Espanha

Vaarwel, dhr. Ronald Koeman

Diz o bom-mocismo, o politicamente correto, das análises futebolísticas que é preciso dar apoio ao técnico. Só com tempo para trabalhar que ele poderá implementar sua filosofia e ser julgado. Por isso, a imprensa costuma ficar do lado do treinador quando é demitido. Mas não dá para ter essa postura com o Valencia de Ronald Koeman. Pelos resultados, pelo futebol apresentado, era difícil defender a manutenção do holandês. Nesse sentido, a diretoria valencianista foi bastante paciente ao trocar de técnico apenas agora.

A passagem de Koeman por Metalla foi esquecível. O Valencia tinha um time capaz de lutar pelo título espanhol (e, considerando a má fase do Barcelona e as dúvidas existenciais do Real Madrid, poderia ganhá-lo com certa folga), mas está bastante ameaçado pelo rebaixamento. Além disso, deu vexame na Liga dos Campeões (perdeu duas vezes para o Rosenborg). Só a campanha na Copa do Rei merece crédito.

Não se pode dizer que o clube não deu respaldo ao holandês. O ex-defensor do Barcelona chegou e logo encontrou um elenco bastante forte, o único da Espanha com reservas à altura dos titulares em quase todas as posições. Em princípio, Koeman achou que as más atuações sob o comando de Quique Sánchez Flores eram questão de desgaste entre elenco e técnico. Assim, tentou manter o sistema de jogo. Não funcionou.

O técnico percebeu que o problema era mais profundo. O elenco estava dividido, com alguns jogadores importantes – liderados por Cañizares, Angulo e Albelda – se sentindo incomodados com a presença de tantos reforços de qualidade. Koeman encarou a briga. Não se importou com o fato de serem símbolos do clube, jogadores de história em Mestalla, e os afastou. Uma atitude corajosa e arriscada. A diretoria concordou, a ponto de bancar uma briga judicial com Albelda para mantê-lo afastado, mesmo tendo a pressão de todo o país (o volante era titular da seleção espanhola e o período fora dos campos prejudicaria a Fúria na Eurocopa).

Koeman teve tudo à mão. Depois de vencer uma queda de braço com Cañizares e Albelda, era difícil que o holandês não conseguisse se impor contra qualquer amotinado no elenco. Era só questão de juntar o grupo de atletas que estivesse do seu lado e montar o time a partir daí. E, ainda assim, não funcionou.

O Valencia foi um fantasma no Campeonato Espanhol. Sem personalidade, sem padrão de jogo, sem confiança. Venceu algumas partidas – incluindo um 3 a 2 no Real Madrid no Santiago Bernabéu – isoladas, mas perdeu muito mais. E quase sempre com atuações pífias. Com as condições de trabalho que o técnico teve, era difícil justificar tal desempenho. Mas já se iniciava o processo de mudança de rumo.

Quando ficou evidente que os ches não sairiam da pasmaceira com Koeman, a diretoria abandonou o técnico. Até realizou algumas de suas vontades – como investir pesado em reforços como Banega –, mas foi omissa no dia-a-dia. Os dirigentes sumiram e deixaram o holandês como pára-raio de todas as críticas de imprensa e torcida. Como se quisessem desvincular suas imagens do trabalho do técnico.

A Copa do Rei era o único respiro. Em um torneio eliminatório, o time conseguiu visualizar um objetivo e teve motivação para se entregar em campo. Pelo visto, a diretoria identificou a possibilidade de terminar o ano com alguma conquista. Sorte do Valencia, que conquistou o título e pode ter salvado a próxima temporada (afinal, um lugar na Copa Uefa está garantido).

Terminada a copa, era questão de tempo para Koeman sair. Ainda havia a esperança de o título dar sobrevida ao técnico, mas isso não ocorreu. Na partida seguinte, o Valencia tomou de 5 a 1 do Athletic Bilbao e o holandês foi demitido junto com sua comissão técnica. Koeman ainda concordou, de acordo com o clube, a abrir mão de sua multa rescisória ou de receber o valor que faltava em seu contrato (que ia até 2010).

Como se fizesse um mea culpa, a diretoria resolveu voltar no tempo, como se isso fosse possível. O ex-zagueiro Voro, que atuava como dirigente, foi anunciado como técnico até o final da temporada. Seu auxiliar será José Ochotorena, que era o treinador de goleiros. A primeira atitude do novo comandante foi reintegrar Cañizares, Angulo e Albelda.

Claramente, a nova comissão técnica quer juntar os cacos e ver se dá um novo ânimo ao elenco. Respaldando as velhas lideranças, talvez se aproxime da base da temporada passada e consiga as vitórias que precisa para escapar do rebaixamento. E, na próxima temporada, começar tudo de novo.

Em relação a Ronald Koeman, fica a marca de um péssimo trabalho. Não significa que ele seja necessariamente ruim. Seu currículo – que tem passagens por Ajax, Benfica e PSV – não tem um trabalho brilhante, mas há tempo para evoluir. Por enquanto, o Valencia e suas idiossincrasias se mostraram muito pesadas para ele.

A festa está pronta

Faltam cinco rodadas, mas os 10 pontos de vantagem do Real Madrid para o Villarreal dão uma boa segurança a respeito de quem será o campeão espanhol. A convicção é tão grande que os madridistas já organizam a festa. E nem têm pudor em fazê-lo abertamente, ainda que alguém possa falar em “menosprezo aos concorrentes”. Até porque, em caso de vitória no próximo fim-de-semana e tropeço de Villarreal e Barcelona, o título é matematicamente certo.

Além dos procedimentos para a comemoração da Plaza de Cibeles, ponto de concentração das festas merengues no centro de Madri, a imprensa já projeta um eventual ‘pasillo’ (corredor de aplausos) do Barcelona caso o Real já seja campeão quando houver o clássico. Algo difícil, pois alguns catalães poderiam considerar uma espécie de humilhação.

Cerimoniais à parte, o Real Madrid está próximo ao título por ser o “menos ruim” em um campeonato de nível técnico abaixo da média. Os merengues tiveram alguns bons momentos, sobretudo no primeiro turno, e, pelo menos, venceram algumas partidas mesmo atuando mal (algo típico dos campeões). Barcelona, Atlético de Madrid, Sevilla e Valencia, que tinham nível técnico para lutar pela ponta, estiveram cronicamente mal, com apresentações melancólicas. De equipes como Racing, Villarreal e Espanyol nem se poderia esperar mais.

Para a próxima temporada, os times médios precisam reagir. Se continuar desse jeito, o futebol espanhol perderá mais espaço. A qualidade do futebol está muito baixa e os jogos são sonolentos. Mais um ano desse jeito e fica difícil argumentar que o Campeonato Espanhol é a “Liga de las Estrellas”. 

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo