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MLS sonha alto: estar entre as melhores ligas do mundo em 2022

Sempre que se fala em futebol nos Estados Unidos, há quem diga que no dia que os americanos tomarem gosto pelo esporte, se tornarão um dos melhores do mundo. Talvez não seja tão fácil assim, mas em entrevista à Trivela, Jeff Agoos, diretor técnico de competições da MLS, deixou claro que a ambição é mesmo grande e a liga se prepara justamente para ser uma das melhores do mundo. Esse é o desafio de uma liga que já tem média de público maior que o Campeonato Brasileiro e usa uma modelo diferente de todas as grandes ligas do mundo, com franquias e playoffs, fase que está sendo disputada neste mês, o decisivo do campeonato. A realidade da MLS ainda está longe da projetada para daqui nove anos, mas a perspectiva é de melhora.

Futebol, um esporte global

Quando se fala em esporte, os americanos têm um modelo muito próprio de lidar com eles. A estrutura é baseada no esporte escolar e universitário e tem uma liga nacional forte e mundialmente conhecida. Com algumas diferenças entre elas, as ligas são as maiores do mundo no esporte e criam até regras próprias – a NBA, por exemplo, foi quem incorporou a regra da linha de três pontos antes da FIBA e ainda há diferenças entre as regras da federação que dirige o esporte mundialmente e a liga americana, mesmo com o basquete sendo um esporte global.

“As outras grandes ligas americanas (NFL, MLB, NBA, NHL) têm preocupações apenas domésticas. O futebol é um esporte global. Temos que estar atentos para mantermos a cultura americana, mas também estudamos o que acontece nos outros lugares do mundo”, explica Agoos.

Um dos problemas para o futebol nos Estados Unidos é a formação. O sistema tradicional americano de formação não tem servido ao futebol. O esporte já é um dos mais praticados entre as crianças, mas está longe de ser uma potência quando se fala em esporte de competição em escolas e universidades. Um jogador sair da universidade com 21 ou 22 anos é tarde demais para o futebol. Por isso, segundo Agoos, a MLS investe cada vez mais em categorias de base para fornecer jogadores aos times da liga.

“As categorias de base podem ficar espalhadas e dão a formação básica para garotos”, disse. Para Agoos, os times precisam investir em ter times com idades baixas, como sub-14 ou até sub-12. “Com essas categorias de base, os clubes podem formar jogadores e a tendência é o nível melhorar”, descreve o dirigente. “Fizemos uma mudança que acabou sendo fundamental. Antes, qualquer clube poderia contratar os jogadores das escolinhas de futebol dos clubes. Agora, o clube formador tem o direito de contratar esse garoto, caso ele queira. Isso fez com que valesse a pena ter categorias de base na MLS”, conta Agoos.

O ex-jogador sabe que para melhorar o nível da liga, é preciso melhorar a formação de jogadores. E o objetivo é claro e bastante ambicioso. “Queremos estar entre as melhores ligas do mundo em 2022”, diz Agoos. “Todo grande país no futebol, como Alemanha, Espanha ou Brasil, possui uma liga doméstica forte. É isso que estamos tentando fazer com a MLS”, diz Jeff.

Uma das formas para fazer isso é adotar um modelo parecido com a MLB. Depois de fazer a formação do jogador nas “academias de futebol”, como eles chamam as categorias de base, o clube pode assinar contrato com o jogador e levá-lo para o time profissional, aos 18 anos. Mas nem todo jogador está pronto para jogar na liga a essa altura. Então, aí entra o que faz a liga de beisebol: os clubes têm filiações com ligas menores para que esses jogadores possam jogar profissionalmente e ganhar experiência até estar pronto a jogar na MLS.

O papel de Jeff na MLS é de diretor técnico de competições. Entre suas funções, ele coordena a captação de dados técnicos das partidas, que são distribuídos para os clubes para fornecer material que os clubes possam usar para melhorar seus jogadores, seu desempenho coletivo e, assim, consequentemente a liga. Essa parece uma preocupação grande de Agoos. “Nós trabalhamos para melhorar o nosso produto. Trazemos dados, estatísticas, analisamos diversas questões técnicas e de formação. Já fizemos mudanças, mas os resultados não acontecem imediatamente. Leva algum tempo. Somos uma liga que tem 18 anos e se você comparar com outras grandes ligas americanas com o mesmo tempo de vida, vê que estamos em um bom nível”, disse o ex-zagueiro da seleção americana.

A expansão da MLS
Thierry Henry na Arena Red Bull, em Nova Jersey: um dos estádios mais modernos dos EUA (Foto: divulgação/NY Red Bulls)
Thierry Henry na Arena Red Bull, em Nova Jersey: um dos estádios mais modernos dos EUA (Foto: divulgação/NY Red Bulls)

Perguntado se sentia falta de alguma região representada na MLS, Agoos não titubeou em dizer que a parte sudeste dos Estados Unidos, era uma das que mais precisava de um time. , enquanto Miami pode ganhar uma nova franquia que tem David Beckham como investidor.

O New York FC, dos mesmos donos do Manchester City, entra na liga em 2015 e deve trazer um pouco mais de atenção para Nova York, além de criar uma certa rivalidade com o New York Red Bulls, que joga em Nova Jersey. Com a entrada do Orlando City e possivelmente mais um, talvez o Miami de Beckham, já se cria mais uma rivalidade e atende uma região que tem muita influência latina. Resta saber se desta vez haverá interesse de fato, já que tanto Miami quanto Orlando tiveram times que acabaram desaparecendo – o Miami Fusion e o Tamba Bay Mutiny. Atlanta também é uma candidata a ter mais uma franquia. A MLS pretende crescer e se tornar mais nacional. Atualmente com 19 times, a liga quer ter 24 até 2020.

O problema do calendário e a concorrência na TV

O calendário é um tópico bastante complicado na MLS. Assim como no Brasil, há um problema com excesso de jogos, tanto que há rodadas em datas Fifa. São 40 jogos na temporada para os times que chegam à decisão da MLS, sem contar a US Open Cup e a Liga dos Campeões da Concacaf.

Joseph Blatter, presidente da Fifa, chegou a dizer que todos as ligas do mundo deveriam adotar o calendário padrão, como o europeu, que alguns chamam de calendário mundial. Isso inclui a MLS, que é disputada de março a novembro. “Foi uma declaração inocente de Blatter”, criticou Agoos. Para o diretor técnico da liga, os europeus deveriam avaliar o calendário de agosto/maio, utilizado atualmente, e pensar no contrário: eles se adaptarem a jogar do começo ao fim do ano. “A Copa de 2022 talvez obrigue uma mudança no calendário europeu. Já ouvi clubes da Bundesliga questionando por que jogam no inverno, com temperaturas tão frias, e não no verão”.

Mudar o período do ano que a MLS é uma questão complicada. Entre março e novembro, a MLS concorre basicamente só com o beisebol, que é disputada justamente entre março e outubro. O período de playoffs da MLS, que pega o fim de outubro e o mês de novembro, concorre com vários outras ligas de esportes mais tradicionais dos EUA, como NFL, NBA, NHL, basquete universitário e futebol americano universitário. Por outro lado, se adaptar ao futebol europeu, com jogos de setembro a maio, por exemplo, faria a MLS concorrer com toda a NFL e com os momentos decisivos da NBA e da NHL. Uma concorrência que não ajudaria a liga a conquistar o público.

JELD-WEN Field, estádio do Portland Timbers, está sempre cheio
JELD-WEN Field, estádio do Portland Timbers, está sempre cheio

Os estádios dos times da MLS estão cheios e esse parece um aspecto conquistado pela liga. Quando se trata de audiências na TV, a situação é diferente. Os dois canais que transmitem a MLS, a NBC e a ESPN, têm audiências baixas. Na NBC, a média por fim de semana é de 102 mil pessoas assistindo, enquanto na ESPN é a audiência chega a 227 mil pessoas. Para outros eventos de futebol, como a Premier League e outras ligas pelo mundo, audiência tem média de um milhão de pessoas. “O calendário é um dos problemas que nós analisamos. É uma questão difícil e temos que concorrer com muitas atrações na TV”, diz Agoos.

Pelas baixas audiências, o valor pago pelas emissoras é baixo. A NBC paga US$ 10 milhões para transmitir a MLS e a ESPN paga US$ 9 milhões. Um valor irrisório perto de outras grandes ligas do mundo, como a Premier League, principal concorrente inclusive fora de campo, na audiência da TV, recebe £ 3,018 bilhões, equivalente, na cotação atual, a US$ 4,8 bilhões.

Esse é um dos fatores que impede um crescimento mais rápido da MLS. O modelo de negócio da liga é que os clubes sejam sustentáveis, mais ou menos no modelo alemão. Afinal, cada franquia é também sócia da liga, então é preciso ter lucro para que todos tenham lucro. Gastar mais do que arrecada é uma loucura que não é permitida. Tanto que há limite salarial e os gastos são limitados. O modelo é o mesmo de outras ligas e, por isso, para crescer e contratar jogadores pagando muito dinheiro, só se a arrecadação for maior. Por isso, o crescimento terá que ser gradual – e por isso também que você não verá um dono milionário de um time americano gastando fortunas para contratar jogadores. Cada franquia só pode ter três jogadores chamados de “designados”, que podem ganhar acima do teto e que entram na conta com o valor do teto salarial. É nessa conta que entram jogadores como David Beckham e atualmente Landon Donovan e Clint Dempsey, por exemplo. É o que permite que os clubes contratem estrelas mundiais.

MLS cada vez mais presente na seleção americana

Dempsey, uma das maiores estrelas da seleção dos Estados Unidos, é apresentado no Seattle Sounders
Dempsey, uma das maiores estrelas da seleção dos Estados Unidos, é apresentado no Seattle Sounders

Além das ligas internacionais como a Premier League, o que chama a atenção do público americano que gosta de futebol são os jogos de seleções. Eliminatórias da Copa do Mundo é um assunto quente nos sites e publicações americanas sobre esporte, a ponto da Sports Illustrated, uma das principais revistas esportivas do mundo, dedicar uma parte do seu site para o assunto sempre que a seleção americana entra em campo. Se a seleção americana já chama a atenção, quem realmente explode em audiência é a seleção mexicana. “A audiência de jogos da seleção do México na TV é incomparável com outros times”, conta Marisabel Munoz, diretora de relações públicas da MLS.

O envolvimento com o futebol de seleções é grande nos Estados Unidos e é possível notar pelas lojas de material esportivo nas proximidades da Copa. Pouco antes do Mundial de 2010, na África do Sul, as lojas de Nova York estavam repletas de camisas de seleções e tema de futebol. Apesar disso, nada de camisas da MLS. A liga não parece estar presente na cidade. “Esse é um aspecto que estamos trabalhando”, diz Marisabel. “Nova York é uma cidade apaixonada por futebol também. Nós precisamos fazer com que essa paixão chegue à MLS”.

A empolgação com a seleção americana não é por acaso. O time comandado por Jürgen Klinsmann fez uma grande campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. Terminou em primeiro lugar na Concacaf, com 22 pontos em dez partidas na fase final, quatro pontos à frente da Costa Rica, segunda colocada, e sete à frente de Honduras, terceira. A diferença para o México, arquirrival local e que foi para a repescagem, foi de 11 pontos. Ao contrário de outros tempos, as principais estrelas do time jogam na MLS.

O atacante Eddie Johnson faz dupla com Clint Dempsey no Seattle Sounders. Landon Donovan é estrela do Los Angeles Galaxy. O meio-campista Graham Zusi, que tem se destacado, joga no Sporting Kansas City. O time continua tendo muitos jogadores que atuam no futebol europeu, mas a proporção de jogadores locais tem aumentado. “Nós ficamos felizes em perceber que a MLS contribuiu como nunca para o bom desempenho da seleção americana”, diz Marisabel Munoz.

Para Jeff Agoos, há um estilo americano de jogar futebol. Um jogo bastante físico, disciplinado e que tem bons jogadores de ataque. “Antes só produzíamos defensores. Cada vez mais, temos bons jogadores de ataque”, afirma Agoos. O jogo físico, organizado, bom nas bolas paradas e com jogadores de bom porte físico e boa técnica, mas sem grande habilidade. “É o nosso estilo de jogar. Se gostaríamos de jogar como a Espanha? Sem dúvidas. Temos jogadores para fazer isso? Não (risos)”, brinca o ex-jogador.

Jeff Agoos e Marisabel Munoz ficam surpresos quando dizemos que havia previsões no Brasil que os Estados Unidos poderiam ter ido até quartas de final e até a semifinal na última Copa do Mundo, se tivessem passado de Gana nas oitavas de final. “Vocês terem essa avaliação sobre a seleção americana mostra que temos evoluído”, diz Marisabel.

Ex-jogador da seleção americana e que jogou a Copa do Mundo de 2002, Jeff mostra confiança quando fala sobre a seleção americana. O objetivo um dia é ganhar a Copa do Mundo e fazer a seleção americana chegar ao título. “Quem sabe em julho do ano que vem, no Brasil?”, brinca. “Queremos que a seleção americana seja uma das mais fortes do mundo, assim como a nossa liga, em 2022”. Parece um objetivo muito ambicioso, mas você ousaria duvidar?

Colaborou Ubiratan Leal

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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