Espanha

Como jogadores do Real Madrid com ‘muito poder’ têm sido desafio para Xabi Alonso

Atletas 'empresários' e com grandes responsabilidades fora de campo implicam nova forma de gerir o grupo para o ex-meia merengue

O Real Madrid sempre conviveu com estrelas de grande peso, dentro e fora de campo. Mas mesmo para os padrões históricos dos Galácticos, o ambiente atual no clube é distinto — e isso impacta o trabalho do técnico Xabi Alonso.

Os principais nomes do elenco deixaram de ser apenas atletas de elite para se tornarem marcas globais cercadas por estruturas profissionais próprias, capazes de influenciar decisões, gerar tensões e exigir uma gestão mais complexa do que nunca.

Xabi Alonso, em sua primeira temporada no Bernabéu, tem um vestiário que reúne Kylian Mbappé, Vinícius Júnior e Jude Bellingham, três dos dez jogadores mais bem pagos do futebol mundial. E com cada um deles carregando empresas, patrocinadores, consultores, familiares e interesses comerciais, o poder individual no clube atingiu um patamar sem precedentes.

Real Madrid tem vestiário de estrelas e ’empresas’

A renda desses jogadores extrapola em muito o salário do Madrid: Mbappé movimenta cerca de 95 milhões de dólares anuais, Vinícius, 60 milhões, e Bellingham, 44 milhões. Boa parte desse montante vem de acordos de publicidade e de um conjunto cada vez mais sofisticado de empreendimentos pessoais — investimentos, participações em clubes, empresas de mídia, aplicativos, fundações e equipes próprias de comunicação e performance.

O reflexo disso no dia a dia do clube é inevitável. Agentes, pais, gestores e consultores conversam com frequência com executivos do Madrid. Segundo o “The Athletic”, o agente de Vinícius, Thássilo Soares, por exemplo, tem trânsito constante no centro de treinamento. Pais de Rodrygo e Bellingham procuram o clube para discutir papéis, minutagem e perspectivas.

Vini Jr em partida pelo Real Madrid (Foto: Imago)
Vini Jr em partida pelo Real Madrid (Foto: Imago)

Xabi Alonso escuta, mas deixa claro que suas decisões são técnicas. Ainda assim, pessoas ligadas ao elenco descrevem ao site inglês um ambiente mais sensível e difícil de administrar do que em anos anteriores. Ficar fora do time não significa apenas perder espaço esportivo, mas impacto em contratos, visibilidade, bônus e até no sustento de equipes pessoais que dependem do prestígio do atleta.

Vinícius Júnior, por exemplo, conta com pelo menos 25 funcionários, além de tocar um instituto social no Brasil e manter participação acionária no Alverca, em Portugal. Mbappé opera por meio de empresas dedicadas a investimentos, mídia e gestão de carreira. Bellingham, com apenas 22 anos, tem aplicativo próprio, parcerias com marcas de luxo e projetos sociais.

O cenário se repete entre outros jovens do elenco, como Rodrygo e Arda Güler, todos acompanhados por equipes multidisciplinares. Até Trent Alexander-Arnold, recém-chegado, demonstra preocupação com a construção de sua marca pessoal.

O desafio para Xabi Alonso e a sombra de Florentino Pérez

Gerir esse ecossistema não é simples. Alonso reconhece publicamente que a gestão de personalidades é tão importante quanto o trabalho tático e sua relação com algumas figuras tem sido descrita como “complicada” nesses primeiros meses. Há quem considere o técnico distante, e os resultados recentes ampliaram o barulho externo.

Xabi Alonso, técnico do Real Madrid (Foto: Imago)
Xabi Alonso, técnico do Real Madrid (Foto: Imago)

Fontes internas revelaram ao “The Athletic” que o grupo atual carece de líderes capazes de unificar o ambiente, como fizeram no passado Sergio Ramos, Luka Modrić e Toni Kroos — figuras que ajudavam a sustentar a ordem em torno de personalidades gigantes como Cristiano Ronaldo.

Nesse tabuleiro, Florentino Pérez continua sendo a peça central. Ele sempre cultivou a lógica das grandes estrelas, mas historicamente faz questão de reafirmar que nenhuma delas está acima do clube. Não hesitou em confrontar figuras como Ramos e Cristiano sobre exigências salariais, e ambos acabaram saindo quando o presidente julgou conveniente.

Hoje, porém, Pérez flexibilizou algo que no passado era inegociável: os direitos de imagem. A chegada de Mbappé em 2024 abriu precedente, e negociações já afetam o caso mais sensível do momento: a renovação de Vinícius Júnior, que pede um pacote próximo a 30 milhões de euros anuais e tem contrato até 2027.

A relação entre Vinícius e Alonso adiciona outra camada à novela. O jogador teria informado a Pérez que não pretende renovar enquanto a relação com o treinador permanecer tensa. O clube, por sua vez, se mostra paciente com o brasileiro e preocupado com distrações extracampo que afetam seu rendimento.

No fim, a estrutura de poder do Real Madrid continua a mesma: as estrelas brilham, Pérez governa, mas quem paga o preço quando algo não funciona é o técnico. E gerir, simultaneamente, o futebol e o ruído de um elenco transformado em conglomerados globais é uma tarefa tão fascinante quanto ingrata.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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