Espanha

Por que gol de Vinicius Jr em tropeço do Real Madrid pode significar mais do que parece?

Entre vaias da própria torcida e impasse em renovação, brasileiro vive momento inusitado no clube Merengue

O Real Madrid saiu de La Cartuja nesta sexta-feira (24) com um empate amargo contra o Betis e a sensação de que LaLiga está ficando cada vez mais distante. Com o Barcelona que, mesmo sem Lamine Yamal até o final da temporada, podendo abrir 11 pontos de vantagem, o 1 a 1 foi um balde de água fria.

No entanto, para quem olha além da tabela, o gol de Vinicius Júnior aos 17 minutos entregou uma mensagem muito mais densa do que o empate em si. O ponto central não foi a bola na rede, mas o que Vini fez — e o que ele quis dizer — logo depois.

O contexto é pesado. No jogo anterior contra o Alavés, o camisa 7 viveu o impensável: foi um dos jogadores mais vaiados no Santiago Bernabéu. Para um atacante que se acostumou a ser o símbolo da resistência madridista, o “fogo amigo” deixou marcas claras.

Em Sevilha, sob o habitual clima de hostilidade da torcida rival, Vinicius marcou e não hesitou. Levou a mão à orelha provocando os adeptos locais e beijou o escudo. Foi um gesto de afirmação direcionado não aos torcedores do Betis, mas aos seus próprios.

Vini parece estar em uma queda de braço emocional para lembrar ao madridismo que ele ainda está ali, mesmo quando o clube parece já projetar um futuro onde ele não é mais o único protagonista.

O abismo entre os números e o carinho por Vinicius Jr

Vinicius Júnior tem bons números individuais na temporada
Vinicius Júnior tem bons números individuais na temporada (Foto: Gabriel Colchero / Photo Players Images / Imago)

Se olharmos friamente para as estatísticas, a crise de Vinicius Júnior soa quase injustificável. São 19 gols e dez assistências na temporada. Ele continua sendo o jogador que decide, que busca o jogo e que não se esconde atrás da má fase coletiva.

Mas o futebol de elite no Real Madrid não é feito apenas de gols; é feito de expectativas. A comparação constante com o rendimento de 2024, ano em que ele flertou com a Bola de Ouro, e a divisão de holofotes com Mbappé criaram um ambiente de cobrança desproporcional.

Essa divisão da torcida reflete dois anos sem títulos pesados no Bernabéu. A conta sobrou para Vini. O beijo no escudo em La Cartuja é o gesto de quem sabe que o terreno está instável.

Ao mesmo tempo em que a torcida o vaia por atuações abaixo do que ele mesmo estabeleceu como padrão, ele responde reafirmando uma identidade que, hoje, parece ser sua única proteção contra o processo de fritura que muitas vezes consome ídolos em Madrid.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

O braço de ferro financeiro e o fantasma das saídas históricas

Vinicius Júnior em ação pelo Real Madrid
Vinicius Júnior em ação pelo Real Madrid (Foto: Cesar Cebolla / Pressinphoto / Imago)

Se por um lado o Real Madrid enxerga Vinicius como peça fundamental para o futuro, o caminho para o novo contrato esbarra em cifras que o clube ainda não está disposto a pagar. Atualmente, o brasileiro recebe cerca de 17 milhões de euros líquidos anuais, patamar similar ao de Mbappé.

A oferta da diretoria para elevar esse valor a 20 milhões de euros não convenceu o staff do jogador, que apresentou uma contraproposta de pouco mais de 30 milhões de euros, incluindo bônus por desempenho e uma premiação de renovação — algo que os Merengues nunca concederam a nenhum atleta em sua história.

A postura rígida de Florentino Pérez não é novidade. O clube tem um histórico de priorizar a saúde financeira e a hierarquia do elenco, tendo permitido a saída de lendas como Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos justamente por não abrir exceções salariais.

O Real Madrid não quer que o vestiário seja contagiado por “loucuras financeiras”, mesmo diante da importância de Vini. Por enquanto, a excelente relação pessoal entre o atacante e o presidente garante que não haja pressa, mas o relógio corre: em janeiro de 2027, o brasileiro já poderá assinar um pré-contrato para sair de graça.

O gol contra o Betis e o subsequente beijo no escudo mostram que Vinicius quer ficar. O técnico Álvaro Arbeloa também já deixou claro que quer contar com ele “por muitos anos”. No entanto, o impasse entre o que o jogador acredita valer e o que o clube está disposto a flexibilizar mantém o futuro do camisa 7 em um estado de incerteza.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo