Espanha

Que comam brioches?

A nação estava feliz. Milhões de pessoas nas ruas presenciando o momento histórico, dezenas ou centenas de milhões vendo pela TV no mundo todo. O Reino Unido fazia jus ao nome no final de abril de 2011, quando esbaldava orgulho ao ver o Príncipe William se casar com Kate Middleton (atual Duquesa Catarina, ou Catherine). A pompa real é eficiente para ofuscar a realidade das ruas, o dia a dia das pessoas comuns. E esse mundo se escancarou com a onda de violência nos subúrbios das grandes cidades inglesas na última semana.

A nação estava feliz. Milhares de pessoas nos estádios presenciando os momentos históricos, centenas de milhões vendo pela TV no mundo todo. A Espanha parecia o centro do universo futebolístico no final de abril de 2011, quando esbaldava orgulho ao ver seus dois maiores clubes se enfrentarem em uma série espetacular de duelos por Campeonato Espanhol, Copa do Rei e Liga dos Campeões. A pompa dos clássicos é eficiente para ofuscar a realidade das ruas, o dia a dia das pessoas comuns. E esse mundo começa a se escancarar agora…

Esqueça Barcelona, esqueça Real Madrid. Ambos vivem em um mundo de fantasia, com dezenas de milhões de euros para gastar em contratações, estádios lotados, a mídia babando para explorar suas imagens, conquista do mercado internacional, olhos simpáticos dos governantes. Esse não é o futebol espanhol no sentido literal do termo. Não porque se tratam de apenas dois dos 18.190 clubes filiados à RFEF, mas porque não é esse futebol que reflete a Espanha de 2011. A Espanha de hoje é um país com dificuldades para fechar suas contas, que lamenta os gastos públicos exagerados dos tempos de bonança e que sabe que os cadernos de economia pelo mundo só não falam de sua crise com mais constância porque Grécia e Portugal conseguem estar em situação mais crítica.

O futebol espanhol faz água por todos os lados. Quem acompanhou a pré-temporada percebeu que Atlético de Madrid, Valencia, Villarreal e Sevilla (clubes que, ao lado do Athletic Bilbao, formam o segundo escalão de La Liga) jogaram sem nenhum patrocinador em suas camisas. Eles não conseguiram encontrar quem topasse pagar cerca de € 7 milhões (R$ 16 milhões) anuais, valor que consideram adequado para o nível de investimento que precisam fazer no elenco. Não conseguem porque o país vive uma crise e poucas empresas estão dispostas a esse investimento. Muito clube tradicional se vê obrigado a aceitar migalha. O Athletic Bilbao recebe € 2,1 milhões (R$ 4,8 milhões) da Petronor, enquanto a Real Sociedad fica com apenas € 1,2 milhões (R$ 2,8 milhões) do governo de Guipuzcoa.

A receita de televisão também não ajuda. Como, na Espanha, cada clube negocia individualmente seus jogos (mais ou menos como no Brasil a partir de 2012), a diferença entre grandes e pequenos é pornográfica. Em 2010, Málaga e Sporting de Gijón receberam apenas € 12 milhões. Como comparação, o valor é semelhante ao que a Globo prometeu pagar a Vitória, Sport e Goiás (times de tradição, mas que estão na Série B) no próximo contrato de transmissão.

A posição frágil diante das TVs é tão grande que a liga anunciou que vai realizar rodadas com até nove faixas de horários diferentes, para que as emissoras possam transmitir quase todos os jogos. Bom para elas, péssimo para os torcedores. Como as partidas terão horário definido com apenas dez dias de antecedência, fica difícil de as peñas (organizações oficiais que congregam torcedores de uma equipe fora de sua cidade) organizarem viagens. Até a Liga ACB, de basquete, reclamou, porque sua faixa de horários será invadida pela do futebol.

Enquanto isso, Barcelona e Real Madrid vivem em um mundo à parte. Como são equipes de repercussão mundial, conseguem patrocinadores de fora da Espanha que buscam mostrar suas marcas para fora da Espanha. E, ainda assim, ambos foram buscar patrocínios, digamos, não-convencionais. O Barcelona fez acordo com uma fundação ligada ao perdulário governo do Catar e o Real com um site de apostas. Em relação às TVs, os dois gigantes não têm do que reclamar: cada um recebe € 140 milhões (R$ 323 milhões) anuais.

O último foco de vazamento foi a relação trabalhista. Os jogadores entraram em greve e ameaçam atrasar o início do campeonato (previsto para o próximo fim de semana) se algumas questões não forem resolvidas. O pedido principal é por garantias aos atletas, que ficam desprotegidos caso seus clubes atrasem salários. E não faltam casos. Hoje, vinte clubes – sete da primeira divisão: Betis, Granada, Mallorca, Racing de Santander, Rayo Vallecano, Real Sociedad e Zaragoza – estão sob intervenção judicial por problemas financeiros profundos. O Rayo Vallecano, aliás, ameaçou demitir a comissão técnica e alguns jogadores se eles não aceitarem redução salarial.

No total, cerca de 200 jogadores profissionais espanhóis estão com salários atrasados, o que dá uma dívida somada de € 50 milhões por parte dos clubes. É bizarra a comparação: o futebol espanhol pode entrar em greve por pendências com valor total menor que o gasto pelo Barcelona para contratar Fàbregas (€ 40 milhões) e Alexis Sánchez (€ 26 milhões), dois jogadores que talvez sejam reservas durante a temporada. É esse o nível de abismo entre grandes e pequenos na Espanha. Os pequenos podem falir por valores que os grandes gastam em atletas que não são de primeira necessidade.

A paralisação convocada pelos jogadores talvez não tenha efeito profundo e não atrase o início da temporada. Mas o fato de jogadores importantes como Casillas, Puyol e Xabi Alonso participarem do movimento simboliza a necessidade de Real Madrid e Barcelona deixarem de viver em uma bolha, protegidos de uma crise que pode implodir La Liga. A questão não são os salários atrasados, mas todo o sistema financeiro do futebol espanhol. Até agora, como está tudo bem para os dois gigantes, os outros que se resolvam. Era o pensamento de Maria Antonieta ao mandar o povo francês deixar os pães de lado e comprar brioches. E talvez fosse o da Família Real inglesa ao achar que uma festa de casamento mudaria o astral de uma nação.

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Equipe Trivela

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