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Rayo de esperança

A goleada por 5 a 1 sofrida na rodada do último final de semana para o Espanyol foi inesperada. Até a rodada anterior, o Rayo Vallecano era o time de melhor desempenho recente dentre os que se encontravam do quarto ao 11° lugar do Campeonato Espanhol e que brigavam — e desses oito, pelo menos seis ainda brigam — pela quarta vaga do país a Liga dos Campeões. Disputa essa que, com o título nacional praticamente definido em favor do Real Madrid, o vice-campeonato nas mãos do Barcelona e o terceiro lugar muito dificilmente escapando ao Valencia, tende a ser a grande atração dessa reta final do torneio — exceto, claro, a briga pela artilharia do certame entre Crisitano Ronaldo (32) e Lionel Messi (30).

Mas apesar do massacre, ao se considerar as últimas seis rodadas, os vallecanos ainda são os que mais somaram pontos (12) na sequência, e até por isso, mesmo a seis pontos da zona de classificação à LC, sonhar com a vaga não é um absurdo. Vale lembrar que a outra derrota dessa série foi “só” para o Real Madrid, em uma partida na qual os Franjirrojos jogaram melhor, mandaram bola na trave e mereciam ao menos o empate. E se o passaporte europeu não vier agora, não tem problema. Só o fato do time, recém-promovido da Liga Adelante e que estava longe da elite desde 2003, estar sobrevivendo na disputa — não só por Liga dos Campeões, mas no próprio campeonato — pode ser considerado um milagre.

O clube iniciou a temporada diante de gravíssima crise financeira. A realidade do caixa vallecano já estava ruim durante a disputa da segunda divisão, com dívidas entre 40 e 80 milhões de euros e quase um ano de salários atrasados — a ponto de torcedores terem organizado movimentos para arrecadar dinheiro e ajudar no pagamento de jogadores, garotos da base e funcionários do clube. Para complicar, em fevereiro do ano passado, a Nueva Rumasa, conglomerado de empresas (dentre as quais fazia parte o Rayo) presidido por José Maria Ruiz-Mateos, entrou na fase que antecede ao que os espanhois chamam de Ley Concursal — em linhas gerais, é quando a gestão fiscal da agremiação passa a ocorrer sob intervenção jurídica

No caso, o Rayo teria três meses para ele mesmo renegociar de dívidas entre empresas e credores. Mas a situação ainda ficaria mais complicada. Em maio, Ruiz-Mateos se desfez de quase 99% das ações dos Franjirrojos e jogou a bomba para o empresário Raúl Martín Presa. Embora inicialmente receoso, o novo dono viu que o buraco era grande demais e solicitou a entrada do Rayo na etapa seguinte da Ley Concursal, confiando que isso deixaria a adminstração mais tranquila para tocar o dia-a-dia do clube, ainda que sem a completa autonomia de outrora. E mesmo com todo esse plano de fundo e meses de salários atrasados, a equipe surpreeendeu em campo, sagrando-se vice-campeã da Liga Adelante e assegurando o acesso à primeira divisão – o que, na verdade, era a grande aposta de Martín Presa, já que a maior arrecadação de bilheteria e patrocínios poderia ser o início da escalada para fora do abismo.

A nova temporada começou tão incerta quanto a anterior se encerrou. Diversas tentativas de renegociação de salários e dívidas foram buscadas, com reduções de ordenados que chegavam a 80%. Havia o risco até mesmo de que vários jogadores e membros da comissão técnica — dentre eles o próprio técnico José Ramón Sandoval (que até chegou a pedir demissão, mas acabou permanecendo) — fossem liberados. Tudo isso semanas antes da estreia na Liga contra o Athletic Bilbao. Não a toa, pouquíssimos imaginavam que o Rayo tivesse alguma chance de escapar do rebaixamento. Aliás, havia dúvidas até mesmo das condições do clube sobreviver até o fim do campeonato.

Mas assim como na temporada anterior, se administrativamente a crise persistia, em campo as coisas caminharam muito melhor que a encomenda. Após 26 rodadas, o Rayo Vallecano não figurou uma única vez na zona de rebaixamento. Além de Sandoval, o clube manteve alguns de seus principais atletas, como o experiente meia José María Movilla e o lateral José Manuel Casado, e trouxe reforços baratos e que se mostraram eficientes. Caso, principalmente, do meia-atacante Míchu, ex-Celta de Vigo, que já marcou 13 vezes na Liga e ofuscou até mesmo nomes mais conhecidos que também fazem parte do elenco vallecano, tal qual Roberto Trashorras (ex-Barcelona) ou Raul Tamudo (ex-Espanyol).

O destino deste Rayo é uma incógnita tão grande quanto seu futuro enquanto agremiação. Considerando os seis times que virtualmente ainda brigam pela última vaga à Liga dos Campeões, os Franjirrojos vivem uma fase relativamente positiva — apesar do massacre sofrido ante o Espanyol e de não se saber ao certo o impacto do resultado nos próximos passos da equipe. Ao mesmo tempo, o calendário ainda prevê quatro confrontos diretos, sendo dois fora de casa (Málaga e Sevilla) e dois em Vallecas (Osasuna e Atlético de Madrid). Além disso, o time está longe de ser exatamente equilibrado, como mostram os 37 gols pró (quinto melhor ataque) e os 43 sofridos (terceira pior defesa). De qualquer forma, só o fato de chegar a esse momento do campeonato ciente de que seguirá na primeira divisão faz do Rayo um dos grandes vitoriosos da temporada.

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Equipe Trivela

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