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Real valorizou o coletivo e fez por merecer a virada, que traz o Barça de volta à Terra

O pesadelo estava fresco na memória. Depois da goleada sofrida no primeiro turno de La Liga, o Real Madrid chegou ao Camp Nou bem mais cauteloso para enfrentar o Barcelona. Mas o resguardo não significava que o empate bastava. Zinedine Zidane extraiu o melhor de seu time para vencer. E a aplicação tática dos merengues acabou sendo o diferencial para garantir a vitória por 2 a 1, na primeira virada dentro da casa dos rivais em 50 anos. O técnico conseguiu anular Messi, Suárez e Neymar – todos em noite apagada. Enquanto isso, explorou a verticalidade a sua disposição. No xadrez em campo, superou Luis Enrique com certas sobras.

A partida no Camp Nou começou marcada pela emoção. Durante a entrada dos times, o Barcelona realizou uma bela homenagem a Johan Cruyff. Nas arquibancadas, um enorme mosaico se desenhou em tributo ao eterno camisa 14, enquanto os 22 jogadores guardaram silêncio no círculo central. Lembrança que voltou a se repetir no 14º minuto de bola rolando, com mais aplausos ao gênio holandês. Entretanto, dentro de campo, os blaugranas não honraram a memória.

O primeiro tempo acabou marcado pela vontade de ambas as equipes, mas sem tantas ocasiões claras de gol. Nas ameaças, Keylor Navas e Claudio Bravo conseguiram se sobressair. O Barcelona tinha a seu favor a posse de bola, mas não conseguia propor seu jogo diante da compactação do Real Madrid. No entanto, como os merengues adiantavam a marcação para apertar a saída de bola, as melhores jogadas blaugranas só aconteceram nos ataques mais rápidos. A melhor delas nascida a partir de um tiro de meta de Bravo, que Neymar passou com açúcar a Luis Suárez e o uruguaio não conseguiu completar. Do outro lado, os visitantes tentavam ser mais diretos, mas paravam nos bloqueios catalães.

A partida no Camp Nou melhorou durante o segundo tempo. Para se resguardar mais, o Real Madrid se postava no campo de defesa. Acabou tomando pressão do Barcelona, em busca do primeiro gol. Messi não abriu a contagem porque parou em defesa milagrosa de Keylor Navas, buscando o chute colocado. Todavia, instantes depois os blaugranas saíram em vantagem. Após cobrança de escanteio de Rakitic, Piqué se antecipou à marcação de Pepe e desviou de cabeça na primeira trave, balançando as redes aos 11 minutos.

A vitória parcial, entretanto, se tornou uma armadilha para o Barcelona. A pressão se cessou e o jogo ficou nas mãos do Real, que era muito mais direto nas suas ações ofensivas. Contra-atacando com muita velocidade, o time de Zidane se aproveitava das brechas dos culés na recomposição – especialmente porque o trio MSN, improdutivo na frente, também deixava exposto o meio de campo. O empate saiu aos 17, após grande arrancada de Marcelo, que muitas vezes dava vantagem numérica aos visitantes. Kroos cruzou mascado e a bola subiu na medida para Benzema emendar um belíssimo voleio, sem chance de defesa para Bravo.

Os contragolpes do Real Madrid quase sempre pegavam a defesa do Barcelona no mano a mano. Enquanto isso, a solidez defensiva dos merengues era enorme. O time de estrelas demonstrava uma consciência coletiva impressionante para fechar os espaços a partir de seu campo. À frente da zaga, o grande destaque era Casemiro. O volante (que merecerá um texto apenas para si) era o símbolo da aplicação exigida por Zidane, evitando que o trio MSN trabalhasse com liberdade. Serviu demais aos visitantes.

Durante os 15 minutos finais, o Real fez por merecer a virada, especialmente quando Jesé renovou as energias no lugar de Benzema. E ela até poderia ter saído antes, não fosse a falta discutível que o árbitro assinalou sobre Jordi Alba, quando Gareth Bale cabeceou para as redes. Por fim, não fez falta. Cristiano Ronaldo, que vinha errando mais do que o costume, cresceu no momento certo. Quase marcou um golaço com um chute forte no travessão. E, mesmo depois da expulsão de Sergio Ramos pelo segundo amarelo, o português buscou a virada. Aproveitou o cruzamento de Bale, aos 40, em belo domínio seguido de arremate fatal na saída de Bravo. Com méritos, os madridistas deixaram a Catalunha com os três pontos.

A vitória não muda tanto a tranquilidade do Barcelona na ponta da tabela. Os blaugranas têm seis pontos de vantagem sobre o Atlético de Madrid e sete sobre o Real. No entanto, há um efeito motivacional imenso para os merengues. Principalmente depois da goleada sofrida no Santiago Bernabéu, a equipe demonstrou que possui armas e inteligência para anular o ímpeto do trio MSN. Méritos de Zinedine Zidane, que conquista uma vitória para reforçar a confiança sobre o seu trabalho como treinador. A dedicação que conseguiu extrair mesmo de seus craques foi impressionante. Como deve ser, o coletivo fez toda a diferença no Camp Nou. Fim da invencibilidade de 39 jogos do Barça, que vê os rivais encarando de igual em um momento decisivo da temporada – e na expectativa de um possível duelo pela Liga dos Campeões.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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