Retorno a Malaqah

A Espanha já estava forte, comemorando a recuperação de seu território e após sete séculos de batalhas. Mas faltava uma região, ao sul de Al-Andalus. O Emirado de Granada seguia sob comando árabe, incluindo a capital Gharnatah e o importante porto de Malaqah. Apenas entre as décadas de 1480 e 1490 que os espanhóis completaram a reconquista de toda a península. A cidade portuária caiu em 1487. Levou mais cinco anos para a capital moura ceder definitivamente.
Mais de 500 anos depois, os árabes voltaram à região. Ela não se chama mais Al-Andalus, e sim, Andaluzia. O Emirado de Granada é mais lembrado pelas joias artísticas e arquitetônicas que deixou como legado. Malaqah já teve o nome latinizado para Málaga, e seu porto não provoca mais tanto interesse. A cidade foi berço de artistas como Pablo Picasso e Antonio Banderas, mas o que chama a atenção dos neomouros é o futebol.
Desde junho de 2010, o Málaga Club de Fútbol pertence ao xeique Abdullah ben Nasser Al Thani, que comprou as ações do clube de Fernando Sanz. Foi o primeiro caso de time de futebol da Espanha a pertencer a um árabe. Um caso menos explosivo do que se poderia imaginar. Ao contrário de outros milionários que resolvem comprar equipes de futebol em outro país (Abramovich no Chelsea? Shinawatra e Al Nahyan no Manchester City?), Al Thani não fez investimentos extravagantes logo de cara. Sanz (ex-zagueiro do Real Madrid e filho de Lorenzo Sanz, ex-presidente madridista), inclusive, foi mantido no clube como presidente executivo.
Agora, o momento é outro. Já se passou um turno do Campeonato Espanhol e o Málaga não fez nada que desse grandes alegrias a seu novo dono. Tem uma campanha medíocre, com apenas 17 pontos em 19 partidas. Só escapa da zona de rebaixamento porque (acredite!) Almería, Sporting de Gijón, Zaragoza e Levante conseguem estar pior (aliás, o desempenho dos boquerones contra o quarteto é exemplo de como aproveitar confrontos diretos: três vitórias – duas delas fora de casa – e um empate – também fora).
O jeito foi abrir o bolso. O técnico português Jesualdo Oliveira, contratado devido a seu bom trabalho com orçamento limitado no Porto, foi demitido em novembro. Em seu lugar foi contratado Manuel Pellegrini. A movimentação no mercado de inverno também é intensa: já foram contratados Demichelis (ex-Bayern e seleção argentina), Júlio Baptista (que chegou com ares de ídolo da torcida, provavelmente se baseando no desempenho do brasileiro no também andaluz Sevilla), Asenjo (promissor goleiro que perdeu espaço no Atlético de Madrid com a ascensão de de Gea), Camacho (jovem volante formado no Atlético de Madrid) e Maresca. Um goleiro, um zagueiro, um volante, um meia e um atacante. Ou seja, uma nova base.
Comparando o investimento ao de clubes grandes e médios da Europa, ainda é pouco. Não é o tipo de gasto que faça do Málaga uma nova potência nacional ou continental, como ocorreu com Chelsea e Manchester City nos últimos anos e, na década de 1990, com Roma e Lazio. Mas, diante da penúria que estão os clubes pequenos da Espanha é uma diferença considerável.
Obs.: se tiver alguma dúvida, é só ver quanto cada clube recebeu da TV na temporada passada. Real Madrid e Barcelona ficaram com € 140 milhões, Atlético de Madrid e Valencia receberam € 42 milhões, Villarreal levou € 25 milhões, € 1 milhão a mais que o Sevilla. Todo o resto ficou entre € 18 milhões e € 12 milhões, sendo que o Málaga estava entre os que ganharam o piso. Ou seja, usar o mercado de inverno para gastar € 2 milhões em Júlio Baptista e investir no zagueiro titular da Argentina na última Copa é um luxo que poucos times pequenos da Espanha podem se dar.
Em todo o Campeonato Espanhol, apenas o Atlético de Madrid gerou tantas notícias no mercado de inverno quanto o Málaga. Mas os colchoneros têm necessidade de reação imediata e contam com mais força econômica. Com isso, puderam contratar Elias e Juanfran. O Barcelona levou Afellay, mas soa como reforço pequeno pelo talento que Guardiola já tem à disposição. De resto, os times estão passando a janela de transferências em branco ou com uma contratação, sempre de nomes pouco extravagantes: Cicinho, Ienaga, Cejudo, Demidov, André Castro…
Com um técnico competente e um elenco acima da média dos concorrentes, o Málaga pode se livrar do rebaixamento com alguma tranquilidade. Basta fugir das pressões por grandes resultados e vencer os confrontos diretos (não é tão difícil, até porque receberá Zaragoza, Gijón e Almería em La Rosaleda). Com isso, é possível se estabelecer no meio da tabela, logo abaixo dos times grandes e médios.
Se isso acontecer, o primeiro capítulo dessa versão futebolística do retorno árabe ao sul da Espanha terá sucesso. Aí, ficará a expectativa por quais passos Al Thani tentará dar em seguida. Se ficará satisfeito com seu time médio ou tentará uma reconquista de todo o país.



