Unai Emery x Jürgen Klopp: O duelo de mentes brilhantes na final da Liga Europa

A Liga Europa serve de consagração para equipes que, nesta temporada (e quase sempre nas outras), não teriam condições de sonhar com a Liga dos Campeões. É assim com o Sevilla, atual bicampeão do torneio, mas que não avançou na fase de grupos da Champions. É assim com o Liverpool, um dos maiores campeões do continente, mas que vê na decisão desta quarta a salvação de seu ano. Porém, se os clubes não estão no topo, o mesmo não pode se dizer de seus treinadores. Sevilla e Liverpool, sem muitas dúvidas, têm dois dos melhores técnicos do futebol europeu. Dois grandes responsáveis pelas campanhas, Unai Emery e Jürgen Klopp, que disputam a consagração no St. Jakob Park.
Unai Emery tenta se eternizar como o segundo comandante da história do futebol europeu a conquistar algum título continental em três anos consecutivos – repetindo, coincidentemente, o lendário Bob Paisley, vencedor com o Liverpool na Copa da Uefa de 1976 e logo depois bicampeão da Copa dos Campeões. Não é pouco, até pelo tipo de tarefa que o espanhol precisa desempenhar na Andaluzia. Mais do que manter um time competitivo, ele precisou renová-lo, especialmente diante das vendas recorrentes, naturais após as glórias. Conseguiu, e a terceira final da Liga Europa é a prova irrefutável de seu sucesso.

Volante de carreira modesta, Emery vinha de grandes trabalhos como técnico. Colocou o Almería na elite do futebol espanhol, enquanto manteve o Valencia forte, assegurando presenças na Champions independente da crise financeira e do desmanche que o clube vivia. De qualquer forma, o Sevilla representou o grande salto em sua carreira. No Ramón-Sánchez Pizjuán, mais do que acumular boas participações no Espanhol, Emery começou a brigar por taças. Recolocou o clube entre as forças do futebol europeu, mesmo que em um cenário secundário. Repetiu o feito de Juande Ramos, entre 2006 e 2007.
Ao lado do diretor esportivo Monchi, Emery conduz o sucesso do Sevilla escorado em movimentações inteligentes no mercado. Afinal, para um clube que não consegue competir financeiramente com gigantes, é preciso ter uma grande habilidade para se reinventar após as conquistas. Assim, os rojiblancos fazem fortuna com os jogadores que despontam com sua camisa, mas não perdem qualidade entre novos nomes que conseguem garimpar. Aconteceu deste jeito com Ivan Rakitic e Carlos Bacca, os grandes protagonistas nos dois últimos títulos da Liga Europa. E quem disse que o Sevilla não voltaria ao topo? Teve capacidade de reformular o time, achar outros destaques e oferecer um ambiente no qual possam se desenvolver. Vão para mais uma final.
Além disso, não se pode ignorar a importância de Emery na formação do time dentro de campo. O Sevilla se caracterizou nos últimos anos por contar com uma equipe muito sólida defensivamente e que esbanja precisão em seus ataques. Trilhou o caminho do bicampeonato desse jeito e agora pode tornar o tri real. A capacidade mental, aliás, é outro trunfo dos andaluzes. O clube se talhou para disputar os mata-matas da Liga Europa. Enfrentou situações difíceis, de pressão, clássicos, partidas que precisavam de uma virada nos últimos instantes. Ainda assim, permanecem imbatíveis desde 2013/14. Possuem um nível de confiança altíssimo para entrar em campo na Basileia e peitar o Liverpool em busca da taça.

Do outro lado, a força mental também surge como uma virtude em Anfield. Algo impensável até alguns meses atrás, quando Brendan Rodgers seguia à beira do campo. Jürgen Klopp não teve muitas possibilidades de fazer modificações no elenco, mesmo com a janela de transferências de inverno desde sua chegada. Ainda assim, a transformação dos Reds sob a sua gestão é evidente, também pela grande atuação motivacional do alemão nos bastidores. Difícil encontrar um jogador que não elogie o seu estilo de abraçar o elenco e tentar arrancar o máximo de vontade. Característica que valeu aos ingleses a vaga na final, especialmente na cardíaca eliminação do Borussia Dortmund.
O Liverpool segue com muitos pontos a se melhorar. A defesa, por exemplo, repete as fracas atuações em que expõe seus rombos. O ataque por vezes não é tão voraz. Só não dá para reclamar da falta de coração e empenho da equipe. Com um estilo de jogo bem mais vertical, veloz, os Reds redescobrem as suas forças. E tentam construir protagonistas para esta nova fase. A volta de Daniel Sturridge se faz importante precisamente para isso. De qualquer forma, o grande nome da campanha é mesmo Philippe Coutinho. O camisa 10 assumiu a missão de proporcionar o diferente, o toque de bola de qualidade. Chamou a responsabilidade em diversos momentos, em especial na atuação estonteante contra o Manchester United, em um clássico que se fez menos difícil do que se esperava por causa do meio-campista.
É nesta tecla que Klopp insistiu em seu discurso durante os últimos dias, inclusive na conversa com a imprensa. A final da Liga Europa oferece a chance para os seus jogadores tornarem-se lendas na história do Liverpool. Nomes para sempre lembrados em um dos clubes mais tradicionais da Europa. Em um elenco jovem, isso tem enorme peso. Principalmente pelo caráter emocional que o alemão costuma incutir em suas preleções. Os Reds vêm de uma campanha fantástica, eliminando três adversários cascudos nas etapas anteriores. Bater o dono da hegemonia na Liga Europa durante as últimas duas temporadas seria a cereja do bolo.
Para Klopp, em especial, o título da Liga Europa ainda teria enorme representatividade em sua carreira. O bicampeonato alemão com o Borussia Dortmund permanece como o feito mais difícil, independente do resultado desta quarta. Ainda assim, o treinador conquistaria o seu primeiro título continental. E também buscaria, em poucos meses, uma taça de peso para pavimentar o seu caminho em Anfield. Para dar sequência ao processo de renovação da equipe, diante do qual os torcedores exigem mais – especialmente a quebra do jejum na Premier League.
Por seus personagens, a final da Liga Europa se faz tão interessante. Especialmente pela oportunidade de glórias que oferece a eles. Assim será nesta quarta, quando Sevilla e Liverpool estiverem em campo no St. Jakob Park. E um dos melhores treinadores da Europa poderá acrescentar mais uma conquista grandiosa ao currículo – seja o vencedor Emery ou Klopp.



