Espanha

Saudades de Villa

A Irlanda não conta. A torcida é legal, a cerveja é boa, o pessoal é divertido, os clubes de rúgbi têm dominado a Europa, o U2 é a maior banda do mundo, mas o futebol apresentado na Eurocopa merece ser descartado. E, com esse descarte, a situação da Espanha na competição merece atenção. Foi um empate duro com a Itália e uma vitória apertada contra a Croácia, sempre com atuação pouco confiável de seu ataque.

Taticamente, a Furia precisa de um homem de frente. Isso ficou evidente contra os italianos. Fàbregas começou a partida no ataque, uma função que chegou a exercer no Barcelona. Mas a seleção espanhola não é o Barcelona, ainda que o estilo de jogo seja parecido. Primeiro, porque o toque de bola do Barça é mais rápido e incisivo. Segundo, porque tem mais recursos (Daniel Alves, Alexis Sánchez) para explorar as pontas. Terceiro, porque tem Messi.

Vicente del Bosque tem dificuldade para contornar essas questões. Seu time tem uma tendência natural a centralizar o jogo, até por que a falta de Messi dá menos margem a Iniesta se aventurar pela ponta esquerda, como às vezes ocorre pelo clube catalão, por que David Silva deixou de ser um meia aberto quando trocou Valencia por Manchester e por que seus laterais são Arbeloa e Alba. Isso faz que o time jogue sem muito espaço, e acabe finalizando constantemente com marcação em cima.

Nessas condições, é recomendável ter um atacante. Não um centroavante trombador, porque ele vai travar ainda mais as jogadas. É preciso algum que saiba aproveitar as poucas oportunidades limpas que surgirem, mas também se movimente pela área do oponente para carregar um pouco os marcadores e abrir espaço para quem vem de trás. David Villa era o jogador ideal para isso, mas está contundido desde dezembro.

Aí começaram os problemas. Fernando Torres e Jesús Navas entraram bem contra a Itália porque abriram mais o jogo. O primeiro se mexeu muito, o segundo criou jogadas pela ponta (direita, no caso). Ambos obrigaram a defesa italiana a ocupar mais espaço, de uma linha lateral à outra, e a Espanha criou algumas oportunidades para virar o marcador.

Se, taticamente, a entrada de Fernando Torres parece ideal, tecnicamente não é. O Fernando Torres de 2007 seria um dos grandes nomes desse time espanhol, porque acaberia tendo um papel decisivo em várias partidas. Mas o Torres de hoje é um jogador inseguro, inconstante, cuja produção de gols caiu consideravelmente nas últimas temporadas. Aí, quando ele não está bem, o papel desse atacante se perde.

Foi o que ocorreu contra a Croácia. Torres foi uma figura nula em campo. Claro que o futebol preguiçoso do time atrapalhou, mas a bola pouco chegou ao atacante. Ele não se movimentou, não abriu espaços, não se apresentou. Nesse momento, Fàbregas entrou decidiu. Por ser meia de origem, ele tem uma tendência a voltar para buscar o jogo. No final do jogo, com a defesa croata já aberta pela necessidade de marcar um gol para se classificar, o meia teve espaço para se aproximar de Xavi. Recebeu a bola e atraiu a marcação, abrindo caminho para Iniesta se projetar, receber o lançamento na cara de Pletikosa e só rolar para Jesús Navas (adivinhe, entrando pela direita) fazer o gol da vitória.

Contra a França, a Espanha não pode ficar à mercê da boa atuação de Torres, do espaço que a defesa adversária dará a Fàbregas ou de Llorente entrar bem (aliás, difícil entender por que o atacante do Athletic Bilbao não teve chance ainda na Eurocopa). Precisa definir seu esquema e fazer que ele funcione. Caso contrário, continuará com dificuldades para transformar seu domínio da posse de bola em gols.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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