Espanha

Por favor, falem de mim

Em época de mercado, o Real Madrid parece uma feira. Pelo menos na visão da imprensa madrilena. Qualquer um que passa pela frente é possível cliente. Daí, é só questão de fazer o negócio. Simples assim. Então, não é de se estranhar que tudo quanto é jogador entre na lista de possíveis reforços dos merengues. Nesse verão, os nomes mais citados são Cristiano Ronaldo, Drogba, Villa, Huntelaar e Van der Vaart.

Esse cenário não é nada novo e quem vive em Chamartín já está acostumado a ele. Ou deveria, se quer sobreviver. Por isso, é muito estranha a reação de Robinho à suposta falta de consideração da direção madridista. Tudo porque o clube quer contratar Cristiano Ronaldo e teria oferecido o brasileiro como parte do pagamento ao Manchester United.

Wagner Ribeiro, empresário do ex-santista, reagiu energicamente. Disse que Robinho está no mesmo nível do português e que não faria sentido utilizá-lo como contrapeso na negociação. Com todo o respeito ao brasileiro, trata-se de um delírio. Não há como equiparar os dois jogadores. Cristiano Ronaldo talvez seja o melhor jogador do mundo neste ano, enquanto que Robinho ainda não consegue continuidade em Madri. Vive grandes momentos, em que carrega o time nas costas. Depois, some e vai – corretamente – para a reserva.

Para mostrar força e fazer uma chantagem com o Real, Ribeiro pediu aumento a seu cliente e diz que negocia com o Chelsea. Seu álibi seria a presença de Felipão no comando do clube londrino. Pode até ser verdade que tal negociação esteja em andamento, mas ela mais prejudica do que ajuda Robinho.

Primeiro, porque cria uma grande animosidade entre o jogador e o Real Madrid. Caso permaneça em Chamartín, o brasileiro não terá um clima dos mais amistosos. Até porque claramente está “forçando a barra” com argumentos frágeis. O segundo motivo é simples: pelas características físicas e técnicas, é difícil imaginar Robinho tendo sucesso em um grande clube inglês.

Tudo parece muito estranho. Até porque a reação de Robinho e seu empresário é desproporcional ao suposto “desprestígio” do Real. Há exato um ano, o clube contratou Sneijder, Robben e Saviola e recebeu Júlio Baptista de volta de empréstimo. Para Robinho, esse seria um sinal de falta de confiança do clube em seu futebol. Mas, na época, o brasileiro aceitou a concorrência.

É difícil imaginar que Wagner Ribeiro e seu cliente não saibam de tudo isso. Desse modo, é viável acreditar que todo esse movimento é blefe ou uma tentativa de colocar Robinho como craque mundial nas manchetes da imprensa européia.

Opção conservadora

Depois de duas semanas acertando detalhes do que sempre foi dado como certo, a federação espanhola (RFEF) acertou com Vicente del Bosque para ser o novo técnico da Fúria. Como o nome do ex-madridista já era mencionado com força desde a comemoração do título da Eurocopa, não se cogitaram outros treinadores. Assim, o debate em cima da escolha de El Bigotón foi escasso.

Claramente, a RFEF tomou um caminho mais seguro. Del Bosque foi, por anos, visto como um técnico de segundo nível. Eterno auxiliar do Real Madrid, assumiu duas vezes como tampão (em 1994 e 96), aproveitando a saída de algum colega e a demora para a chegada de outro. Essa imagem acabou em 1999, quando o Senhor Cara de Batata (esse é um dos apelidos dele, sério) foi efetivado para o lugar de John Toshack e conduziu os merengues ao título da Liga dos Campeões.

Foi o auge a era dos galácticos. Del Bosque ficou em Chamartín até 2003. Neste período, o time conquistou um título mundial e dois da Liga dos Campeões e do Campeonato Espanhol. Nunca a equipe que tinha Zidane, Ronaldo, Figo, Raúl e Roberto Carlos jogou tão bem.

O treinador foi demitido um dia depois da conquista do título espanhol de 2002/3. Não havia muita justificativa técnica, o que deixou a sensação de que se tratou de uma decisão política de Florentino Pérez. De certa forma, isso foi positivo para Del Bosque, que terminou sua vitoriosa passagem em alta, com a imagem intacta de excelente gerente de vaidades e técnico hábil em fazer as estrelas brilharem sem que atrapalhasse o desempenho coletivo.

Esse perfil atraiu a RFEF. Depois de a Espanha (finalmente) conquistar um torneio importante, a entidade considerou interessante contratar um treinador discreto, que desse espaço para um time talentoso jogar sem se preocupar em mudar o rumo do atual trabalho. Até faz sentido, mas pode ser perigoso.

Partindo do princípio que o próximo desafio da Fúria é a Copa do Mundo, talvez seja muito pouco. Um técnico mais experiente poderia dar mais suporte para a Espanha, que deverá chegar à África do Sul (já supondo que passe das eliminatórias) como uma das candidatas ao título. De qualquer modo, o clima de euforia após o título da Eurocopa justifica uma escolha conservadora.
 

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Equipe Trivela

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