‘Após chegar ao Real Madrid, não queria ir para casa. Era depressão’
Da glória mundial às crises silenciosas: Varane expõe peso emocional de uma carreira marcada por pressão e falta de pausa
A carreira de Raphaël Varane sempre pareceu seguir um roteiro acelerado. Revelado pelo Lens, o defensor desembarcou no Real Madrid aos 18 anos, ainda em formação, e passou a viver uma rotina de exigência máxima. Na primeira temporada, quase não jogou. Na metade da segunda, finalmente ganhou espaço e se firmou entre os titulares. Mas essa ascensão teve um preço: em 2024, após jogar apenas uma partida pelo Como, da Itália, Varane encerrou a carreira aos 31 anos.
A maturidade precoce também escondeu um sofrimento silencioso. Em entrevista ao jornal “Le Monde”, o francês, que passou pelo Manchester United antes de chegar ao futebol italiano, revelou que os primeiros sinais de depressão surgiram justamente quando deu o maior salto da sua trajetória.
— Depois de chegar ao Real Madrid, tive meus primeiros problemas. Eu tinha 18 anos e não tinha tido uma adolescência normal. Estava sozinho, treinando o tempo todo e quase não jogando. Sentia que meu sonho estava se desvanecendo — recordou.
Segundo Varane, a concentração absoluta em campo contrastava com um vazio crescente fora dele: “Não queria ir para casa. Era depressão. Eu não estava mais curtindo nada.”
O ex-zagueiro admite que enfrentou aquele período sem dividir suas angústias com ninguém. “Para mim, esse era o preço a pagar. Pensava que era preciso passar por isso para ter sucesso”, afirmou. Entre dúvidas e medos, sentia-se preso “em uma espécie de solidão”, sem saber se deveria seguir no clube, pedir ajuda ou simplesmente suportar tudo calado.
Varane foi do auge ao desgaste emocional

A conquista da Copa do Mundo de 2018 parecia consolidar sua imagem de jogador imperturbável. Mas Varane contou que o pós-título também veio acompanhado de um colapso emocional. “Você realiza seu sonho, está no topo do futebol mundial e, então, vem a queda”.
Paradoxalmente, foi durante a pandemia da Covid-19 que o defensor conseguiu reorganizar a mente e se reerguer. “Aquele período foi muito difícil para muitas pessoas, mas me ajudou a processar tudo.”
Nos anos seguintes, um novo vilão ganhou espaço: o calendário. Varane descreve o acúmulo de jogos como um ataque direto à saúde física e mental dos atletas.
— Nove dias depois da final da Copa de 2022, joguei pelo Manchester United. Nem tive tempo de remoer a derrota. O calendário é um problema enorme. Ou você não joga a 100%, ou joga como um robô. Há mais lesões físicas e, obviamente, o impacto na saúde mental dos jogadores é significativo.
A exigência constante, segundo o ex-Real Madrid, fez parte da decisão de abandonar o futebol tão jovem. “A agenda era insana. Eu não tinha nenhuma pausa que me permitisse recuperar física ou mentalmente. O futebol é um pouco como a sociedade, com uma espécie de correria frenética. Você sempre tem que fazer mais, sempre mais rápido. É extremamente estressante.”
— Precisamos de uma pausa. Não porque não queremos jogar, mas para jogar melhor. A ideia não é fugir da competição, mas estar mentalmente preparado, porque se você continuar forçando os limites, mais cedo ou mais tarde algo se quebra.
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A última fronteira: falar sobre saúde mental

Ao comentar o tabu que ainda envolve o tema “saúde mental”, Varane descreve vestiários marcados pelo silêncio e pela cobrança para manter uma imagem de força inabalável.
— No vestiário, todos guardam suas dificuldades para si. Mostrar vulnerabilidade não significa ser fraco.
Para o francês, a lógica das redes sociais — onde só aparecem os melhores momentos — agrava a pressão sobre jogadores que lidam, muitas vezes escondidos, com crises profundas.
— Independentemente de nossas carreiras, somos, antes de tudo, seres humanos. Falar sobre isso ajuda a mostrar que os problemas de saúde mental podem afetar qualquer pessoa — concluiu.



