Espanha

Protagonista

Chamar Marcelo Bielsa de louco é algo tão automático que se faz repetidamente, mesmo sem refletir no assunto. Por exemplo, só um louco daria de ombros a uma proposta da Internazionale e, semanas depois, aparece como treinador do Athletic Bilbao. Será mesmo? No País Basco, o argentino não chega apenas para pegar um time que conquistou tudo há dois anos e vai dragar qualquer um que não seja José Mourinho, mas recebe um projeto de um clube que tenta se estruturar para voltar a ser grande.

Acontece mais coisa que no Athletic do que simplesmente trocar o técnico. Se fosse apenas esse o caso, não haveria motivos para tirar Joaquín Caparrós, que fez um trabalho muito competente para recuperar a identidade do clube e recolocá-lo na primeira metade da tabela. Mas a ideia de Josu Urrutia (meia do Athletic de 1988 a 2003 e eleito presidente dos leones no último dia 7) era criar um sistema de trabalho que desse uma personalidade ao time, inclusive no estilo de jogo.

Todo mundo no Bilbao já sabe que a chegada de Bielsea significa uma mudança de filosofia. O futebol duro, de força física e raça que tanto caracteriza o futebol basco, dará lugar – ou se somará – a um mais rápido e leve, que marque saída de bola do adversário e tome a iniciativa sempre. Também é possível que o 4-4-2 ou 4-2-3-1, esquemas mais populares na Europa, dêem lugar ao 3-3-1-3 (que vira 3-3-3-1) que o argentino tanto adora.

Obs.: Seria o terceiro time de médio porte em liga importante da Europa a usar três zagueiros. Na temporada passada, Napoli e Udinese o fizeram com grande sucesso. Poderia ser um retorno a esquemas com trio defensivo, algo hoje ridicularizado por muitos analistas europeus.

Não é só isso que muda. Além de Bielsa, Urrutia anunciou a contratação de José Ángel “Cuco” Ziganda, ex-atacante do Athletic que, como técnico, levou o Osasuna a uma semifinal de Copa Uefa, como treinador do Bilbao Athletic (o time B). Na prática, isso significa que Ziganda será o comandante do trabalho dos leones na base, e o responsável por aplicar a filosofia do argentino nas diversas categorias. A ideia não é necessariamente fazer que todas as equipes tenham o mesmo esquema tático, mas que se organizem de acordo com a mesma filosofia, de tomar a iniciativa e ser agressivo.

Toda a proposta faz sentido. O Athletic, por não aceitar jogadores sem raízes bascas, tem obrigação de desenvolver seus atletas se quiser permanecer na primeira divisão. Ao seguir o modelo do Barcelona, de casar o trabalho de cima a baixo, tem mais chances de criar um sistema sustentável, que alimente o time principal. Entre os destaques da próxima geração de leones estão Ruiz de Galarreta, Serantes, Goti, Eizmendi e Azkona.

É um trabalho de longo prazo. Bielsa é um sujeito de personalidade forte e trabalha em um método quase utópico, abrindo poucas concessões. Para dar certo, Urrutia precisará ter paciência no início. O argentino sabe disso. E sabe que, em Bilbao, a chance de haver esse tempo de adaptação é muito maior que em Milão. Por isso escolheu o Athletic, uma escolha bem pouco insana.

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Equipe Trivela

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