Espanha

Subiu no telhado

Manuel Pellegrini nasceu no Chile, foi jogador-símbolo da Universidad de Chile e treinou cinco equipes chilenas e a LDU Quito. Mas sua imagem de técnico é ligada à Argentina. Na margem sul do rio da Prata, o engenheiro foi campeão nacional por San Lorenzo e River Plate. Todo esse tempo em Buenos Aires deve tê-lo colocado em contato com um velho ditado local: “yo no creo em las brujas, pero que las hay, las hay”. É bom o comandante do Real Madrid se lembrar bem disso.

Oficialmente, tudo está relativamente bem para o treinador. O time está entre os classificados para as oitavas de final da Liga dos Campeões (e, salvo uma hecatombe, deve estar nessa situação ao final da fase de grupos) e tem apenas um ponto de desvantagem para o Barcelona no Campeonato Espanhol. Isso porque jogou as últimas partidas sem Cristiano Ronaldo, contundido. Além disso, a diretoria merengue já disse que conta com Pellegrini até o fim da temporada.

Se tudo está relativamente “encaixado”, por que há motivo para temer as bruxas? Simples: porque vários pequenos elementos dão a entender que a situação do chileno está mais que instável. E uma troca de técnico não está completamente fora dos planos madridistas.

O primeiro motivo é o futebol do Real Madrid em si. A equipe não teve grandes atuações e, pior, uma de suas estrelas (Kaká) não deslanchou. Já se fala em dependência de Cristiano Ronaldo, uma falta grave para um clube que gastou um dinheiro que não tinha para se ver novamente como onipotente. Mas isso é o de menos, considerando que o trabalho está no início e qualquer criança de cinco anos sabe que, pelas características dos jogadores, não é a coisa mais fácil do mundo colocar Kaká, Cristiano Ronaldo, Raúl e Benzema em um mesmo time.

As questões mais graves vieram nas duas últimas semanas. Começou com a derrota para o Milan na Liga dos Campeões, e se agravou com a vexatória derrota por 4 a 0 para o Alcorcón, da Terceirona, na Copa do Rei. E ficou ainda mais grave com a decisão de afastar Guti. O meio-campista teria sido insubordinado em Alcorcón e não foi mais relacionado para as partidas do Real. Pellegrini afirma que o jogador não está totalmente recuperado de uma contusão, mas quem vive dentro do clube já sabe que o técnico pretende dispensá-lo, como fez com Riquelme no Villarreal.

De fato, Guti é, sabidamente, um personagem atuante no vestiário merengue. Ele se aproveita do grande conhecimento que tem das questões em Chamartín para construir uma base de sustentação no clube, tendo um espaço até exagerado no elenco. No entanto, o fato de ser madrileno e ter surgido no Santiago Bernabéu o tornou um dos queridinhos da torcida e da imprensa. Por isso, muitos treinadores não ousavam contestar a influência do meia-volante.

Para fazer isso, Pellegrini precisa de resultados imediatos para que essa conta não lhe seja cobrada. E, por “resultados imediatos”, entenda “grandes atuações e vitórias dignas de um esquadrão”. Algo improvável diante do clima que já se cria em torno de seu nome. O Marca – muitas vezes usado por dirigentes madridistas que querem dizer algo, mas querem evitar o desgaste de fazê-lo publicamente – chegou a publicar um editorial afirmando que o chileno já fracassou em Chamartín. Como se fosse possível tamanha certeza em tão pouco tempo de trabalho. Para completar, claro, pintaram especulações de quem seria o substituto.

Juntando os cacos de informações, constrói-se um cenário pouco otimista para Pellegrini. Uma vitória contra o embalado Milan em San Siro ajudaria a desmontar os argumentos contra o chileno. Ou melhor, a começar a desmontar. Porque um bom resultado apenas não será suficiente.

Mi casa (no) es su casa

Cinco jogos, cinco vitórias, 13 gols feitos e apenas um gol sofrido. Campanha irretocável, irrepreensível. E não é do Barcelona ou do Real Madrid. É esse o retrospecto do Mallorca jogando no Ono Estadi nesta temporada. Números que permitem ao time balear ocupar um lugar na zona de classificação para a Liga Europa desde a primeira rodada (a bem da verdade, em três esteve entre os qualificados para a Liga dos Campeões) e já pintar como uma das felizes surpresas do Campeonato Espanhol.

Não há grandes segredos por trás dessa equipe, além do fato de ter um trabalho contínuo. O técnico é Gregório Manzano, no cargo desde fevereiro de 2006, quando assumiu com a missão de salvar o time do rebaixamento. Sob seu comando, os mallorquinistas apresentam campanhas consistentes, proporcionais ao nível de investimento do clube.

Nesse tempo, obter bons resultados em casa foi fundamental. Em 2006/07, os bermellones ainda penaram um pouco e caíram seis vezes em Palma de Maiorca. Na temporada seguinte, foram apenas quatro derrotas (pior apenas que Real Madrid, Barcelona e Villarreal) e a sétima posição no campeonato. Em 2008/09, outras quatro e a oitava colocação.

Para seguir nessa linha, Manzano montou uma equipe sem grandes inovações. A defesa atua em quatro, com o goleiro israelense Aouate e o lateral-direito Josemi como principais destaques, além do zagueiro Nunes, uma espécie de líder em campo. O meio-campo – também em linha, com meias abertos ligeiramente avançados – se sustenta em Borja Valero e Mario, que fica um pouco mais atrás ajudando a transformar o 4-4-2 em 4-1-3-2. Na frente, uma dupla pesada: Webó e Aduriz.

É um grupo limitado, mas que soube usar muita raça para construir resultados em casa. Como os adversários foram fracos – Xerez, Tenerife, Valladolid, Getafe e Racing de Santander –, é prudente projetar uma queda assim que times mais fortes viajarem à Palma de Maiorca. Mas os bermellones já têm a estrutura para mais uma campanha tranquila.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo