A final da MLS disputada neste sábado teve uma história incrível de reviravolta. Diante de um time favorito e atual campeão, o Seattle Sounders, o Columbus Crew conseguiu uma vitória dominante por 3 a 0 (veja os melhores momentos abaixo), sem dois dos seus principais jogadores ausentes por COVID-19. Tudo isso cerca de dois anos depois do clube quase ser realocado para o Texas, mas que acabou impedido pela força da pressão dos seus torcedores. Porque se virar um jogo já é difícil, imagina impedir que o dono do clube o mude de cidade, por razões comerciais? É uma virada incrível que resultou no segundo título do Crew nesta turbulenta temporada 2020.

A temporada 2021 da MLS terá um novo clube, o Austin FC, o 27º da liga. O dono do clube chama-se Anthony Precourt, que era o dono do Columbus Crew. Foi ele que propôs à liga a mudança do clube de Columbus, em Ohio, para Austin, no Texas – ainda que a franquia de Ohio fosse pioneira na liga. Isso parecia inevitável. Exceto para os torcedores do Crew, que não se conformaram com essa ideia. Eles, que sempre se orgulharam de torcer pelo primeiro clube da história da MLS, gritaram, e gritaram alto.

Os torcedores são orgulhosos de serem o primeiro clube a quebrar a marca de 10 mil carnês de temporada vendidos antes mesmo da estreia do clube na MLS, em . E a força da torcida foi sentida por Precourt: foram diversos protestos em frente à sede do clube, especialmente com os dizeres “Save The Crew”. Tornou-se um mantra que foi levado para as arquibancadas e era repetido de forma constante. O barulho foi aumentando, a pressão também, e ganhou apoio para muito além dos limites da cidade ou do estado. O movimento foi abraçado por diversos torcedores ao redor do país.

Precourt teve que desistir. Um novo grupo surgiu para comprar o Columbus Crew das mãos do antigo dono. Os mesmos donos do Cleveland Browns. No dia 28 de dezembro de 2018, depois de uma batalha judicial, as famílias Edwards e Haslam completaram a compra do Crew e garantiram que o clube ficaria onde está. Dois anos depois, o clube estaria na final da MLS, derrubando o favorito, vencendo com estilo e garantindo a sua segunda taça da liga em 25 anos de história e encerrando um hiato de 12 anos sem um título.

Columbus Crew, clube fundador da MLS

No dia 15 de junho de 1994, em Columbus, estado de Ohio, um marco aconteceu. Se você se atentou à data, sabe que os Estados Unidos estavam a dias da estreia da do Mundo de 1994, que seria no dia 17. Foi naquele dia 15 que surgiu o que seria o primeiro clube da Major League Soccer, a nova liga profissional de futebol dos Estados Unidos. Seria o primeiro de 10 times dos fundadores da liga. Um clube fundado na esteira daquela Copa do Mundo.

O Columbus Crew tinha uma base forte para conseguir levar o futebol para a cidade: 11.500 carnês de temporada vendidos e o projeto de um estádio específico para futebol. Pode parecer pouco, até banal, mas em 1994 não era. Ainda mais com todo histórico que os Estados Unidos tinham com suas ligas profissionais, como a NASL, que viveu um auge ao ter o New York Cosmos cheio de estrelas, com Pelé sendo a principal, mas que acabou com a falência e fim da liga em 1984.

A Copa do Mundo de 1994 foi disputada em estádios importantes, mas nenhum deles era específico de futebol. A MLS sabia, já naquele período inicial, que ter estádios específicos seria um ponto importante para o futuro. Jogar com os imensos estádios existentes no país trazia alguns problemas. Primeiro, ficariam vazios, em grande parte, o que gera uma péssima imagem, em termos de marketing. Em segundo lugar, o custo operacional aumenta muito. Por fim, mas não pouco importante: os clubes precisavam se sentir donos das suas próprias casas, porque isso ajudaria a criar uma identidade.

A MLS estrearia em 1996 e o Columbus Crew jogou suas primeiras temporadas no Ohio Stadium, usado como sede do time universitário de futebol americano da cidade, Ohio State Buckeyes desde 1922. Sua capacidade monumental de mais de 100 mil pessoas e a de algo específico para o clube de futebol, que era só um locatário do estádio, fez com que tudo parecesse distante demais. De 1996 a 1998, o Crew fez daquela a sua casa.

Depois de quatro anos e 11 meses depois, no dia 15 de maio de 1999, foi aberto o Mapfre Stadium, que se tornaria a casa do clube a partir de então. Mais do que isso, era um marco histórico: seria o primeiro estádio construído especificamente para futebol. Foi naquele dia que 24.741 pessoas assistiram a uma vitória por 2 a sobre o New England. Um estádio que marcaria uma era.

Casa da seleção americana

Mais de 21 anos depois, o Mapfre Stadium viveu não o seu último jogo, mas a sua última decisão. A vitória sobre o Seattle Sounders por 3 a 0 certamente será vista como um marco na história do clube. Dois anos antes, os torcedores estavam à beira do fim da existência do seu clube, prestes a ficarem órfãos do time que abraçaram antes mesmo de ele existir. O estádio marcou época, mas foi vencido pelo tempo. O Crew decidiu construir um novo estádio, que ficará no centro da cidade.

O Mapfre Stadium não é só a casa do Columbus Crew: é um estádio que se tornou a casa espiritual da seleção dos Estados Unidos. Nas últimas duas décadas, a seleção americana escolheu esse estádio, nessa cidade, para jogar em casa contra o México.

Sabendo que em cidades como Nova York ou Los Angeles o estádio provavelmente ficaria dividido entre torcedores para os Estados Unidos e México, os americanos usualmente escolhem Columbus como casa para enfrentar seus vizinhos do sul. Lá, os americanos criam um clima quente, apoiam incessantemente e tornam o estádio um ambiente hostil para os rivais. Foi lá, por exemplo, que os Estados Unidos conquistaram uma vitória por 2 a 0 sobre o México nas Eliminatórias da Copa de 2014, com o estádio cheio e muito barulho.

O novo estádio será também o marco de uma nova era. As obras de US$ 300 milhões estão criando um estádio para 20 mil pessoas, capacidade similar à atual, mas muito mais moderno, com camarotes, integrado a prédios residenciais e comerciais ao redor. Será mais uma forma do clube arrecadar recursos. Quando o novo estádio estiver ativo e funcionando, o atual Mapfre Stadium será convertido em um centro de treinamento do Crew.

O clube que quase acabou há dois anos agora terá uma nova casa, que deve ser inaugurada no próximo verão do hemisfério norte, entre junho e julho. Será como um sepultamento da era vivida até ali, os 21 anos anteriores e os 25 anos de clube. Mais do que isso: será o fim definitivo de uma era de Anthony Precourt como dono, responsável por quase acabar com a existência do Crew.

Renascimento e fim de uma era

Curiosamente, o estádio que foi casa da seleção americana contra o México levou o técnico da equipe, Greg Berhalter, para o comando da seleção dos Estados Unidos. Quem foi escolhido para substituí-lo foi Caleb Porter, que assumiu o time para a temporada 2019.

“Eu olho para a história quando eu aceito um trabalho”, disse Porter depois de vencer o New England na final da Conferência Leste. “Eu escolhi este trabalho porque eu gosto da história do Columbus Crew. A tradição do Columbus Crew em seu o primeiro clube, a tradição do sucesso; e eu gosto da ideia de reviver isso, revigorar, e obviamente trazendo um título aos torcedores”.

O “Save The Crew” fez mais do que salvar o clube. O movimento deu uma nova direção a uma franquia que estava perdida, não tinha uma rota, passeava pela mediocridade. A saída de Anthony Precourt e a chegada de novos donos que recriaram a ligação com a comunidade foi fundamental. Torcida, cidade, comunidade e clube se tornaram mais próximos. A equipe se tornou competitiva, aos poucos, e ganhou força.

Os 1.500 torcedores que assistam à final foram privilegiados que viram aquele time em vias de acabar há dois anos chegar a um título que não veio por acaso. Foi muito além. Mostrou um futebol consistente e competitivo na temporada que o coloca como um candidato já de cara a defender o seu título na temporada que virá a seguir. Devolveu o orgulho a uma torcida que se via abandonada. O título da MLS ganha contornos épicos para o Columbus Crew por muito além do campo.

Veja os melhores momentos de Columbus Crew 3×0 Seattle Sounders: