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¡Rala, Kaká!

Adriano despirocou. Ronaldinho se acomodou. Robinho acreditou que poderia ser o melhor do mundo e que teria de sair do Real Madrid para isso se realizar (!). Não, isso não é uma quadrinha, J. Pinto Fernandes não foi mandado para o aquecimento e seguirá sem fazer parte dessa história. Apenas um resumo de como tombaram três lados do famoso “quadrado mágico”, vitorioso na Copa das Confederações de 2005 e irrelevante na Copa do Mundo do ano seguinte (quando um dos lados e o aclamado substituto de outro mais estavam para círculos perfeitos, geometricamente falando). Quem completava a feiticeira figura era Kaká. Bom moço, educado, religioso, instruído, dedicado, galã das menininhas, de carreira ascendente e bem conduzida. Quem diria que também ele geraria preocupações quanto ao seu futuro.

Desde que o jovem Cacá (sim, crianças, ele só trocou Cs por Ks depois que subiu ao profissional) superou uma fratura em uma das vértebras da coluna cervical e correu riscos de ficar paraplégico, ninguém mais achou motivos para se preocupar com a sua carreira. De reserva dos juniores, contando com uma mãozinha do acaso, passou a titular do time principal do São Paulo. Febre nas arquibancadas (aqui, me refiro às tietes ensandecidas, não à torcida organizada com louca obsessão por queimar os ídolos do clube que supostamente apoiam), ganhou chance na seleção. Contando com uma mãozinha de Djalminha (na verdade, com uma cabeçada), foi parar na Copa de 2002. Em um ano e meio de carreira, já era campeão do mundo.

Se saiu por baixo do São Paulo, não foi por sua culpa, por mais que alguns ainda insistam em tentar grudar nele o rótulo de pipoqueiro. Fazia parte de uma equipe muito desequilibrada, que até resolvia no ataque, mas colocava tudo a perder na defesa. Saiu por um valor baixo, mas o que se diz é que intercedeu para alertar que, se não saísse naquele momento, partiria sem deixar nem mesmo uns trocados para o clube que o formou e de quem sempre se declarou torcedor, inclusive quando não mais precisaria tentar agradar ninguém por lá. Foi para o Milan, que na época não sondava o Zé Love e, por consequência, ainda podia ser considerado um dos maiores clubes do mundo. Foi, viu e venceu. A Serie A, a Champions League, o Mundial de Clubes. Tornou-se ídolo e foi eleito o melhor jogador do planeta.

Sobreviveu à implementação da era Dunga, na qual ele e Robinho tinham companhia bem menos estrelada, embora mais batalhadora. Nesse meio tempo, dava o passo que todos esperavam ser o final para a sua consagração. Estava a caminho do galáctico Real Madrid, que pouco depois também contrataria Cristiano Ronaldo (os merengues foram o PSG daquele verão europeu), para formar uma grande equipe e ganhar todos os títulos (no meio do caminho, havia um Barcelona… um Barcelona). Chegaria empolgado para a Copa de 2010, muitos apostavam. E erraram. O início tímido no novo clube e os problemas crônicos diagnosticados no púbis fizeram com que um Kaká irritadiço e longe da sua melhor forma desembarcasse na África do Sul. Estava aceso o sinal amarelo.

Seu futuro não está em Madri

Que os atletas empresariados por Jorge Mendes têm um lugarzinho aconchegante no coração de José Mourinho, isso é inegável. Mas atribuir o fracasso de Kaká em Madri a interesses escusos do treinador português é até irresponsável. Se as razões fossem mesmo essas, por que Modric, sem qualquer vínculo com o agente lusitano, seria contratado a peso de ouro? O brasileiro fez boas partidas pelo Real, mas, por não ter conseguido uma sequência, acabou ficando de lado quando o time ganhou corpo com as chegadas de Khedira, Özil e Di María. É possível que Mourinho não seja um grande fã do futebol de Kaká, não confie em sua condição física, ou não goste da ideia de ter no banco uma sombra tão forte aos seus prediletos. Mas um treinador, por mais ranzinza que seja, tem direito a fazer suas escolhas.

Kaká teria mais sorte na sua cruzada se o Real não tivesse conseguido, enfim, superar o Barcelona. Se a diretoria merengue dá carta branca a Mourinho para decidir sobre o futuro do brasileiro, tem mais é de se preocupar com o próprio patrimônio. Portanto, é natural que exija um valor alto para negociá-lo, compensando assim o prejuízo que teve ao investir no atleta. Ainda mais se o clube interessado for um possível rival na Champions League, como o Milan (OK, finjamos que o Milan não cogitou contratar Zé Love, só assim poderemos acreditar nessa rivalidade). Nesse cenário, se alguém quiser um desconto maneiro, tem de estar instalado em um mercado alternativo. Não acho que o Real dificultaria se Kaká optasse por voltar ao futebol brasileiro ou viver dias de Beckham na MLS.

Sempre que alguém descarta a contratação do meia, argumenta que não tem como arcar com os salários que ele recebe atualmente. Quem teria condições de assumir essa conta não está no mercado à procura de alguém como Kaká. Porém, se o jogador quiser deixar o Real, não acredito que faça questão de receber o mesmo ordenado. Aceitar ganhar menos não é necessariamente rasgar dinheiro. Permanecendo encostado em Madri até o final do seu contrato, passará a ser visto como aposta de risco para qualquer clube. Seriam grandes as chances de assinar um contrato pior e mais curto do que o que conseguiria agora. Outra questão importante reside nos contratos publicitários do jogador: é compreensível que empresas percam o interesse em investir em alguém que não está mais em evidência.

2014: o Brasil é logo ali

Para retomar seu posto de ídolo global, Kaká precisa voltar a jogar regularmente. Ou seja, sair do Real. Só assim, poderá retornar à seleção, onde Ganso flopou e Oscar engatinha, e ter chances de jogar a Copa de 2014. Ficar de fora de um mundial disputado em casa é uma perda inestimável, cuja dor pode ser maior que a de desperdiçar um caminhão de dinheiro. Se Kaká acha mesmo fundamental sair por cima do Real Madrid e está disposto a se sacrificar para atingir este objetivo, está no seu direito. São tantos jogadores marionetes de empresário hoje em dia, que ele serviria como um bom exemplo nesse sentido. Mas sua insistência pode custar caro e parece ser o momento de desencanar um pouco. A questão está muito menos no que Kaká ainda pode fazer e muito mais no que ele ainda pretende alcançar.

De fora, não dá para ter certeza se Mourinho está de sacanagem, se o Real está irredutível na questão financeira, ou se Kaká está sendo teimoso demais. Talvez seja até um combo de tudo isso aí. O que dá para dizer é que, do jeito que as coisas estão, alguém sairá perdendo com a permanência do jogador na capital espanhola. Muito possivelmente, todos os envolvidos na encrenca. No sábado, a janela de transferências acordará fechada. Que a cara do camisa oito não tenha o mesmo destino. Ou melhor, que ele já esteja vestindo outra camisa.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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