Eliminações em casa, perdendo para times de divisões inferiores. No mesmo dia, Villarreal e Atlético de Madrid chegaram a uma situação limite, em que a crise era tão escancarada que não trocar o técnico era quase leviano. Por mais que a culpa não fossem necessariamente dos comandantes. Mas os dois clubes, pelo nível de investimento e ambições no início de cada temporada, não podiam ficar passivo a campanhas medíocres.

Apesar da eliminação e da troca de técnicos ser quase simultâneas, as crises de Villarreal e Atlético têm pouco em comum. Cada clube paga por uma sequência de fatos diferentes, e visualizá-la com clareza é o primeiro passo para tentar arrumar a casa.

O Submarino Amarillo já podia esperar uma queda de rendimento nesta temporada. O time vendeu seu jogador mais criativo, Cazorla, e não colocou ninguém no mesmo nível no lugar. O meio-campo perdeu a capacidade de acionar os velozes Nilmar e Rossi na frente. Só a ausência do meia da seleção espanhola (reserva, claro, mas isso não é demérito se os concorrentes são Xavi, David Silva, Iniesta e Fàbregas) já seria suficiente para baixar o nível do futebol dos castellonenses.

O problema é que, além da falta do armador, o Villarreal sofreu também com as contusões. Jogadores importantes como Cani, Nilmar e Rossi tiveram ao menos uma passagem pelo departamento médico. O trabalho não tinha sequência, pois a cada rodada era preciso encontrar a solução para um novo problema.

Essa série de azares tirou a confiança da equipe. O time não consegue mais se impor em campo. Fora de casa, não vence desde março, a maior seca de vitórias como visitante de toda a primeira divisão. Em casa, o desempenho é satisfatório no Campeonato Espanhol (3 vitórias, 3 empates e uma derrota), mas o El Madrigal não rendeu nenhum ponto ao time na fase de grupos da Liga dos Campeões e ainda foi palco da vexatória derrota para o Mirandés na Copa do Rei.

Juan Carlos Garrido, que estava há mais de uma temporada no clube e tinha contrato até 2014, já não sabia mais como refazer a conexão com o elenco. A apatia parecia crônica, e o próprio técnico reconheceu que esperava sua demissão assim que acabou a partida contra o Mirandés. E, por mais que Garrido tenha vivido bons momentos em Vila-Real, a diretoria não tinha outra opção.

Manzanices
Nas margens do rio Manzanares, a crise é igualmente preocupante, mas as causas são bem diferentes. De comum entre Villarreal e Atlético, só o fato de o de verão ainda ter seus efeitos. No caso dos colchoneros, não foi a perda de um jogador importante, mas dois.

Por mais que Forlán e Agüero tenham vivido seus momentos de oscilação em Madri, a verdade é que o Atlético dependia muito da capacidade de decisão de ambos. Para um time que vive há anos com problemas de confiança e incapacidade de formar um grupo homogêneo, a dupla de ataque platina era fundamental para resolver vários jogos apertados.

O Atlético de Madrid 2011/12 é um desastre anunciado. A política de contratações foi desastrada. Trouxe um bom zagueiro (Miranda) achando que os problemas defensivos era apenas questão de um nome (o sistema defensivo inteiro não funciona), um meia em fase descendente na carreira (Diego) e um atacante com preço claramente superdimensionado (Falcao García). Outros nomes, como Turan, Courtois e Adrián são promissores, mas precisariam de mais apoio para empurrar um clube tão peculiar quanto o Atlético.

Para piorar, a diretoria não foi feliz na contratação de Gregório Manzano. O técnico tem uma trajetória discreta, com alguns bons trabalhos e muitas participações medianas, quase sempre por equipes de pouca ambição. Pelo perfil do elenco montado, era mais recomendável um treinador acostumado a trabalhar com jovens, e que pudesse bancar um sistema de jogo mais aberto e ousado.

Os colchoneros ainda não venceram fora de casa neste campeonato. Compensavam em casa, até perderem as duas últimas (Betis e Albacete, este último pela Copa do Rei) e despencarem na tabela. Falcao García tem 9 gols e é um dos artilheiros do campeonato dos mortais (o que exclui Barcelona e ), mas cinco deles foram feitos em dois jogos no início da temporada. Ou seja, foram quatro gols nos 11 jogos restantes, uma média nada espetacular. Mesmo assim, ele ainda é importante para a equipe.

Diante desse cenário, é compreensível a aposta em Diego Simeone. Como técnico, o argentino tem uma carreira ainda em busca de afirmação. Tem dois títulos nacionais, por Estudiantes e River Plate, mas alguns trabalhos descontínuos. No entanto, o ex-volante tem longa história com o Atlético de Madrid. Isso pode ser importante para melhorar a relação entre o time e a torcida, além de servir de foco das eventuais críticas, aliviando a pressão sobre os jogadores.

No final das contas, Villarreal e Atlético de Madrid agiram certo. Por mais que o pensamento natural seja o de pedir tempo aos técnicos mostrarem serviço, há momentos em que a troca é a melhor opção. Nem sempre por culpa única dos técnicos, mas porque é preciso agir rapidamente. E, depois, repensar tudo para a temporada seguinte.