Espanha

Sem sobrepeso

O Club Atlético de Madrid, como o nome indica, tem sede na Espanha. Mas, se um observador geograficamente ignorante se atentasse apenas a como as coisas funcionam no Vicente Calderón, poderia achar que os Colchoneros são brasileiros. É um clube politicamente bagunçado, com passado de dirigentes corruptos, times aquém do potencial, pouco planejamento e, principalmente, muita suscetibilidade à cobrança da torcida.

Nesse modo passional de viver, os bons momentos impulsionam grandes feitos. E é por esse momento que o Atleti passa. O que ficou bastante evidente no modo como o time madrileno se tornou o primeiro a vencer o Barcelona no Campeonato Espanhol 2009/10. Uma equipe que jogou solta e confiante, que parece com outro espírito depois de se classificar para a final da Copa do Rei (feito obtido na última quinta, após derrota para o Racing de Santander).

Pensando na manutenção da invencibilidade, o Atlético era o pior adversário (excluindo o Real Madrid, claro) que o Barça poderia enfrentar nesta semana. Os catalães jogaram com o que tinham de melhor, o que significava meio-campo e ataque titulares, mas defesa toda desfalcada. Um problema sério quando a dupla de ataque do outro lado tem Agüero e Forlán.

Isso ficou evidente na primeira meia hora de jogo. Guardiola escalou uma linha defensiva torta, com Puyol como único titular. Ao seu lado estava Gabriel Milito, que não tem uma sequência de jogos há duas temporadas. As laterais eram ocupadas por Maxwell e Jeffren, um meia-atacante. O Atlético percebeu que um setor tão desentrosado e sem ritmo não teria como suportar jogadas em velocidade. Ainda mais porque os visitantes atuaram com linha de marcação muito adiantada.

Foi um festival de jogadas nas costas dos defensores barcelonistas. Reyes e Simão lançavam Agüero e Forlán, que tiveram várias oportunidades claras na frente de Valdés. Não fosse a boa atuação do goleiro blaugrana e uma certa displicência dos atacantes colchoneros, o clássico chegaria ao intervalo com 3 a 0. No segundo tempo, o Barcelona assentou seu futebol, passou a ter mais domínio da bola e o duelo se equilibrou. Até porque os madrilenos mostraram um certo desgaste com o ritmo alucinante do início da partida. O 2 a 1 final acabou na medida.

A vitória do domingo foi um bom sinal do que o Atlético pode fazer quando está com espírito livre. A vaga na final da Copa do Rei é importante ao clube, que volta à decisão do tradicional torneio depois de uma década. Também serve como objetivo, considerando que a Liga dos Campeões foi marcada por uma campanha tenebrosa e um retorno a ela parece inviável (ainda é possível um título da Liga Europa, mas seria apenas um bônus). Um jogo contra o Sevilla pode transformar o ano fracassado no retorno aos títuos.

No entanto, a final será só em maio (veja notas na coluna ao lado). Até lá, o Atlético terá tempo de sobra para reencontrar o lado negro da Força.

Tons de cinza

É sempre fácil e tentador determinar o fracasso ou o sucesso absoluto a alguém. É fácil, não parece que se ficou em cima do muro e encerra rapidamente a conversa. Por isso, o veredito mais comum para avaliar a passagem de Kaká no Real Madrid é “fracasso”. Afinal, ele tem sido menos espetacular, tem arrancado menos e tem feito menos gols que Cristiano Ronaldo. Mas reduzir a análise a essa comparação simplista é mau jornalismo. O brasileiro não tem sido um sucesso, isso é fato. Mas daí a decretar seu insucesso total vai uma distância.

Kaká tem sofrido mais com a adaptação tática. Em Milão, ele atuou anos como meia de armação pelo centro do campo, com possibilidade de buscar a bola na intermediária e arrancar em contra-ataques. Em Madri, isso não é possível. O esquema de jogo obriga o brasileiro a, muitas vezes, abrir pelo lado. Além disso, o responsável principal por arrancadas é Cristiano Ronaldo. O ex-são-paulino depende muito do entrosamento com o português. Quando ambos entram em sintonia, o desempenho do Real cresce muito.

Foi assim no último sábado. Mesmo sem atuação brilhante, os merengues fizeram 3 a 0 no terrível Xerez em Jerez de la Frontera. Todos os gols no segundo tempo. E, em dois, a participação de Kaká foi fundamental. No primeiro, como criador da jogada. No segundo, em tabela com Cristiano Ronaldo. O madeirense terminou a partida com dois gols e isso salta aos olhos. Mas, por trás disso, estão as duas assistências de Kaká.

No Campeonato Espanhol, o brasileiro já deu seis passes para gol de companheiros. Apenas Messi (8), Munitis (7) e Jesús Navas (também 7) foram mais prolíficos nesse quesito. No Real Madrid, o segundo colocado no ranking é Xabi Alonso, com quatro.

O melhor jogador do mundo em 2007 ainda tem muito a crescer no Santiago Bernabéu, sobretudo ao aparecer mais na frente. Mas ele não deixa de ser decisivo. E, entre o brilho do sucesso e as trevas do fracasso, há tons de cinza.

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Equipe Trivela

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