Espanha

Ruth ou Raquel?

Sneijder e Guti. Nas primeiras rodadas do Campeonato Espanhol, essa dupla mostrou enorme capacidade técnica, articulando jogadas e dando fluidez ofensiva ao Real Madrid de modo que seus torcedores não viam há muito tempo. Logo se pensou se o trabalho do técnico alemão Bernd Schuster não levaria, de fato, o Real a um futebol bonito e vencedor.

Robinho. Nos jogos contra Olympiacos, Deportivo de La Coruña e Valencia, foi um dos protagonistas. Mostrou um futebol incisivo e confiante, tomou conta de seu espaço com habilidade e vontade de assumir a responsabilidade de carregar o ataque madridista nas costas. Como um autêntico candidato a melhor do mundo que ainda não é.

Raúl. Tem um crédito aparentemente infinito com a torcida e não foge da responsabilidade. Sempre se entrega em campo quando o time precisa e tem especial inspiração quando a partida vale pela Liga dos Campeões. Fica evidente que não é um gênio como os espanhóis pintam, mas não é o peso morto que a imprensa brasileira vende.

Vendo o lado bom do setor de criação do meio-campo do Real Madrid, fica a sensação de que é um time muito forte e capaz de envolver qualquer adversário. Na Liga dos Campeões, seria uma das forças. No Campeonato Espanhol, seria suficiente para nadar de braçada, vencendo com facilidade as equipes pequenas e tendo contratempos apenas diante do Barcelona.

Seria assim se o Real Madrid pudesse sempre contar com a face boa desses jogadores. No entanto, com a mesma facilidade com que crescem e têm grandes atuações (vencer Villarreal e Valencia fora de casa por 5 a 0 e 5 a 1 é um feito admirável), eles caem em depressão criativa e o time vira um deserto de idéias.

O caso mais evidente é o de Sneijder, que teve desempenho de craque nas primeiras rodadas e, no momento, é um estorvo à equipe. O abismo que separa o Sneijder de setembro do Sneijder de novembro até motivou uma brincadeira na Espanha: o holandês teria um irmão gêmeo perna-de-pau. No começo do campeonato, o ex-meia do Ajax jogou, mas, depois, resolveu dar uma forcinha para seu irmão ruim e ninguém percebeu a troca.

Brincadeiras à parte, essa instabilidade evidencia ainda a imaturidade do meio-campo madridista. Não é necessariamente falta de experiência dos jogadores, pois todos os têm um currículo de respeito em grandes competições. A questão é a falta de amadurecimento coletivo. Não há entrosamento, não há um sistema de jogo definido e não há sequer uma seqüência de partidas. Assim, é mais difícil compensar com a tática um dia de pouca inspiração individual.

Aí, dá para dizer que a diretoria e Schuster têm parte da culpa. O alemão, na dúvida diante de tantas opções que têm em mãos para o meio-campo e ataque (Gago, Guti, Diarra, Robinho, Sneijder, Higuaín, Robben, Drenthe, Raúl, Júlio Baptista, Balboa, Saviola, Van Nistelrooy e Soldado), resolveu criar um rodízio de nomes e de sistemas de jogo (4-4-2, 4-4-2 diamante e 4-2-3-1) para ver se, na tentativa e erro, encontrava a melhor formação. Os dirigentes também são responsáveis, afinal, eles que contrataram esse batalhão de jogadores para posições parecidas.

Com o tempo, é possível que o time se ajeite e o bom futebol se torne algo mais constante. No entanto, é notório que torcida e imprensa não têm toda a paciência do mundo quando se trata de Real Madrid. As cobranças já crescem e muitos já questionam os métodos de Schuster. Não que o cargo dele esteja em risco, mas consideram que é preciso fazer algo para que os jogadores não oscilem tanto.

Menos mal para os merengues que, mesmo com alguns “irmãos gêmeos do mal” em campo, o time ainda é líder isolado do Campeonato Espanhol e, sem convencer, lidera seu grupo na Liga dos Campeões. Agora, se era para jogar um futebol não convincente, era mais prático ter continuado com Fabio Capello.

Anemia pura
Um time sem força alguma, nem para pedir ajuda, quanto mais para se levantar. É essa a sensação que passa o Betis, uma equipe tradicional, que conta com uma das torcidas mais fanáticas da Espanha e investiu pesado para fazer uma temporada mais digna que as duas últimas, quando flertou com o rebaixamento. Pois, até a 11ª rodada, o time sevilhano conseguiu, a duras penas, fazer 8 pontinhos e ficar na penúltima posição.

A última semana deixou o copo cheio, prestes a receber a gota d’água que o fará vazar. Derrotas por 3 a 0 para Osasuna (em casa) e Barcelona deixaram evidente a fragilidade endêmica do time. Não há esquema de jogo, a defesa ao oferece resistência ao adversário e o ataque é quase estéril.

Não se pode dizer que o elenco é fraco. O clube investiu cerca de € 20 milhões em reforços, montando uma base interessante, com o experiente goleiro português Ricardo (o único jogador que tem se salvado neste início de temporada verdiblanco), zagueiros como Juanito e Melli, meio-campo com Mark González, Edu e Somoza e o artilheiro argentino Pavone na frente. Pode não se um esquadrão, mas é suficiente para, com um esquema de jogo azeitado, lutar por um lugar na Copa da Uefa. Algo possível, já que o técnico é o competente Héctor Cúper, especialista em montar times competitivos com poucos recursos e talento sul-americano à disposição.

No entanto, o time tem mostrado em campo reflexos da crise institucional do clube. O sócio majoritário Manuel Ruiz de Lopera não tem mais o mesmo ânimo para comandar o dia-a-dia da equipe. Ainda que tenha desembolsado alguns milhões em reforços, sua atuação é cada vez menos marcante e as declarações de enfado se tornaram constantes. Lopera não parece ter mais paciência para lidar com as cobranças de uma torcida que não suporta ver o rivalíssimo Sevilla conquistando títulos atrás de títulos.

A desmotivação do dirigente parece ter contaminado a comissão técnica e o elenco. Cúper está apático, sem encontrar soluções para dar energia a seus comandados. Os jogadores também assimilaram a mediocridade geral, entrando em campo sem alma para buscar a saída da zona de rebaixamento.

Nesse cenário, não surpreendem as especulações de que Lopera estaria negociando a venda de sua participação (52%) nas ações do Betis para um empresário de Sevilha. O término dessas conversações pode ser fundamental para o futuro próximo do time. A venda pode dar nova motivação aos béticos. A não-venda pode acabar com as incertezas e permitir que o trabalho ganhe novo impulso. O que não dá é para ficar na dúvida, já que a equipe não pode se dar ao luxo de jogar sem se concentrar na partida em si.

CURTAS

– Depois da derrota para o Sevilla, Schuster disse que o Real Madrid foi roubado e que o fato de o árbitro Alfonso Álvarez Izquierdo ser catalão explicaria muita coisa.

– A declaração criou polêmica por colocar em dúvida a seriedade do árbitro, que supostamente estaria beneficiando o Barcelona. Schuster pode receber uma multa.

– Luís Fabiano vem mostrando mais futebol pelo Sevilla do que Vagner Love e Afonso pela seleção. Merece uma chance.

– O atacante Giuseppe Rossi, do Villarreal, se contundiu no jogo contra o Atlético de Madrid e ficará fora dos gramados até o fim do ano. Ele vinha sendo um dos melhores jogadores do campeonato.

– A vitória sobre o Almería foi a primeira do Zaragoza fora de casa depois de nove meses.

– Veja a seleção Trivela da 10ª rodada do Campeonato Espanhol: Valdés (Barcelona); Sergio Ramos (Real Madrid), Rafa (Valladolid), Licht (Getafe) e Cruchaga (Osasuna); Luccin (Zaragoza), Guti (Real Madrid), De la Red (Getafe) e Guardado (Deportivo de La Coruña); Agüero (Atlético de Madrid) e Van Nistelrooy (Real Madrid).

– Agora, veja a seleção Trivela da 11ª rodada do Campeonato Espanhol: Kameni (Espanyol); Daniel Alves (Sevilla), Coloccini (Deportivo de La Coruña) e Dragutinovic (Sevilla); Xavi (Barcelona), Keita (Sevilla), Ronaldinho (Barcelona) e David Silva (Valencia); Riganò (Levante), Morientes (Valencia) e Nihat (Villarreal).

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Equipe Trivela

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