Tem muita coisa que a Fifa não trata da maneira mais séria possível. O aliciamento de atletas menores de idade, ao menos, ela trata. A punição ao Barcelona na janela de transferências foi a primeira atitude exemplar neste sentido. E a entidade internacional continuou sendo implacável na Espanha. Nesta quinta, anunciou a suspensão de Atlético de Madrid e Real Madrid. Os dois gigantes da capital não poderão registrar jogadores ao longo da próxima temporada, por terem violado a legislação sobre a transferência e o registro de jogadores menores de 18 anos. Segundo o anúncio da Fifa, as investigações se desdobraram entre 2005 e 2014. Ambos ainda apelarão nos tribunais esportivos.
A suspensão, entretanto, não vale para a próxima janela. Como a decisão só foi tomada após a abertura do mercado, Real e Atleti seguem livres para contratar até o final de janeiro, com a punição válida para os dois períodos de transferências em 2016/17. Anúncio que, aliás, deve influenciar a atual postura de ambos os clubes em busca de novos nomes. O planejamento não pode ser de apenas seis meses, mas de um ano e meio. E justo um futuro próximo que se apontava como primordial para ambos os madrilenos.

Por sua própria política de contratações, empreendida com mais intensidade sob o comando de Diego Simeone, o Atlético de Madrid já tem investido em jovens jogadores para o time principal. Nomes que tendem a evoluir nos próximos anos e provavelmente segurem as pontas em 2016/17. O meio-campo e o ataque estão bem servidos com Luciano Vietto, Ángel Corrêa, Yannick Ferreira-Carrasco, Oliver Torres e Matías Kranevitter. Nomes promissores, que chegaram agora e não devem sair tão já do Vicente Calderón. A preocupação se concentra mais sobre o grande protagonista colchonero, Antoine Griezmann.
Voando ainda mais desde que chegou a Madri, o atacante francês é fortemente sondado por outras equipes europeias. Por isso mesmo, o Atlético agiu de maneira providencial durante esta semana, aumentando o salário e a multa rescisória de seu artilheiro, de € 80 milhões para € 100 milhões. Uma movimentação essencial para tentar segurar o craque por um ano a mais e, se vendê-lo, ter montante suficiente para novos investimentos de peso. Outra preocupação seria Diego Godín, que afirmou recentemente que nunca deixará o Calderón. Neste momento, por mais que o elenco de Simeone possua as suas carências, a tendência é mesmo a de manutenção, especialmente porque há margem para amadurecer com as atuais alternativas.
A interrogação maior, no entanto, se incide sobre o Real Madrid. Florentino Pérez sempre fez do mercado de transferências a sua grande plataforma política. E, diante do clima não muito bom durante o primeiro semestre, as indicações davam conta de uma reformulação mais intensa a partir dos próximos meses. Talvez não seja o momento. Ou os merengues investem alto nestes últimos 15 dias de mercado, o que não parece tanto o caso (até pela inflação que costuma rondar as negociações de janeiro, mais “emergenciais”), ou apostam de maneira mais firme no projeto empreendido por Zinedine Zidane rumo a 2016.

Um ponto importante se colocará diante da própria motivação do elenco. Manter os anseios dos jogadores, independente do desfecho da atual temporada, será importante. E, ao menos por sua estreia, Zidane já se mostrou capaz disso. O Real Madrid possui um elenco qualificado como poucos no mundo, e jogadores que conseguem render em alto nível sem muitos problemas por mais um ano e meio. Por isso, talvez seja preciso também trabalhar o protagonismo de outros talentos da equipe, como James Rodríguez ou Gareth Bale. O coletivo precisa se fortalecer neste momento.
É possível acertar transferências para que só aportem em 2016/17. Neste momento, contudo, a prioridade deveria mesmo ser arredondar o grupo atual. E também aproveitar a chance de aproveitar melhor as categorias de base merengues. O Real Madrid conta com um bom sistema de canteras, mas que acaba sendo mal aproveitado pelo time principal e se desdobra em alguns talentos perdidos em outros times. Com a margem do embargo, é possível realizar mais aberturas para compor o elenco. Dani Carvajal, por exemplo, não precisaria ir ao Bayer Leverkusen para só depois (a custo de alguns milhões) estourar no Bernabéu.
Neste sentido, um nome se faz ainda mais primordial no Real Madrid: Cristiano Ronaldo. A dinâmica dos blancos em campo dependem bastante do camisa 7, além da liderança que desempenha. As graduais mutações táticas do atacante influenciam de maneira relevante a montagem da equipe. E, em um período sem contratações para afinar esse encaixe, pode determinar ainda mais o papel de seus principais companheiros em campo. Assim, o senso coletivo precisa prevalecer.
Obviamente, nem tudo deve ser tão radical em ambos os lados de Madri. Basta vez o que aconteceu com o Barcelona. Em 2014, os blaugranas pediram uma suspensão cautelar do embargo e a Fifa concedeu. Aproveitaram para realizar oito contratações, algumas delas primordiais na conquista da Tríplice Coroa na temporada passada – incluindo Luis Suárez, Rakitic e Bravo. Além disso, Real e Atleti ainda podem resgatar nomes que estão emprestados, a exemplo de Lucas Silva e Guilavogui. Mesmo assim, os dois clubes precisam ter consciência do cenário mais extremo que pode se desenhar: perdas importantes que não poderão ser repostas de imediato. As dificuldades do Barça com o ataque no último semestre servem de parâmetro.



