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Obama reeleito: e o futebol com isso?

Na semana passada, os olhos do mundo se voltaram para o processo eleitoral que deu um segundo mandato a Barack Obama. Por mais que alguns xiitas teimem em enxergar nisso “um ranço de subserviência ao império americano”, a curiosidade é natural e justificada. Natural porque o tal do american way of life ganhou o planeta e influenciou especialmente a indústria do entretenimento, o que explica por que conhecemos tanto sobre os Estados Unidos, embora muitos yankees ainda pensem que nossa capital é Buenos Aires. E justificada porque, mesmo que eles não andem lá muito bem das pernas, ainda se mantêm como a maior economia de todas. Se hoje nossa vida muda bem menos com uma troca de presidentes por lá, é muito mais porque o Brasil encontrou um caminho próprio (ainda longo e tortuoso) do que pela perda de importância dos EUA no cenário internacional.

Se a perspectiva de acompanhar a História sendo feita não lhe serve como “desculpa”, vale chamar a atenção para outro aspecto: as eleições americanas, refletindo a cultura do espetáculo vigente por aquelas bandas, viraram um grande show. Ou circo, se você preferir. Cada convenção republicana ou democrata é um grande evento, com plateia enlouquecida, apresentações musicais e discursos de celebridades. Onde mais você vê Scarlett Johansson fazendo de tudo para não ser notada pelo seu sex appeal, mas sim pelos seus ideais? E que tal Clint Eastwood conversando com uma cadeira vazia? Tudo desemboca na cobertura da CNN, um carnaval de luzes e efeitos, mas com apenas duas cores: o azul e o vermelho que vão colorindo o mapa de 50 estados, que podem virar 51 (seja isso uma boa ideia ou não), caso a vontade do povo de Porto Rico seja aprovada pelo Congresso dos EUA.

Nós brasileiros ainda podemos nos divertir, sadicamente, às custas de uma democracia que, apesar de bem mais antiga e supostamente mais desenvolvida que a nossa, mantém um esquema de votação anacrônico, sujeito a fraudes e a atrasos na apuração, enquanto já estamos nos acostumando a ver os votos de Curitiba contabilizados por completo antes mesmo dos comentaristas políticos vomitarem alguma bobagem. Mas na prática, o que muda na nossa vida com a reeleição de Obama? A não ser que você acredite que um dos candidatos faria milagres econômicos, ou que outro levará o país à bancarrota, muito pouco. A maior preocupação por aqui tem sido a questão do visto para quem viaja aos EUA. Que, dizem os especialistas, teria sua obrigatoriedade derrubada, qualquer que fosse o vencedor, já que a gastança brasileira em Miami ajuda na recuperação da economia americana.

Para o futebol, obviamente, nada muda. Também porque o presidente gosta mesmo é de basquete, tem até uma tabela instalada no quintal (ou seria no jardim?) da Casa Branca, para bater uma bolinha com os chegados. Até visitar a Cidade de Deus no ano passado e arriscar umas embaixadas (calma, CIA, foi no sentido futebolístico da coisa), talvez nunca tenha chutado uma bola na vida, o que certamente deixaria David Luiz mais tranquilo: um a menos para poder criticar suas lambanças. Talvez, Sasha e Malia, as “primeiras-filhas” dos EUA mandem bem no ludopédio, já que o esporte é muito popular entre as meninas de lá. Fora isso, a relação de Obama com o futebol deve se resumir ao assédio incansável de Patrícia Amorim. Algo que pode ser remediado com uma boa e velha ordem de restrição. Ao Flamengo, infelizmente, não bastaria recorrer ao mesmo expediente.

Berraram como nunca, perderam como há quatro anos

Se a reeleição de Obama não tem grande significado para o futebol, a derrota de seus oponentes não deixa de ter um certo sabor de conquista para a modalidade. Como se sabe, nos últimos anos, os EUA ganharam uma corrente de extrema direita das mais barulhentas, cujos maiores expoentes são o Tea Party (uma facção populista do Partido Republicano) e a Fox News (uma espécie de cova rasa do bom senso e do jornalismo político). A mensagem dessa turma não é de oposição, mas sim inquisição. É o tipo de gente que tem horror às diferenças e não tem o menor pudor em perseguir quem não leva a mesma vidinha puritana, e por vezes hipócrita, que eles.

O ódio dessa parcela da população se agravou exponencialmente com a chegada ao poder de um negro que se manifesta a favor do casamento homossexual, do direito da mulher ao aborto e da proibição da deportação de filhos de imigrantes ilegais. Por mais que Obama não tenha conseguido colocar a maioria de suas intenções em prática (o que explica o desânimo de muitos que haviam ficado esperançosos com a sua vitória, em 2008), o seu programa político é perseguido de forma até mesmo desleal por seus opositores. E, acreditem, o futebol foi acusado de ser parte desta nova visão de América, que a extrema direita, em um momento de rara ignorância, costuma chamar de comunista.

Durante a Copa do Mundo de 2010, o futebol apresentou excelentes números de audiência na TV americana. A estreia dos EUA, contra a Inglaterra, foi vista por 17 milhões de telespectadores, um número que não era alcançado pela seleção masculina desde aquele tórrido 4 de julho de 1994, quando o gol de Bebeto eliminou Lalas e companhia da Copa disputada nos Estados Unidos. Pouco diante dos mais de 100 milhões que acompanham cada Super Bowl, mas significativo para uma modalidade que até pouco tempo atrás estava ligada apenas a colegiais e hispânicos. De quebra, muitos dos que ainda não haviam se rendido ao futebol, puderam notar que sim, um esporte com tão pouca movimentação de placar pode emocionar, como provou o dramático gol de Landon Donovan, nos acréscimos do jogo contra a Argélia, classificando a seleção americana às oitavas de final.

Com celebridades demonstrando interesse pelo assunto e o futebol chegando às manchetes dos jornais, a reação dos extremistas viria não a cavalo, mas a coices. Glenn Beck, um dos mais famosos comentaristas da Fox News, disse o seguinte: “Não importa quantas celebridades o apoiam, quantos bares abrem mais cedo, quantos comerciais de cerveja eles veiculam, nós não queremos a Copa do Mundo, nós não gostamos da Copa do Mundo, não gostamos do futebol e não queremos ter nada a ver com isso”. Não demorou para que alguns caíssem na tentação de incluir a modalidade em teorias da conspiração. “A esquerda está impondo o ensino de futebol nas escolas americanas, porque a América está se ‘amarronzando'”, vociferou, salivando preconceito, o analista conservador Dan Gainor.

Yes, they can

O futebol, que até então só servia de piada para essa gente, passou a ser tratado como um corpo estranho, que estaria infectando essa América só existente mesmo na cabeça dos mais ferrenhos conservadores. Mitt Romney, um cara que parece muito mais preocupado em acumular poder e dinheiro do que em defender esses valores provincianos, teve de dar uma guinada à direita para agradar a essa parte do eleitorado que, ironicamente, o considera um sujeito exageradamente moderado (!). A tendência é que, passada a eleição, a extrema direita rejeite ainda mais o candidato derrotado, como se ele fosse o único culpado pelo fracasso republicano. Mas a derrota de Romney é sim a derrota da extrema direita.

Por pelo menos mais quatro anos, os Estados Unidos não cairão nas mãos de quem exala xenofobia e intolerância, ou mesmo nas mãos de quem se alia a esse tipo de ideias por conveniência eleitoral. Independente do que você pense do governo Obama, espero que concorde que a resposta não se encontra no comportamento truculento de Tea Party e congêneres. Mesmo se caísse, a MLS não pararia de se desenvolver, como mostra a construção de novos estádios, o aumento da média de público e a chegada de estrelas como Beckham e Henry. Outras virão. Didier Drogba, por exemplo, andou expressando publicamente o seu interesse em atuar no futebol dos EUA, em um futuro próximo.

O lado bom da derrota desse tipo de pensamento tacanho é ver renovada a esperança de que o crescimento do futebol nos Estados Unidos não se dê em estádios que sirvam de gueto para escanteados grupos étnicos ou sociais, como já ocorreu em outros países. Há uma boa possibilidade de que a expansão da modalidade sirva como um espelho de uma sociedade culturalmente diversificada e mais atenta ao que se passa no resto do mundo. Da mesma forma em que o american way of life influenciou as nossas vidas, já passou da hora da cultura americana absorver referências externas, com a mesma dedicação com que um dia atraiu mão-de-obra dos quatro cantos do planeta.

Ninguém deve alimentar a ilusão de que um dia o futebol será o esporte mais popular nos Estados Unidos. Ou mesmo de que a seleção local esteja destinada a virar uma potência, com o aumento do número de praticantes. Trata-se apenas de imaginar um cenário em que um americano, independente de sua ascendência ou orientação política, se reúna com os amigos para beber uma cerveja e comer uns amendoins (OK, podem ser pretzels, se eles assim insistirem) enquanto aprecia uma boa partida de futebol. Da mesma forma que tantos brasileiros acompanham futebol americano e beisebol sem darem as costas para o seu país. Alguns até levam uma vida bem da comunista, na ótica torta do Tea Party.

Você tem todo o direito (eu diria até que o dever) de não gostar da política imperialista dos EUA, por tudo que ela já causou mundo afora. Porém, negar apoio, ainda que moral, aos muitos americanos que querem deixar esses dias para trás é cair no mesmo exagero extremista daqueles que foram lindamente derrotados nas urnas, em 6 de novembro de 2012. O futebol, entre tantos outros, agradece.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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