MLS

Acordo da MLS com a Apple é inovador e tem potencial transformador para a liga

Acordo com a Apple é histórico, será válido globalmente e pode causar um impacto na liga, mas não a ponto de concorrer com principais ligas do mundo

A Major League Soccer, MLS, anunciou um novo contrato de transmissão que pegou muita gente de surpresa. Primeiro, por quem o assinou: a Apple, que usará sua Apple TV+, mas também pelo valor e pelo formato. O contrato de 10 anos por US$ 2,5 bilhões (US$ 250 milhõers por ano, no mínimo, como explicamis mais à frente) no total é uma melhora significativa para a liga em termos financeiros, ainda que esteja abaixo até do valor que a Premier League é vendida nos Estados Unidos, mas tem um potencial muito maior do que a liga via em outros caminhos.

A audiência da MLS nos Estados Unidos é menor do que a da Premier League, razão que faz com que os direitos da liga inglesa sejam superiores à liga local. A Premier League custa US$ 450 milhões por ano à CBS, que transmite no país e é o principal produto de futebol. Os números de audiência da MLS nas TVs locais também não são excelentes, ainda que tenham melhorado. Há, porém, um fator que é crucial: o público da MLS é o mais jovem entre as ligas americanas e um dos mais abertos a inovação.

A transmissão por streaming já era uma realidade para a liga em alguns jogos pelo ESPN+, por exemplo. Agora, haverá um serviço centralizado que terá todos os jogos, acabando com os chamados blackouts, quando não há transmissão dos jogos. O serviço de streaming vendido dentro da Apple TV+ terá todos os jogos à disposição, sempre, e no mundo todo. Este é um fator importante, porque é uma forma de alcançar muita gente no mundo todo ao mesmo tempo, em um serviço único.

Acordo mais do que dobra contratos anteriores

O contrato entre MLS e Apple TV é de 10 anos, com mínimo garantido de US$ 250 milhões por ano. Mínimo garantido porque o contrato tem um gatilho no número de assinantes. Caso ultrapasse um determinado número, a Apple passa a dividir a receita desses assinantes com a MLS. Não há detalhes sobre qual é o número de assinantes necessários para disparar o gatilho e nem a porcentagem que será a divisão.

Atualmente a MLS recebe entre US$ 60 milhões e US$ 65 milhões por ano com a combinação dos atuais transmissores, ESPN, Fox e Univision. Há ainda um acordo com emissoras canadenses, de um valor não revelado, e uma quantidade pequena de dinheiro de transmissões internacionais. Tudo indica, portanto, que é um aumento significativo no valor do contrato.

O acordo tem algo que a MLS traz desde a sua criação: a inovação. O contrato com a Apple cria o que no Brasil estamos acostumados a chamar de um pay-per-view, ou PPV. Ela também acaba com todos os acordos locais, que são muito comuns em esportes americanos.

O que há de diferente é que o contrato vale para o mundo todo. Mais do que isso: há uma ideia de ir além do jogo ao vivo, com programas relacionados às transmissões, de pré e pós-jogo, mas também com boas histórias da liga. É o efeito Drive do Survive, série da Netflix que transformou a forma como a F1 é vista nos Estados Unidos. A ideia de contar mais histórias relacionadas ao futebol é um dos pontos que levou a MLS a querer a Apple e a Apple a querer a MLS.

Além dos acordos nacionais, normalmente os clubes fazem acordos com emissoras regionais para transmitir seus jogos. Isso não acontecerá mais. Esses contratos, por orientação da MLS, não podiam ir além de 2022, porque já havia planos da liga de fazer um novo modelo e um novo acordo, que culminou nesse acordo com a Apple.

As emissoras nacionais que comprarem os direitos da MLS ainda transmitirão os jogos, mas será como no Brasil jogos do Campeonato Brasileiro transmitidos por Globo e Sportv, com apenas alguns jogos transmitidos. O novo serviço dentro da Apple TV+ será uma espécie de Premiere da MLS, mas que pretende ir além de apenas transmitir jogos, como já dissemos, trazendo programas e conteúdos relacionados a futebol, de forma a engajar mais os torcedores e quem gosta de futebol.

O acordo com a Apple não elimina os contratos de TVs atuais ou impede contratos futuros. O serviço da MLS na Apple TV será um PPV da liga. Outras emissoras podem continuar comprando pacotes de transmissão dos jogos regionalmente. Há negociações em curso com as atuais detentoras dos direitos, ESPN, Univision e Fox, para renovação do contrato. Há ainda negociações com as TVs canadenses para continuarem transmitindo. A expectativa da liga é que esses acordos façam o total anual de receitas com direitos de TV chegue perto de US$ 300 milhões.

Em comparação com outros esportes, a MLS ainda está longe. A melhora, porém, é significativa, já que salta de US$ 60-65 milhões por ano para perto de US$ 300 milhões (com US$ 250 milhões garantidos). Veja como são os valores anuais dos esportes nos Estados Unidos:

LigaValores anuais em US$
NFLUS$ 10 bilhões
NBAUS$ 2,6 bilhões
MLBUS$ 1,75 bilhão
NHLUS$ 625 milhões
NascarUS$ 820 milhões
PGAUS$ 700 milhões
College Football PlayoffsUS$ 470 milhões
Premier LeagueUS$ 450 milhões
MLSUS$ 300 milhões
La LigaUS$ 175 milhões
Serie AUS$ 66,67 milhões
BundesligaUS$ 30 milhões

Impacto nos jogadores: novo contrato vai aumentar o teto salarial

Haverá um impacto nos salários dos jogadores: o Collective Bargaining Agreement (CBA) feito com a associação de jogadores prevê que os jogadores recebam 12,5% do aumento líquido de revenda de mídia acima de US$ 100 milhões. Em 2015, essa porcentagem aumentará para 25% até o fim do atual CBA, em 2027. Esse dinheiro irá direto para o teto salarial e para o general allocation money, ou o dinheiro de alocação geral, que pode ser usado por clubes para salários.

Isso significa que os salários médios na MLS devem aumentar, mas não terá impacto a ponto de um clube da MLS competir com um europeu por um talento sul-americano ou mesmo levar um talento europeu no auge para a liga. Mas se tornará um pouco mais atraente localmente, além de conseguir ter mais força para buscar talentos em mercados menores. O próximo Neymar ou Messi não irá para a MLS, mas é possível buscar jogadores que são destaques no futebol sul-americano que vão para o Oriente Médio ou iam para a China ou Japão. É algo significativo, mas o impacto será gradual e não de um dia para outro.

MLS se tornará um veículo para transmissão

Atualmente, os jogos da MLS são produzidos pelas emissoras que as transmitem localmente e esse sinal é transmitido para as emissoras de outros países que também passam a MLS. Com o novo contrato, quem fará a transmissão será a própria MLS. Ou seja: o sinal será todo produzido pela liga e vendido pronto para as emissoras. A ESPN ainda quer produzir os jogos ela mesma, isso será negociado, mas haverá uma padronização maior. O ponto principal é que a MLS se torna um veículo.

A MLS deve gastar algo em torno de US$ 60 milhões por ano para produzir os jogos, com custos adicionais no próximo ano para começar a sua estrutura de transmissão. Esses custos terá um efeito no acordo de divisão de receitas no CBA com os jogadores. A MLS será responsável por produzir todo o conteúdo dos jogos e de outros programas que irão ao ar no serviço.

Para dar conta de tudo que precisará fazer, a MLS planeja contratar entre 10 e 14 equipes de transmissão para as partidas. A liga contratará produtores, diretores e outros profissionais para produzir e transmitir cada um dos jogos. É possível que a MLS crie uma sede de transmissão, com estúdios e tudo que será necessário para a produção desse conteúdo. A ideia é transmitir os jogos em 1080p (ou seja, resolução Full HD).

A liga diz que o novo acordo permitirá maior padronização dos horários e dias de jogos, que serão principalmente às quartas e sábados. A liga acredita que ter horários mais constantes e frequentes ajuda o público, tanto para quem vai ao estádio quanto quem acompanha o time nos jogos na TV. Alguns jogos serão mudados de horário de acordo com pedidos de emissoras lineares, mas em quantidade muito menor do que acontece atualmente.

Aumento do dinheiro de TV para os clubes

No acordo anterior, eram 20 clubes que dividiam US$ 3,25 milhões entre si. Com o aumento do número de clubes para 28, esse dinheiro caiu para US$ 2,3 milhões anualmente. O número aumentará para 30 clubes em breve e o valor total nesse quesito será de cerca de US$ 7,5 milhões para cada clube. Será uma melhora, mas não a ponto de mudar completamente a MLS de patamar no mercado global.

Isso significa que os clubes terão mais dinheiro para investir inclusive nos programas de categorias de base, vistas como um gargalo importante para a formação de jogadores locais melhores. O futebol precisa ser mais atraente em salários e também com uma formação diferente dos esportes tradicionais, que usam o sistema universitário. Os clubes na MLS já tratam categorias de base como o futuro da liga, e não esportes universitários, que não funcionaram bem para o futebol.

Don Garber, comissionário da MLS, Tim Cook, CEO da Apple, e Eddy Cue, vice-presidente senior da Apple para serviços (reprodução)

O que significa para o mundo

O acordo com a Apple não fará com que a MLS se torne uma potência mundial em termos financeiros, mas melhora a situação financeira da liga, ao menos a curto prazo. O acordo de US$ 2,5 bilhões pode não ser muito em 2032, quando o acordo terminar, mas permitirá uma plataforma para que a liga se expanda, cresça, em todos os sentidos. Deve fortalecer na disputa com os mexicanos, localmente, na Concacaf, ainda que os mexicanos devam continuar mais fortes financeiramente.

Para o mundo, o que esse acordo diz é que a Apple quer entrar nos esportes com mais força. A empresa já tinha um acordo com a MLB para transmissões às sextas-feiras, por US$ 85 milhões por ano. Havia a expectativa que a Apple iria querer entrar em uma liga maior no mercado americano. A MLS se mostrou uma oportunidade interessante, porque o futebol tem um público jovem nos Estados Unidos, o esporte está em crescimento no país e há uma imensa expectativa para que a Copa do Mundo 2026 possa causar um grande impacto. Isso além de potenciais estrelas para a liga que já manifestaram interesse em jogar por lá, como Neymar e Messi.

Fica claro que a Apple quer entrar em mais serviços de esportes e a MLS se mostrou uma chance de mergulhar. Para outras ligas, certamente gera um alerta que a Apple é um dos possíveis interessados em seus produtos. As ligas na Europa estarão de olho na Apple como potencial compradora de direitos. A questão de trabalhar diretamente com streaming é algo relevante em um mercado que ainda toma forma nesse sentido. É certamente uma demonstração da empresa de Cupertino que ela está na disputa por direitos de transmissão.

Como será o serviço (inclusive no Brasil)

Não será necessário assinar a Apple TV: a assinatura do pacote MLS será à parte. Atuais assinantes do serviço também terão que fazer a nova assinatura específica do pacote da MLS para ter acesso aos jogos.

O serviço será válido mundialmente. Por isso, a MLS não está preocupada com acordos com TVs fora dos Estados Unidos por enquanto, embora eles devam continuar existindo. No Brasil, a maior parte dos jogos é transmitida pelo DAZN, que deixará de transmitir. O acordo com a ESPN, porém, pode ser mantido para alguns jogos. Para ver todos, só assinando o serviço dentro da Apple TV+.

Segundo informação do Guardian, os detentores de ingressos de temporada dos clubes da MLS terão direito ao serviço de forma gratuita, mas isso será determinado por cada clube dentro da sua venda de ingressos de temporada.

Os jogos serão transmitidos inicialmente em inglês e espanhol. Alguns jogos serão transmitidos em francês, especialmente os do Montreal. A liga planeja ter transmissões em português a partir de 2025.

Os torcedores terão a opção de ouvir uma voz local nas transmissões: poderão mutar o time de comentários da transmissão oficial e ouvir à transmissão local do seu clube pelo serviço de streaming da MLS. A ideia é que tudo seja integrado dentro do serviço, de modo a oferecer opções ao torcedor que assiste aos jogos.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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