Espanha

Um racista resolveu chamar Vinícius Júnior de “macaco” na TV espanhola e foi de uma crítica ridícula ao crime

Há uma discussão enorme na Espanha sobre as dancinhas de Vinícius Júnior ao comemorar seus gols, mas o que eram críticas ridículas virou racismo na TV espanhola no programa Chiringuito

Desde o fim de semana passado, temos visto uma imensa discussão vazia na Espanha sobre as dancinhas de Vinícius Júnior ao comemorar seus gols. O caso que despertou atenção foi na vitória sobre o Mallorca, no último domingo. Foi motivo de debate em programas espanhóis, colunas e chegou ao ápice da imbecilidade nesta semana, com uma ofensa racista ao brasileiro, algo comum em pessoas com limitações em suas visões de mundo e com baixo grau de articulação para argumentação, que precisam apelar às ofensas.

As dancinhas de Vinícius Júnior não são nada de mais, nada diferente do que já vimos tantas e tantas vezes não só no Brasil, mas no mundo. Antoine Griezmann já comemorou várias vezes com dancinhas, imitando danças do Fortnite, um dos mais populares games do mundo. Não houve críticas quando o francês comemorou assim. No caso do brasileiro, porém, virou um tópico de debate por um suposto desrespeito.

Não há nada de desrespeitoso na dancinha. Não é uma ofensa aos jogadores adversários, ou aos torcedores adversários. Há casos em que dá para discutir sobre desrespeito, quando falamos, por exemplo, de dribles como uma carretilha quando um dos times já está perdendo, a depender da situação. Isso é discutível, mas não é disso que se trata a dancinha de Vinícius.

É uma comemoração, inclusive, replicada pelo streamer Ibai Llanos. O brasileiro, que segue o streamer, comentou com “El baile sigue”, ou “a dança continua”, em tradução livre. O streamer respondeu: “Aprendi com você, quero que saiba”. Como se pode ver no vídeo do streamer, não tem nada de mais:

Não faltam críticas a Vinícius Júnior por suas danças. Algumas críticas contidas, como a de Xavi, que evitou crítica direta ao brasileiro ao dizer: “Eu comemorava com meus companheiros”. Koke, capitão do Atlético de Madrid, foi perguntado sobre o assunto, mas preferiu não polemizar.

“Se ao final do jogo marca um gol e decidir dançar, é o que ele quis fazer. Se eu entenderia ou não? Cada um tem a sua forma de ser e comemora os gols como quer. Haveria reação certamente, mais que o normal”, afirmou Koke, se referindo às arquibancadas do estádio Metropolitano, que, claro, terá a maioria de torcedores do Atlético, mandante da partida.

As coisas escalaram mesmo no programa de TV Chiringuito, famoso por seu sensacionalismo. Pedro Bravo falava sobre a dancinha de Vinícius Júnior dizendo ser um desrespeito ao adversário, que é preciso respeitar e que se ele quiser dançar, que o faça no sambódromo. Até aí, era só um comentário ridículo em um programa ridículo. Só que a coisa escalou: passou ao racismo quando ele disse que Vinícius deveria “deixar de ser um mono (macaco)”. Pedro Bravo, portanto, foi racista.

Não é surpresa que um episódio de racismo aconteça em um programa como Chiringuito, que explora o sensacionalismo ao máximo e usa um formato que, infelizmente, estamos acostumados a ver também no Brasil: debates acalorados com pessoas gritando e sempre buscando opiniões contundentes, tentando forçar a barra em todo e qualquer tópico.

Como é comum nesse tipo de programa, que os comentaristas querem ser sempre contundentes, eles acabam flertando com preconceito. Eventualmente, o flerte se concretiza. Foi o caso de Pedro Bravo, racista ao chamar o brasileiro de macaco. Não importa a justificativa que ele dê. É uma pessoa com visão de mundo estreita, circunscrito dentro da sua bolha, que fica limitado a opiniões rasas, pouco inteligentes e, eventualmente, preconceituosas. Neste caso, racista.

Os brasileiros saíram em defesa do jogador diante das críticas pelas dancinhas. Neymar foi um deles. O brasileiro recebeu um cartão amarelo absolutamente injusto após comemorar seu gol com o gesto que tem feito sempre com as mãos, mostrando a língua. Neymar escreveu “baila, Vini, baila” no Twitter ainda colocou no Instagram: “Drible, dance e seja você! Feliz do jeito que você é… Vai para cima meu garoto, próximo gol bailamos!”. Raphinha, do rival Barcelona, foi outro a apoiá-lo com uma mensagem no Instagram: “Eu quero ver dança, eu quero ver alegria. Exqueeece” (sic).

Todos são passíveis de críticas, Vinícius Júnior também, claro. Há um imenso exagero neste caso, porém. As dancinhas não tem nada de mais e o brasileiro faz isso há muito tempo. E, como já dissemos, vários jogadores fazem, não só brasileiros. Parece tudo um imenso exagero, algo que, aliás, já vimos acontecer no Brasil também.

Houve uma cruzada contra as dancinhas no Brasil e vimos diversas críticas sem sentido, tal qual já vimos com jogadores pintando o cabelo, usando brincos ou até mesmo chuteiras coloridas, se voltarmos um pouco nos anos. Não passa de um moralismo rasteiro e burro. Porque não adianta criticar Daniel Passarella por exigir que seus jogadores cortassem o cabelo, o que deixou Fernando Redondo fora da seleção argentina, e ficar criticando jogadores que pintam o cabelo, usam brincos, chuteiras coloridas ou fazem dancinhas. Ainda bem que isso melhorou, mas eventualmente ainda aparece. A quem ainda está nessa, aconselho a sair do passado. Cometer esse erro era ruim lá atrás, hoje é ainda mais ridículo.

Voltando às críticas a Vinícius Júnior, elas podem ser ridículas e as pessoas têm direito a serem ridículas e estão sujeitas a serem chamadas como tal, como estamos fazendo aqui. O que a pessoa não tem direito é de ser racista. Não é aceitável e é algo frequente. Mais ainda quando são estrangeiros, especialmente sul-americanos ou africanos, jogando no futebol europeu. Esse tipo de imbecil não pode passar impune. Racismo é crime e tem que ser punido, o que esperamos que aconteça com Pedro Brava. Cabe às autoridades espanholas agirem, porque esse tipo de comportamento é criminoso.

A Vinícius, esperamos que continue bailando, dançando e mostrando alegria, sem desrespeitar ninguém, como acontece desde o início da sua carreira. Baila, Vinícius, baila!

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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