Espanha

Pjanic diz que Koeman o desrespeitou no Barcelona: “É um treinador muito, muito, muito estranho”

Após uma única temporada em que atuou muito pouco na Espanha, o bósnio de 31 anos aceitou uma redução salarial para ser emprestado ao Besiktas

Miralem Pjanic foi questionado, à queima-roupa, se acredita que foi desrespeitado em sua passagem frustrada pelo Barcelona e respondeu que, sim, o foi, pelo treinador Ronald Koeman, com quem está bastante irritado, especialmente pela falta de comunicação sobre os motivos que levavam o holandês a não escalar o bósnio com frequência. Pjanic aceitou baixar o seu salário para ser emprestado ao Besiktas por uma temporada na última quarta-feira porque quer voltar a jogar futebol.

Em um ano como meia do Barcelona, Pjanic disputou 19 rodadas de La Liga, somente seis como titular, e o seu total de minutos pela liga nacional – 619 – dá cerca de sete jogos completos. Curiosamente, começou todos os jogos da fase de grupos da Champions League, antes de voltar à reserva para o mata-mata contra o Paris Saint-Germain nas oitavas de final.

Quando perguntava a Koeman o que estava acontecendo, o que poderia melhorar, a resposta do treinador é que estava tudo bem, mas logo em seguida ele voltava a ser preterido. Agora que saiu temporariamente para dar uma arejada, soltou os cachorros em entrevista ao Marca. Ele tem contrato com os blaugranas até 2024.

“Mesmo agora, eu não sei o que ele queria exatamente”, afirmou. “Não tentou me explicar as coisas ou encontrar uma solução. Era eu quem ia perguntar o que ele queria de mim, desta posição, o que estava fazendo mal ou bem, para me adaptar mais rápido dentro do time, para ser útil. Você precisa de 17 ou 18 jogadores para ganhar títulos. Mas, para ele, não havia problemas no meu jogo, não me dava respostas. O tempo passou, a situação piorou, mas sem motivos. Como disse, eu estava me comportando bem, muito profissional. Era uma coisa difícil de entender. Havia muitas pessoas e ninguém entendia o que estava acontecendo”.

“Apareceu esta oportunidade (Besiktas) e eu quis escutar. Quero jogar, estou seguro da minha qualidade. Sei muito bem o que posso dar a um time, mas, claro, preciso de confiança, diálogo, que me digam as coisas na cara, o que nunca me foi dito. Eu prefiro que me digam as coisas diretamente, mas é o que é. Foi uma forma de se comunicar muito estranha. É a primeira vez que vivi isso. Nunca tive problemas com nenhum time, com nenhum treinador, creio que tenho muito boa relação com todos os treinadores. Não sei o que aconteceu. Sinceramente, não sei o que aconteceu. (Ele) Não queria responsabilidade, não queria conflito, porque seguramente não sabia administrar isso”.

“Minha situação foi complicada desde o início. Cheguei duas semanas depois do resto. Comecei a treinar pouco a pouco, para me preparar com o preparador físico e ir entrando no time com os companheiros. E nada. Passam dois, três, quatro, sete, dez dias, e o treinador nunca veio falar um pouco do que pensava para a temporada, de mim, simplesmente para conversar, para me introduzir dentro da equipe, como faz o resto. Muito estranho, mas ok. Era apenas o começo, tranquilo, estou trabalhando, quero lutar para jogar, para entrar bem. E nada. O tempo passava, começo a jogar um jogo sim, um jogo não, um jogo sim, um jogo não. Estava muito bem, jogando meus jogos, mas, claro, queria mais, dar mais ao time”.

“Sou uma pessoa que sempre quer o máximo e dar mais. Há um ponto em que vou jogando menos e a coisa vai se complicando. E quando jogo, é difícil física e mentalmente estar bem porque minha confiança está morrendo porque não tenho comunicação com ele. Era muito estranho porque não sei, um treinador é quem diz quem joga e quem não joga, mas há maneiras diferentes para fazer as coisas. Sou um jogador que pode aceitar tudo, mas gostaria sempre que me dissessem as coisas na cara. Não como se nada estivesse acontecendo e eu tivesse 15 anos. Lutei até o fim, fui profissional com os rapazes, sempre trabalhando para estar bem, também para eles, para que se preparassem bem para as partidas. Sabia que se o técnico ficasse eu teria que encontrar uma solução”.

E continuou, dizendo que não era um problema tático, poderia jogar em qualquer posição, mas Koeman não tentou encontrar um espaço para ele. Na Juventus, ele era o primeiro volante, começando a construção do jogo ofensivo, como faz Sergio Busquets pelo Barcelona. “É o que todos me perguntam, querem saber por que, mas eu também quero saber. Nunca falou comigo se queria ou poderia jogar com dois volantes, ou se queria jogar à frente da defesa, de 5, como faz Busquets e eu fiz nos últimos quatro anos. Com dois volantes, cheguei à final da Champions com Sami Khedira. Joguei em todas as posições, mas ele nunca me viu em nenhuma. Não tive uma posição clara. Foi realmente… eu entrava às vezes cinco minutos, dez minutos, ou aquecia 45 minutos e não jogava. Nunca passei por algo assim. Não era fácil. Tinha que ser duro, lúcido, porque às vezes você pode reagir mal com ele, assim é o futebol”.

“Mas sempre fui muito respeitoso, diante dele e também com meus companheiros. A qualquer jogador que pergunte lhe dirá que sempre treinei bem, trabalhava, ia nos dias de folga para não perder a forma. Era muito difícil aceitar. Esperei até o fim para tentar mudar as coisas, mas nada”, afirmou Pjanic, que não disputou nenhuma das três rodadas do Barcelona nesta temporada. “Joguei todos os jogos da Champions, chegava La Liga e fora. Assim foi muito difícil entender o que o treinador queria de mim. Eu perguntava, ‘mister, estou fazendo algo errado, minha atitude está ruim, o que quer exatamente de mim’, para perguntar o que poderia fazer. Pode ser que ele queria outra coisa, é normal, mas tem que ser comunicado, pelo bem do time. ‘Não, não, ‘Mirem’, é só rotação, não tenho nenhum problema, sua atitude é boa’. Bom, ok, mas depois me deixava ainda mais tempo fora. Não entendia por quê. Acredito que poderia ser um bom jogador, mas também um bom companheiro para o time. Tenho uma atitude profissional. Trabalhava nos dias de folga, às vezes corria após os treinos para ficar bem. Eu podia dar muito mais se ele quisesse. Mas é um treinador muito, muito, muito estranho. É a primeira vez que vi uma gestão assim”.

Pjanic afirmou que era sempre ele que ia atrás de Koeman para tentar entender o que estava acontecendo. A única conversa iniciada pelo holandês foi no começo desta temporada. “Ele apenas perguntou minha situação, como eu estava, e eu disse ‘mister, quero jogar, se acontecer algo no mercado, entendo a situação do clube e tudo, mas eu quero jogar, amo futebol, quero jogar, ser feliz, mas se não encontro nada, porque o mercado está muito complicado, com Covid-19 e tudo…’. Ele me respondeu: ‘sim, você vai brigar como todos’. E eu disse que sim, vou brigar como todos. Penso assim. E três ou quatro dias muda o que ele disse, sem motivo. Não teve nenhuma discussão comigo, nunca aconteceu nada de ruim entre nós, nem no treino, nem individualmente. É que não tenho nenhuma explicação para contestar essas perguntas. Eu vim da Serie A, com quatro títulos italianos, uma final de Champions, 100 jogos na Champions League. Tinha experiência e sei o que posso fazer. Não sei o que dizer. Foi como eu falei. Não era fácil, mas encontrei uma situação para mim. Gosto muito do futebol, quero jogar, como fiz todos esses anos”’.

Uma hipótese levantada por Pjanic é que Koeman ficou incomodado quando o bósnio afirmou, em dezembro, que não entendia por que não tinha mais tempo em campo pelo Barcelona. “Eu sinceramente me perguntei muitas vezes, pensando no que eu fiz de errado. Pode ser que ele não gostou quando eu disse na imprensa que queria jogar mais. Mas qualquer treinador diria ‘ok, ele é competitivo e gosto que diga algo assim’. Pode ser que seja isso, ou simplesmente que ele não gosta de mim. Mas eu gostaria que tivesse me dito na cara. O cara a cara não existiu e não entendo. É complicado porque é a primeira vez que isso aconteceu comigo e que eu vejo um comportamento assim. Eu nunca falei dessas coisas, mas acredito que é importante que se saiba o que realmente aconteceu. Depois, cada um tem sua opinião e o direito de pensar, mas nunca fui uma pessoa que diz qualquer coisa, mas as coisas como elas são. Passei por um período difícil, muito, muito difícil, mas já passou. Lutarei até o final porque sei o que posso dar”, completou.

O golpe foi ainda mais duro a Pjanic porque ele diz que sempre sonhou em jogar pelo Barcelona. “Eu sempre gostei do jeito de jogar do Barça, gostava de ver os seus jogos. Estava claro que a filosofia do Barça nos últimos anos se adaptava ao meu futebol e ao que eu gosto. E quando estava dentro do Barça, quando vê os jogadores, percebe que era com isso que sonhava de fora. Para mim, sempre era um grande objetivo jogar em um clube como o Barça, mas não esperava uma situação assim tão complicada, em todos os sentidos”, disse, citando também a Covid-19 que percorreu toda a temporada dele com a camisa azul-grená.

“Fiquei emocionado quando assinei mais pelos meus pais, pensando em quando eles deixaram a Bósnia. Estava muito orgulhoso por eles, mas também era um sonho para mim. Estava muito feliz na Juve, em um clube extraordinário, mas o Barça estava há dois anos tentando me contratar. Houve outra oportunidade, aconteceu, e eu estava muito feliz, normal, estava em um clube em que todos os garotos sonham em jogar”, acrescentou.

Pjanic explicou que aceitou reduzir seu salário para defender o Besiktas simplesmente porque quer voltar a jogar futebol com regularidade e também falou sobre um possível retorno ao Barcelona. “Sou alguém que gosta de jogar futebol. O lado econômico é sempre importante. Mas, para mim, o que eu mais gosto na vida, depois do meu filho, é jogar futebol. Ser feliz, lutando, viajando com meus companheiros, gosto de tudo que envolve o futebol”, disse. “Eu tenho contrato com o Barcelona, sempre falei muito bem do clube, mas não tive sorte com esse treinador. Mas o Barça é sempre o Barça. Você pensa dez vezes antes de sair, mas, se tenho que escolher entre ficar mais um ano tendo zero minutos ou lutar por títulos, jogar a Champions, 30-40 jogos… vou jogar. Estou focado e contente por isso. Não vejo a hora para começar esta temporada com o Besiktas e acredito que serei muito feliz ali”.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo