colocações. Uma recuperação atribuída em boa parte ao técnico e a sua filosofia de trabalho -batizada de “TurBulent”, que, segundo ele, é um sistema de metas que evitaria as turbulências causadas pelas derrotas no decorrer da temporada.
A temporada 2008/9 foi ainda mais brilhante, fazendo com que o clube da Anatólia ficasse com o vice-campeonato -e uma vaga na fase eliminatória da Uefa Champions League. Porém, como mais uma vez, entrou muito cedo na disputa por vagas em competições europeias, o time praticamente não faz a pré-temporada -o que fez crescer muito o número de atletas no Departamento Médico do clube (sete entre os titulares, 14 no total). Para piorar, a base dos Yigidolar foi seriamente alterada, com as saídas de peças chave de seu elenco, como o camaronês Herve Tum -para o Istambul BB- e so brasileiro Fábio Bilica -para o Fenerbahçe. Tudo isso causou a debacle na campanha continental. Como o começo de Süper Lig também não foi muito melhor, com sete partidas sem alcançar uma mísera vitória (6 derrotas e um empate), as críticas a Bulent começaram a surgir, se esquecendo do passado recente do treinador.
Chateado pela situação -e talvez imaginando como seria difícil repetir a façanha das últimas temporadas, Bulent pediu as contas e foi embora logo depois da primeira vitória do time (2 a 0 contra o Antalyaspor, jogando em casa), na oitava rodada. Um substituto logo foi contratado -Mushin Ertugral, com longa carreira no continente africano, mas sem nenhuma experiência na Turquia. Fica a expectativa para saber quanto Bulent era importante para o seu time, ou se Ertugral conseguirá repor a falta do comandante a altura.
Falta um
Para chegar à fase final da Copa do Mundo da África do Sul, falta que a seleção da Grécia vença um último desafio. Falta passar pela Ucrânia na repescagem, conforme definido pelo sorteio realizado em Zurique na última semana, depois de ter se classificado na segunda colocação no grupo 2 das eliminatórias europeias.
Pode se dizer que a campanha do Navio Pirata pelas eliminatórias foi um tanto decepcionante. Afinal os gregos eram os cabeças de chave -graças à divisão dos potes, levando em conta as colocações das seleções no misterioso ranking da Fifa- e o sorteio acabou sendo favorável. Ao invés de pegar selecionados mais difíceis -como Inglaterra e Rússia, que estavam no pote B-, acabou tendo como colegas de grupo seleções um pouco menos difíceis, como Israel -no citado pote B-, por exemplo.
O fato é que os gregos perderam os dois confrontos para a Suíça, seus rivais na briga pelo título do grupo. 2 a 1 em Pireu em 15 de outubro do ano passado e 2 a 0 na Basileia no último dia 5 de setembro. Basicamente foi este o confronto que definiu a disputa pelo título do grupo, já que os helvéticos somaram seis pontos no confronto direto e acabaram com 21 pontos contra 20 dos gregos no grupo 2.
Ainda assim o Navio Pirata teve boas chances de aproveitar os vacilos dos rivais suíços. Que contabilizaram uma bobeada histórica em casa na partida contra Luxemburgo -2 a 1 em Zurique na 2ª rodada. Só que os gregos não foram capazes de capitalizar este momento, também bobeando em jogos cruciais. Foi assim, por exemplo, no empate no último minuto contra Moldova em Chisnau, na antepenúltima rodada das eliminatórias -enquanto a Suíça empatava com a Letônia em Riga. Se o resultado final desta partida fosse diferente, os gregos poderiam estar comemorando a sua classificação.
Como não aproveitou as chances, foi superado pela Suíça na fase de grupos. Assim, terá que enfrentar a Ucrânia na repescagem se ainda sonhar com uma classificação para a Copa -o que não acontece para os gregos desde a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. A repescagem europeia será disputada nos dias 14 e 18 de novembro, com o primeiro jogo sendo disputado em Atenas -no estádio Olímpico-, e o jogo decisivo em Donetsk, num confronto bem equilibrado entre as duas seleções, que deve ser definido -desculpe o clichê- nos detalhes. Mas o sonho dos gregos ainda continua.
Decepção
Já a Turquia, por sua vez, decepcionou e não conseguiu a sua vaga no grupo 5. De início, uma vaga na repescagem não parecia ser um desafio dos maiores, já que era amplo o favoritismo da Espanha. De fato, os espanhois confirmaram o seu favoritismo de forma acachapante, vencendo todos os seus dez jogos. Mas os turcos acabaram superados pelos bósnio-herzegovinos na briga pela vaga na repescagem, e mais uma vez terão que ver uma Copa do Mundo pela televisão.
A disputa com os bósnios já vem da chave classificatória passada. Nas eliminatórias para a Euro 2008, os turcos também tiveram a Bósnia-Herzogovina como adversária. Mas naquela ocasião os turcos se saíram melhor, muito por conta da menos experiência de seus adversários. Desta vez, os turcos repetiram erros cometidos na campanha anterior -como a perda de pontos para adversários mais fracos no começo da campanha (empates contra Bélgica em casa na 2ª rodada e contra Estônia fora na 4ª). Por outro lado, os seus rivais não bobearam e tiveram aproveitamento quase completo contra os outros adversários. Assim, mesmo superados pelos turcos no confronto direto -derrota em Istambul, empate em Zenica-, conseguiram superá-los nos pontos e chegar à repescagem.
O fracasso acaba com a segunda era Fatih Terim no comando da Milli Takim. No comando da seleção turca desde 2005, Terim levou os turcos à Euro 2008 antes de falhar na tentativa de fazer a Ay Yildiziliar chegar a mais uma Copa do Mundo. O “imperador”, como foi apelidado pela imprensa turca, foi o primeiro comandante a levar os turcos à uma fase final de Euro, em 1996 -primeira classificação dos turcos a um campeonato continental-, comandou o Galatasaray na campanha dos títulos da Copa Uefa e da Supercopa da Uefa -as únicas glórias continentais relevante de um clube turco- e o único turco a comandar equipes italianas -Milan e Fiorentina.
Porém, a sua passagem pela seleção turca fica notabilizada pela falta de consistência. Se Terim conseguiu manter a tradição recente turca de vencer os grandes desafios -como quando superou Suíça, República Tcheca e Croácia na Euro e Grécia e Bósnia nas fases classificatórias de Euro e Copa, respectivamente-, a outra tradição turca de sucumbir a momentos em que pareciam favoritos também foi mantida. E, justamente por não ter conseguido dar esta consistência a uma boa geração de jogadores -como Tuncay, Emre e Arda, para citar alguns-, fica uma sensação de fracasso no cômputo final dos resultados, justificando a sua renúncia ao cargo -como aconteceu antes da última rodada, quando os turcos já não tinham mais chances de classificação.
O futuro? Pelo que tem saído na imprensa internacional, a Federação turca estaria inclinada a investir em um nome reconhecido internacionalmente. Nomes como Luís Felipe Scolari ou Guus Hiddink constariam na lista dos sonhos dos turcos. Se confirmando a atual tendência, qualquer um destes seria o primeiro estrangeiro a assumir o cargo desde que os turcos atingiram o atual patamar de seleção capaz de se classificar a um campeonato de seleções europeu -o alemão Sepp Piontek foi o último, tendo dirigido a seleção de 1990 a 1993. No imaginário dos dirigentes turcos, este seria o investimento a ser feito para que a Milli Takim alcance um patamar superior -de seleção com presença constante em competições internacionais de seleções, como já acontece com as divisões de base turcas, presença constante nos europeus sub-19 e sub-21. Será o caminho certo a ser trilhado? É o que os dirigentes turcos esperam.
Caindo em si
No Chipre, há uma sensação de volta à realidade depois do fim das eliminatórias para a Copa do Mundo. Afinal, num grupo que parecia ter o mesmo grau de dificuldades da fase de grupos anterior -para a Euro-, a campanha cipriota foi nitidamente pior. Ok, os cipriotas até tem do que se orgulhar, já que dificultaram a vida dos atuais campeões mundiais -Italia. Foram duas derrotas, mas em jogos bem difíceis para os italianos. O problema é que, nas outras partidas, os cipriotas não conseguiram fazer resultados que seriam decisivos para uma eventual conquista de uma vaga na Copa.
No confronto direto com os irlandeses -que os cipriotas haviam goleado por 5 a 2 em casa na campanha anterior-, foram duas derrotas. No fim, nove pontos, com duas vitórias (em casa) e três empates (um em casa e dois fora) não era exatamente o que o Chipre sonhava, num grupo de baixo nível técnico.



